por Marco Collares

Em primeiro lugar, gostaria de enfatizar que gosto muito do personagem criado por Bob Kane, e que constantemente leio e releio HQs de Batman, incluindo o arco da Era de Prata escrito por Denis O'Neil, o não menos relevante O cavaleiro das trevas, de Frank Miller, a obra cult A piada mortal, de Alan Moore, como também o igualmente impactante Asilo Arkham, de Grant Morrison.

Considero todas as obras mencionadas verdadeiras referências do gênero super-heróis e não tenho dúvidas de que tais obras auxiliaram na iconização do personagem, conferindo a ele uma tonalidade quase mítica. Essas HQs foram fundamentais na constituição de um rico imaginário para os leitores, não somente pela excelente qualidade das tramas, como também por apresentarem o famoso arquétipo do vigilante detetivesco pulp em um mundo mais próximo ao nosso, mais palpável, mais cotidiano e atual (em seus respectivos contextos), ou seja, por mostrarem ações e relações mais plurais, no sentido de apresentarem os defeitos e as obsessões de Bruce Wayne e uma série de elementos humanos que antes eram camuflados ou suprimidos pelas cenas de sopapos regados a onomatopeias policromáticas, carros góticos bizarros e equipamentos ao estilo Mandrake.

O mesmo vale para o excelente filme O cavaleiro das trevas, de Christopher Nolan, e seu senso de pretenso realismo e pragmatismo em torno do ambiente ficcional e dos coadjuvantes do Batman, incluindo o famoso vilão Coringa e sua lógica hobbesiana no que tange ao instinto de sobrevivência imanente a todos nós. Fora todo o senso estético do filme regado a uma ação e a uma fotografia que deixam de lado o excesso de computação gráfica para dar lugar a cenários, modelos, fios, máscaras, efeitos de câmera e afins, tudo com o propósito de alcançar um impacto mais "realista", segundo palavras do próprio diretor em entrevistas.

Nolan e seu pretenso realismo

Pois bem. A questão que coloco se resume a esse "pretenso realismo inerente" em torno do Batman, um realismo comumente apregoado por artistas, roteiristas, leitores e aficionados, à exaustão. Mais de uma vez perguntei a amigos, conhecidos e fãs do personagem sobre filme de Nolan e a reposta usual se deu em torno da frase: "gostei porque achei realista". O mesmo vale para opiniões de botequim no que concerne ao personagem em si. Quantas opiniões seguiam a cartilha do "eu gosto muito mais do Batman do que do Super porque ele é mais realista, porque não passa de um homem comum".

Em primeiro lugar, o fato de um personagem ser aparentemente próximo a um homem comum não o faz ser necessariamente realista, isso porque "ser humano" é algo que vai além das características fisiológicas de nossa natureza mortal (como daquele sujeito que em todos os sentidos parece um mero mortal, mas que possui um senso moral sobre-humano, no sentido de ser incorruptível em qualquer situação). Em segundo lugar, porque não basta existirem personagens aparentemente comuns para que uma obra seja realista, como bem comprova o conto Alice no país das maravilhas e tantos outros personagens como a gente que visitam lugares completamente míticos, fabulosos e fantasiosos (por acaso um homem comum não ficaria completamente insano no País das Maravilhas, tal como ficou o Chapeleiro Louco?). Em terceiro lugar, porque, apesar de parecer humano, Batman, em todas as mídias onde foi representado (incluindo a caricata série de TV dos anos 1960 estrelada por Adam West) fez coisas que pessoas comuns jamais fariam, tais como lutar com os punhos e diversas bugigangas contra criminosos munidos com armas de fogo, estando envolto em uma capa e travestido de morcego. Desculpem por escrever e acentuar o óbvio, mas sobreviver durante anos esmurrando criminosos pelos becos escuros de uma cidade fictícia chamada Gotham está longe de ser algo palpável e realista segundo critérios válidos e racionais.

Batman seria tão realista quanto James Bond, Sherlock Holmes, Indiana Jones, Rambo e todos os demais personagens que apenas se parecem com pessoas comuns à primeira vista, mas que fazem coisas fisicamente e intelectualmente impossíveis para qualquer um de nós, mortais do mundo real. Se pararmos para pensar um pouco, concluiremos que é mais próximo da realidade um alienígena super-humano vergando uma ridícula cueca por cima das calças (até porque não sabemos como é a moda em Krypton) do que seres humanos sem poderes quaisquer realizarem tudo aquilo que todos os personagens citados acima conseguem.

Rambo: tão realista quanto Batman

Isso sem falar no fato de que nenhum filho de qualquer mega empresário do mundo real se tornaria, sob quaisquer circunstâncias reais, o Batman, mesmo após a morte traumática dos pais em um beco lúgubre e sujo. Isso é facilmente comprovado pela própria realidade que nos cerca: existem milhares de pessoas no mundo real, filhos de empresários ou não, que perderam entes queridos em assaltos e crimes quaisquer e nenhum deles, sob quaisquer circunstâncias ou situação se transformou em algo próximo ao Batman pelo que se sabe. Ou seja, realismo é aquilo que em situações reais acontece e não aquilo que em situações reais não acontece.

This is real life, bitch!
Estou falando aqui de um sujeito trajando roupas de morcego que literalmente sai saltitando pelos arranhas céus de uma grande metrópole ou mesmo que se locomove velozmente pelas vias públicas em um carrão estranho e estilizado. Nem vale argumentar que existem, pelas vielas de alguma grande metrópole, indivíduos fantasiados como o Batman. Caso existam, bem, tais indivíduos devem ser completamente incompetentes no combate ao crime (eu nunca vi no jornal qualquer manchete do tipo, "famoso gângster nova-iorquino foi preso pelo vigilante mascarado denominado Mosca") e provavelmente se tornaram vigilantes após leitura de alguma HQ dessa natureza (casos excepcionais em que a realidade imita a ficção).

Realmente não existe nada de realista no conceito do Batman enquanto personagem ou metáfora da vida urbana mortal das grandes cidades, nada de realista no conceito de alguém vergando um collant cinza de morcego enquanto combate os mais perigosos delinquentes com equipamentos diversos e ultrassofisticados para levá-los à justiça. O que temos é um mero cenário que lembra em alguns aspectos o mundo real, um protagonista ficcional voltado para entreter crianças e adolescentes a partir de aventuras irreais, no máximo passando por situações que lembram alguns aspectos da vida real.

Normalmente obras realistas tratam de pessoas e temas comuns ao extremo, do cotidiano, de relacionamentos e situações usuais, ainda que representem personagens e obras de ficção. Podemos chegar ao mais próximo do realismo em um documentário, uma foto ou sequência de fatos narrados, um texto de cunho puramente descritivo, uma narrativa de acontecimentos, talvez um diário de vida, uma entrevista de história de vida. Mas, mesmo assim, são todas apenas representações da realidade, claro, uma visão que toma certas partes pelo todo, visto que nenhuma obra consegue e nem se pretende abarcar o todo real do mundo e das coisas reais do referido mundo (uma leitura da obra do filósofo Michel Foucault ou mesmo do historiador Roger Chartier poderia auxiliar nas divagações inerentes entre realidade e representação do real).

Batman e a eterna obsessão pelo realismo
Mesmo assim, muitos argumentarão que em paralelo a outros tantos personagens das HQs, o Batman seria um dos mais realistas. Como apontado mais acima, eu já expressei minha opinião que isso não se confirma de fato, que o personagem está longe de qualquer realismo em suas premissas fundamentais, tratando-se sim de um conceito eminentemente infanto-juvenil. O que acho do Batman, e considero que o filme de Nolan fez isso como ninguém, é que ele pode ter um alto grau de verossimilhança se bem estruturado e trabalhado narrativamente com esse propósito e isso não significa ser realista, mas sim ser mais palpável dentro de seu absurdo ficcional, de sua irrealidade inerente.

Em termos conceituais, o termo latino veri similis (de onde advêm a palavra verossimilhança), tratado por retóricos e oradores do porte do político e senador romano do século I a.C, Cícero, significava algo que, em dada situação, poderia ser aproximado ao real, ainda que não fosse a realidade concreta, mas sim um espelho do real, mesmo que a imagem representada não fosse a coisa em si e até pudesse ser distorcida ou invertida. Verossimilhança significava que "se aconteceu tal coisa, em dada situação, poderia acontecer isso ou aquilo a partir do fato e isso após uma análise sobre o que se sabia sobre o assunto em questão, ainda que fosse algo inexistente e irreal".

Assim, o que era verossímil não era necessariamente verdade ou realidade enquanto tal. Como bem afirmou Aristóteles sobre o assunto, "seria verossímil que namorados se amassem e inimigos se odiassem, ainda que não fosse verdadeiro ou real que isso acontecesse em todos os casos ou em algum caso específico, pois existiam namorados que em dadas situações se odiavam e inimigos que se amavam".

Em outras palavras, um sujeito do porte do Batman não seria considerado realista em hipótese alguma na visão de qualquer orador grego ou latino de renome e nem para qualquer um de nós que saiba minimamente a diferença entre realidade e representação, verdade e verossimilhança. O que posso sustentar com tudo isso é que, em algumas obras, principalmente no supracitado filme de Nolan, Batman e seu ambiente ficcional, incluindo muitos de seus coadjuvantes, possuem certa verossimilhança.

Ora, apesar de Batman não ser verdadeiro ou real, apesar de ser irreal qualquer ideia de um sujeito fantasiado de morcego lutando contra o crime, é verossímil na obra de Nolan, que, dada a ideia de que isso seria a tônica de uma obra ficcional, tal personagem irreal faça, em dada situação, coisas palpáveis e verossímeis segundo o que se apresenta na obra. Em outras palavras, o filme do Nolan se utilizou de alguém irreal ao extremo, o Batman, e deu-lhe coisas palpáveis para ele segundo graus elevados de verossimilhança, dando um aspecto apenas pseudo-realista às narrativas, tudo isso auxiliado pelo fato de os espectadores que viram o filme confundirem conceitos como os de verdade, realidade, representação e verossimilhança.


Nolan e outros tantos roteiristas que apresentaram doses de pseudo-realismo ao Batman estavam afirmando que, dado o absurdo de tudo isso, tal conduta ou ação seriam verossímeis em dada situação, ainda que em essência toda a situação envolvendo um sujeito vestido de morcego seja irreal ao extremo. Diversos exemplos podem ser citados a partir do filme de Nolan, como a pretensa realidade de pânico coletivo apresentado ao longo da narrativa ou o experimento sociológico do Coringa ao final do filme, ou mesmo uma entrevista em que um promotor público, Harvey Dent, afirma ser na verdade o Batman.

A partir dessa grande confusão conceitual do que seja realismo e verossimilhança, muitas pessoas passaram a tratar algo irreal como papável sob diversos critérios realistas, esquecendo-se de que se trata de algo palpável apenas sob critérios verossímeis. Mas vejam, por poder ser verossímil, e isso apenas em algumas obras ou arcos, Batman é um personagem bastante interessante, talvez muito mais próximo de arquétipos junguianos do que qualquer outra personagem do universo ficcional de super-heróis.

Ano um, de Miller, é uma das obras mais verossímeis envolvendo Batman
O Batman representado como um sujeito real se tornou uma tradição dos quadrinhos, seguindo a onda dos escritores nerds que passaram a figurar nas grandes editoras de quadrinhos a partir do final da década de 1960. Autores como Roy Thomas, Denis O'Neil, John Byrne, Cris Claremont, Frank Miller, dentre outros, se tornaram famosos e reconhecidos ao trazerem toques de verossimilhança a personagens de quadrinhos mainstream de super-heróis, ainda que a tradição desses quadrinhos tenha difundido a fórmula de que se tratava de narrativas realistas ou pior, que os personagens eram realistas em essência.

Esse engano se deu por motivos variados e cito aqui algumas conclusões de Grant Morrison sobre o assunto na obra Superdeuses. Por um lado, afirma o roteirista inglês, se trata de uma teimosia do mundo adulto que se nega a aceitar a distinção entre fantasia e realidade (diferentemente das crianças, que brincam de faz de conta sem culpa, sabendo que tais brincadeiras não são reais e nem devem parecer assim). Por outro lado, desvela a vontade de um público adulto que cresceu lendo HQs voltadas para crianças e adolescentes e que quer continuar com seu hobby de leitores assíduos sem a necessidade de explicarem os motivos de ainda serem leitores de um gênero de fantasia. Além disso, tal movimento se deve a diversificação e ampliação do público consumidor das HQs da indústria cultural mainstream ao longo dos anos 1960-1970, visto que as grandes empresas de quadrinhos procuravam maximizar seus lucros vendendo narrativas infantis para adultos que, em razão de trabalharem, tinham mais poder aquisitivo.

Morrison e sua leitura de Batman

O fato é que o ethos do realismo nas narrativas de super-heróis permaneceu, e muitos leitores, espectadores e fãs acreditam piamente nessa premissa, qual seja, de que pessoas de collants contra o crime podem ser realistas se representadas em situações verossímeis. Como uma mera carapaça, o realismo nos super-heróis não passa disso, sugerindo apenas uma fórmula para vender narrativas de um gênero eminentemente infanto-juvenil. De minha parte, saber dessa distinção entre realidade e verossimilhança em nada muda meu gosto pelos quadrinhos de super-heróis, sejam aqueles mais escapistas ou mais verossímeis. Ao contrário.

Tal como afirmado por Mark Waid e Kurt Busiek em diversas entrevistas, eu aceito o gênero de super-heróis em sua natureza eminentemente infanto-juvenil, seu irrealismo inerente ou seu pseudo-realismo regado a verossimilhança. Aceito, me divirto com algumas narrativas e sigo adiante com meu hobby. O que gosto de Batman não é o fato de ele ser real ou de expressar qualquer espelho do mundo real, mas por ser verossímil às vezes em sua irrealidade inerente, por ser eminentemente ficcional e incrivelmente mítico.

16 comentários

SÍLVIO RIBAS disse... @ 21 de julho de 2015 16:47

Importante o debate.

Jacques Beduhn disse... @ 21 de julho de 2015 16:57

Concordo integralmente e só acho que, como ninguém aqui é filho de bilionário e teve os pais mortos em um assalto, não podemos dizer com certeza se um Batman não surgiria daí.
É óbvio que ele não duraria muito, mas é a intenção que conta.
Abraço, Marco véio.

Fábio Ochôa disse... @ 21 de julho de 2015 18:07

Jacques, ninguém manteria a mesma obsessão e ideia fixa monotemática ao longo de toda uma vida (ainda mais tendo tudo às suas mãos e atravessando o mar de experiências e tentações que é a adolescência). Psicologicamente é inverossímil, a vida sempre lhe tira desse caminho, seja através do sexo oposto (ou do mesmo, enfim), de laços de afeto e amizade, etc. Isso é a vida.

Ozymandias Realista disse... @ 19 de agosto de 2015 13:49

Permita que eu me recolha a minha caverna para poder formular um contratexto.

Wagner Williams disse... @ 9 de setembro de 2015 18:11
Este comentário foi removido pelo autor.
Wagner Williams disse... @ 9 de setembro de 2015 18:12

A proposta do texto (muito bem escrito) é interessantíssima. Todavia, eu o contesto em sua premissa. Há um equívoco somado a um impulso de problematizar algo óbvio.

➨ *O equívoco*
Quando se diz que tal personagem é "realista", não se está querendo dizer que ele é constituído na/com a realidade que nos cerca. Mesmo que muitos não tenham consciência disso e apenas reproduzam um jargão, "realista" é uma alusão à _estética da literatura realista_, que articula em sua composição artística a _verossimilhança_ (citada pelo autor do artigo), a análise psicológica (ou intimismo), a intervenção humana na realidade, o esforço em retratar a realidade não sob uma ótica particular, mas geral (universalismo), e a máxima _"as coisas não como são, mas como poderiam ser"_. Vejam que em nada tem a ver com a realidade nua e crua. "Realismo" é uma _estética artística_ e não o real reproduzido e transposto. *O Batman é um herói realista, assim como todos os super-heróis que estão sendo abordados segundo às características da Era Moderna dos Quadrinhos,* do Capitão Marvel a Marvelman, de Superman a Constantine, de Tex a Spawn.

➨ *O óbvio*
_"Realmente não existe nada de realista no conceito do Batman enquanto personagem ou metáfora da vida urbana mortal das grandes cidades, nada de realista no conceito de alguém vergando um collant cinza de morcego"_. Ora, mas para quê problematizar tanto isso, se, ao final de tudo, estamos discutindo sobre arte (gibis)? Arte é algum espelho fiel e inamovível do real? Ora, se nem o jornalismo é, o que dizer da arte? O autor aprofundou algo desnecessário, e não atentar-se para a obviedade me soou como quem fala para leigos em arte ou em quadrinhos.

➨ *Agora minha posição*
_"[...] Eu aceito o gênero de super-heróis em sua natureza eminentemente infanto-juvenil"_. Sinto muito, mas não é. Já foi, mas não é mais. O gênero super-herói, desde a Era de Bronze, possui uma natureza mítica e não infantil. Isso porque os super-heróis passaram a ser percebidos como uma atualização desdobrada dos antigos deuses das mitologias mundiais. Esses deuses não só explicavam a realidade como constituída, mas eram referências psicológicas e intelectivas para toda uma geração, para todo um povo, para toda uma cultura ou nação. As HQs heroínicas nos conectam com a mitologia em seu estado contemporaneizado, imanente, empírico e materialista, mas sem abrir mão do fantástico. Para isso eu indico Platão (_A República_), Freud (_O Id & O Ego_), Jung (_AION - Estudo Sobre o Simbolismo do Si-Mesmo, O Homem e Seus Símbolos_) e Maria Lúcia de Arruda Aranha, Maria Helena Pires Martins (_Temas de Filosofia, cap. V: O Mito Hoje_).

Marco Collares disse... @ 10 de setembro de 2015 10:17

Opa, um minuto Wagner, espere eu pegar meu cachimbo e meu monóculo e preparar um contratexto cheio de conceitos minuciosamente elaborados.
Bom, de qualquer forma agradeço o comentário. Se bem que a noção de realismo é diferente dependendo de quem interpreta, seja no chamado senso comum, seja de forma mais acadêmica. Muita gente pressupõe realismo como verdade nua a crua e a problematização do post se da nesse sentido, visto que podemos trabalhar com a noção de veromissilhança (tal como poderia ser). Um segundo ponto é sobre ser ou não infanto-juvenil. O conceito de super herói é infanto-juvenil, independente de toda a carga mitológica elaborada a posteriori (não te sintas mal em ser um personagem vestido de colant Ozymandias. Te diverte com isso). Também li Joseph Campbell e acho óbvio também falar em carga mítica e super heróis (trilhões de teses e dissertações falam sobre o assunto e isso, apesar de óbvio é legal). Mas gosto dos trilhões de estudos de super heróis que cotejam ideias de Platão ou mesmo Freud, Jung, e afins (autores que, aliás traçam caminhos até a tragédia grega e mitologias para tratar de elementos psíquicos, simbólicos ou mitológicos na sociedade e tal). A obviedade é presente aqui também. Se bem que as vezes acentuar o óbvio diante do que se está debatendo na sociedade sobre algum assunto vale a pena. Li e vi muita gente falando em realismo no Batman e falavam quase que como se o cara pudesse mesmo existir, significando que muitas pessoas entendem de uma forma diferente da que tu colocas e isso me levou a escrever (nem todo mundo é genial como o senhor, Ozymandias. E olha que o teu plano de plantar um extra terrestre em sei la, NY para acabar com a Guerra Fria era de uma idiotice sem tamanho, que me perdoe Alan Moore e sua obra genial em vários aspectos). E não há necessidade de sentir muito ao discordar de alguém, é só discordar. Vejo super heróis como um conceito infanto juvenil com elaborações distintas dependendo do público alvo em dado momento e de acordo com as questões levantadas pelos autores e pela indústria cultural (que, diga-se de passagem, adora falar em realismo como sendo verdade nua e crua para vender comics), mas jamais como algo adulto em essência, levando-se em conta, claro, um contexto de racionalismo ou pretenso racionalismo. E sim, as postagens podem tratar de assuntos para leigos também. A proposta da Raio Laser é também para o grande público. Tenho artigos acadêmicos sobre quadrinhos se quiseres ler, mas aqui eu prefiro algo mais leve e lúdico, uma problematização que pode parecer óbvia para gênios do porte de um Ozyamandias, mas que pode ser interessante para pessoas que estão começando a traçar seus caminhos nos estudos sobre quadrinhos. Agradeço as dicas e te convido para um cachimbo na caverna dos intelectuais que adoram falar o óbvio como se fosse algo inovador. Citemos Confúcio... Não. Deixa assim. Vou fumar meu cachimbo e ler Madame Bovary. Abs.

Wagner Williams disse... @ 10 de setembro de 2015 13:52

(Tive de dividir meu comentário em 3 partes, pois o blog diz que tem de ter no máx. 4.096 caracteres). Parte-1: Elogios.

Devo parabenizá-lo por oportunizar um espaço de matérias/discussões de qualidade e com um nível acessível, em uma abordagem mais séria do que lúdica para a pop art. Antes de tudo eu não sou o "Ozymandias Realista" (de 19/09), se bem que eu o conheço de navegação; sou outro usuário. Compreendi no artigo que sua intenção foi esclarecer (e distinguir) os difusos conceitos – tornados jargões – entre os espectadores de Batman, tanto em filme quanto em quadrinho. Esse esforço mais a forma inteligente com que produziu o artigo são incontestes, admiráveis, e foi isso que me chamou a atenção, coisa rara na web em se tratando de super-heróis. Agora passemos ao núcleo da discussão.

Wagner Williams disse... @ 10 de setembro de 2015 13:55

Parte-2a: Realismo/realista – Uma coisa é o que os leigos acham, falam e fazem; outra coisa é o que o objeto artístico é. São instâncias distintas que ora podem se coadunar, ora se bifurcar, mas o inerrante é que a impressão que o público leigo tem não modifica a constituição originária do objeto. Mesmo que os noobs achem que Chapeuzinho Vermelho tinha um gorro rosa (e que foi a Disney quem fez mudanças), isso não mudará o fato de que, na obra originária, os irmãos Grimm colocaram, conforme o folclore alemão, o capuz da menina como vermelho. Vários noobs também relativizam sua percepções sobre Alice: uns acham que ela, por ser de jeito indomado, é como aparece em "Grimm Fairy Tales", da Zenescope, no traço do J. Scott Campbell; outros a acham como a Disney apresentou, mas independente disso, ela é como está em "Aventuras de Alice no Subterrâneo" (obra matriz para "No País das Maravilhas" e "Através do Espelho"), de Lewis Carroll. Há várias discussões a respeito dessa temática, pois "o olhar faz o objeto", "a obra é parte do que percebe o interlocutor", etc., porém, os elementos universais são imovedouros. Dito isso, não importa se a "noção de realismo é diferente dependendo de quem interpreta", o Realismo ("acadêmico", como queira) é o realismo, indiferente do que achem ser ou como queiram expressar "realismo". Nós estamos lidando com um objeto artístico (o Batman) e como objeto artístico ele tem de ser tratado. E o realismo é a estética, uma técnica, um método, uma concepção de arte que lida com os recursos que listei:
● "verossimilhança";
● "as coisas não como são, mas como poderiam ser"
● "análise psicológica";
● "universalismo";
● "intervenção humana na realidade".

Wagner Williams disse... @ 10 de setembro de 2015 13:56

Parte 2b: (continuação). Foi a estética realista (na literatura, na pintura, no cinema e na TV) que popularizou tanto o nome "realista" quanto suas características, de modo que virou um jargão popular: ex. "seja mais realista e menos sonhador..."/"encare os fatos com realismo". Não foram os leigos que, de repente, passaram a conceber e a classificar as coisas como "realísticas"; eles apenas reproduzem um conceito já consagrado nos multimeios (filosofia, literatura, teatro, cinema, TV, games, pop art), porém confundindo as coisas, pois leigos são. Mesmo assim, quando as pessoas dizem "o Batman é mais realista" estão fazendo – de inconsciente – alusão obscura à estética artística do Realismo. Num nível mais profundo e corrompido, estão querendo dizer isto: "O Batman é mais humano do que os outros heróis, e os dramas que o cercam se aproximam bastante de um humano real". "É mais humano", porém não é um ser humano (é uma entidade fictícia); "se aproximam", mas não são como tal na realidade. A título de exemplificação com o mesmo jargão, a 9ª arte consolidou o traço e a pintura de Alex Ross, desde Marvels, como sendo uma "arte realista". Há quem diga dela: "Uau! É como uma fotografia! É como uma câmera donde podemos ver os super-heróis!", contudo não é nada disso. A arte realista de A. Ross emula, simula, alude ludicamente ou faz lembrar pessoas reais vestidas no traje heroínico, mas não é ainda como no real da vida, pois a isso servem as fotos de cosplayers. Ainda assim, a arte de Ross é dita "realista", pois está em conformidade com os recursos da estética do Realismo artístico. Pois bem. O Batman é realista sim, bem como todos os super-heróis (mais os personagens de gêneros afins, como Preacher, Hellblazer, Sandman, Monstro do Pântano, Planetary, Authority, Frequência Global, Os Invisíveis, etc.) que estão na Era Moderna dos Quadrinhos, pois essa é a tônica da época – embora o mérito do realismo incorporado às HQs se deva ao Batman, em 1986, se bem que minha opinião coloque, como pioneiro do realismo, o Miracleman, da fase Alan Moore (1983). Nenhum quadrinho heroínico é feito, de lá pra cá, fora dos moldes realistas. É necessário que você aceite isto, que Batman é um personagem realista no que se refere à arte, pois quadrinhos é arte de linguagem mista (verbal-textual, não verbal-visual), e seus princípios são os princípios do gênero narrativo literário. E é pois, por tais gênero e princípios, que os analíticos e os leigos associam o Homem-Morcego ao realismo, e não ao mundo real.

Wagner Williams disse... @ 10 de setembro de 2015 13:57

Parte-3: Conceito de super-herói. – Veja bem... Se sua opinião (pessoal e subjetiva) é a de que a essência dos quadrinhos heroínicos e que os super-heróis são "um conceito infanto-juvenil, independente de toda a carga mitológica elaborada a posteriori", então não há mais o que debater. É assim que você os concebe, e isso é seu. Agora, como eu referenciei alhures, "uma coisa é o que se acha, outra é o que a coisa é", o conceito de super-herói não é infantil. Os quadrinhos de super-herói e suas concepções já foram (de 1930 a 1986) substancialmente infantis, porém não mais são; e ressalto mais: o "conceito, a essência" sobre o ser super-herói jamais foram – apesar de terem sido apropriados e acomodados um dia para o lúdico. O conceito de super-herói é de origem e natureza espirituais: as divindades salvadoras, as entidades infra-/sobre-naturais do bem e do mal (maniqueísmo), as criaturas de assombração das matas, os semideuses e as semideias, os seres híbridos errantes, o mágico xamânico, a feiticeira, os profetas, oráculos, videntes, adivinhos, médiuns, o rei (ou o faraó), o espadachim, o cavaleiro, o guerreiro, o arqueiro, o viking, os guardiões, os arcanos, o navegador descobridor de mares, o pirata, o mercenário, a caçadora da tribo, a amazona, samurais, xoguns, ninjas e katanos. Numa roupagem mais contemporânea, essa essência do super-herói reconfigurou-se nos tropeiros imperiais, no detetive, no policial, no bombeiro, no salva-vidas, nas forças armadas, na enfermeira, no médico, no cientista, no investigador, nos terroristas, nos serial killers, nos serviços de inteligência, nas forças-tarefas de resgate, nos esquadrões ostensivos, nos lutadores de artes marciais, nos atletas, nos artistas, nos famosos, em personalidades eminentes da História. Tudo isso, todo esse levante heroico, passou e passa pelo imaginário infantil, juvenil e adulto, moldando nossa psiquê, nossa personalidade, nosso caráter, nossas referências vitais. Os quadrinhos, numa época específica, somente usou isso em função das crianças (que naturalmente sublimam essas referências), vestindo tudo em trajes de super-heróis mascarados e coloridos. Os quadrinhos se apropriaram do conceito de super-herói para a humanidade e contra o mal, mas não foram os quadrinhos que o criou. Quando chegou o tempo viável, os artistas e a indústria fizeram senão devolver para às HQs a essência que o ser herói tinha antes mesmo de existirem gibis e crianças. Portanto, o conceito e a essência de super-herói é a priori e antes, infinitamente antes, das HQs, de modo que, se um dia elas (as HQs) se extinguissem, e se a infância não mais existisse, o imaginário do herói como exemplo e referência continuaria no âmago da humanidade adulta. Desejar, imaginar-se ou inspirar-se em ser um super-herói constitui parte existencial do inconsciente coletivo da humanidade como um todo, e não apenas das crianças. Bat-abraço.

Marco Collares disse... @ 10 de setembro de 2015 16:03

Eu já considero o debate oriundo de lugares diferentes Wagner, no meu caso de um historiador que lida com recepção, que interage com percepções do público sobre uma forma de narrativa, enquanto tu lida com perspectivas da arte e da estética, com a forma como se enquadra o dito realismo segundo as convenções acadêmicas. Sobre a minha percepção do conceito de super herói ser infanto-juvenil, como conceito, sim, em todos os sentidos. Não vejo ponto de debate nisso. Só não é consenso quando se tenta criar relações de similitude onde não existe, como misturar com rituais xamânicos ou vikings. Tem um livro muito legal sobre isso chamado Nossos Deuses são Super Heróis. Teorias forçadas a meu ver, mas agradável de ler. Mas enfim. não verei o Batman em Homero por mais que leia e pesquise Homero. abs.

Marco Collares disse... @ 10 de setembro de 2015 16:10

Ah. Também quero te elogiar pela forma como tu elencou teus pontos, não somente pela qualidade das tuas ideias como pela crítica construtiva ao meu texto. Vou pensar muito a respeito de tuas considerações. Outros textos virão, outras discordâncias e debates, ainda mais sobre um assunto tão fascinante como quadrinhos e mídias.

Marco Collares disse... @ 10 de setembro de 2015 16:37

Cara, mas agora é que percebi que o Wagner é um e o Ozymandias é outro. To até com medo do contratexto do Ozy. vai ser enorme e cheio de conceitos minusiosamente elaborados. Bom Wagner, pelo desculpas pelo engano e desta vez me despeço. Espero que possas fazer suas críticas sempre quando quiser e que sigas nos acompanhando na RL. O site depende muito de leitores como tu que gostam e conhecem do assunto. Abs.

Wagner Williams disse... @ 10 de setembro de 2015 18:48

Tranquilão, Marco Collares. Foi uma prazer sem igual. Parece-me que, enfim, descobri um lugar idílico na crítica da 9ª arte. Parabéns pelo espaço, e estarei a acompanhar o blog. Deixo o convite para a comunidade de HQs de que participo no g+ (e de onde conheci o link desta postagem):
https://plus.google.com/u/0/communities/102512425912426917311

Satisfação. Bat-abraço.
______
Ps: Sobre xamãs, vikings, etc., não é uma tentativa de criar relações de similitude onde não existe. Isso está muito bem documentado nas refs. bibliográficas que citei (no 1º comentário). É porque, via de regra, os xamãs eram vistos por sua comunidade como sendo um herói, capaz de curar, conjurar magia, abençoar/amaldiçoar, ser mensageiro dos deuses, aplacar suas iras. As crianças e os adolescentes dessa cultura tinham o xamânico como um almejo de vida. O mesmo sobre o viking: ele era um ícone, o maior exemplo de bravura, destemor, habilidade, um super-herói de seu povo. E claro, uma referência de vida para os pequenos que, não raro, sonhavam em um dia porta um elmo, uma armadura e um machado em cima duma nau.

Marco Collares disse... @ 10 de setembro de 2015 21:24

Acompanharei lá sim, sem dúvida. Nos falamos. Ah, como historiador de história antiga que fui outrora (vamos dizer que deixei essa linha de pesquisa para seguir outro viés, agora mais atual), gosto muito de estudar cultos pagãos e sociedades como a dos vikings, xamânicas e afins. Só não vejo ligação entre quadrinhos de super heróis e estas sociedades, mas enfim. Quem sabe essas teorias de super heróis serem expressões de aspectos interiores e psíquicos dos seres humanos, expressos em conjuntos de corpus míticos em sociedades não-cristãs sejam realmente válidas (conheço as teorias, mas fico na premissa da curta duração histórica e não da longa duração de Braudel no que tange aos quadrinhos de super-heróis, que a meu ver estão estritamente vinculados a indústria cultural) e eu esteja enganado nas minhas premissas sobre o assunto. Teimosamente mantenho minhas ponderações com ressalvas. O legal desse tipo de debate é aprender e reitero que foi extremamente prazeroso.
PS: se gostas de obras sobre mitologias te indico alguns autores legais da história antiga. Pierre Vernant, Pierre Vidal-Naquet, Claude Mossé, Móses Finley. Além disso te indico um livro muito bom do Paul Veyne chamado "Acreditavam os gregos em seus mitos?". Ajuda nesse tipo de estudo que estás a propor.

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