por Ciro Inácio Marcondes

Antes de propriamente retomar o intenso trabalho que será reformular a nossa querida Raio Laser em 2015, cabe um post que retome um pouco a origem dos quadrinhos. Quero dizer: que busque mais um mito de origem para os quadrinhos do que qualquer outra coisa. Trilhar um caminho vetorial e teleológico para a História nunca é uma opção muito legal, já que tendemos a condensar o mundo numa visão seletiva (logo, impositiva) e simplista, perdendo tudo o que ocorre ao redor (justamente o que há de mais interessante). Porém, um exercício de fantasia histórica não vai nos fazer mal. Há mais, de tudo que envolve nosso hábito de ler quadrinhos em 2015, no imaginário japonês do séc. XIX, do que talvez se costume considerar. Vamos dissecar isso um pouco .

Para os que tiveram a oportunidade de ver a disputadíssima exposição “Hokusai”, nas galerias nacionais do Grand Palais em Paris, ficam algumas impressões e interrogações. Dentre as centenas de desenhos, gravuras e pinturas expostos (produção entre 1778 e 1849), fica na memória um vergalhão de ideias, sketches, imagens, rabiscos, tudo trazido à tona de maneira selvagem e num cenário de difícil contextualização. Afinal, requer-se uma grande expertise em arte japonesa para traçar a real diferença entre um egoyomi (a saber: arte para calendários ilustrados) e um surimono (gravuras para pendurar na parede) dentro do contexto do início da carreira do homem que mundialmente ficou conhecido como Katsushika Hokusai, mas, tal qual um David Bowie de um mundo pré-moderno no Sol Nascente, assumiu várias identidades durante a vida.


A exposição, para a qual tínhamos de enfrentar filas dentro das próprias salas para poder observar as minúcias dos cadernos e desenhos diminutos, tinha essa coisa de causar espanto ao se deparar com uma cultura estrangeira: como realojar aquilo dentro das nossas referências estéticas (de desenho, pintura, quadrinhos) da arte ocidental a partir daquele volume sem freio de produção rotineira e maciça, que não sabemos se chamamos de genial ou banal? Vale citar a anedota sobre os impressionistas, que, seduzidos pelo uso bizarro da perspectiva “renascentista” por Hokusai e outros pintores da época – uma das cópias da famosa gravura da onda está inclusive na casa de Monet (em Giverny), que era colecionador do homem –, pensavam que aqueles desníveis nos tamanhos das figuras nas imagens eram uma reflexão poética sobre o espaço e o tempo. Na verdade, estas imagens eram muito populares justamente porque a perspectiva, utilizada de um modo um tanto grosseiro, parecia absolutamente cômica para o público japonês, que comprava as estampas como forma de piada.
Norakuro: exemplo de uma mangá pré-moderno
Para um fã de quadrinhos, logicamente é interessante pensar a arte de Hokusai não apenas numa certa linhagem “evolutiva” que compreende: a pintura, o desenho e as gravuras japonesas do Séc. XIX; a chegada dos primeiros quadrinhos britânicos no final deste mesmo século; as primeiras imitações que se seguiram nas primeiras décadas do séc. XX (toba-e); e até a completa inovação do mangá empreendida por Tezuka e outros a partir da ocupação americana no pós-guerra (através do contato com o quadrinho moderno). É preciso pensar aquilo tudo que Hokusai empreendeu dentro do caldeirão cultural no qual esteve imerso em cerca de 70 anos de carreira. Vejam bem o tipo sistemático que era: chegou a pedir, tal qual um FHC menos acovardado, que desconsiderassem tudo o que ele fez antes dos 70 anos. E disse que só atingiria o esplendor artístico aos 110 anos, que infelizmente não alcançou. Afinal de contas, o que o século XIX ensinou ao século XX está na matriz do surgimento dos quadrinhos (assim como do cinema, da psicanálise, da antropologia, etc.), e é mais importante pensar estas esferas de possibilidades culturais do que uma linhagem estanque de estilos e movimentos ou uma lista de artistas que se sucedem, cada um assumindo a paternidade dos pontos desta ligadura teleológica. Dito isso, e na forma de uma conclusão, vou destacar três pontos que acho interessantes na relação entre a arte de Hokusai e o mangá como o conhecemos:
Shunga
1 – Uma cultura de imagens: Hokusai ilustrou romances vagabundos e popularescos (kibyoshi), manuais de ilustração para artistas (edehon), romances sofisticados (gokan), calendários (egoyomi), cartas de baralho, cadernos de rascunho, retratos de artistas kabuki, paisagens para paredes, etc, etc. Uma das coisas que certamente o tornaram influente foi a possibilidade de transitar em diferentes mídias, ou seja, diferentes suportes (para diferentes fins) nos quais pudesse expressar todo tipo de conteúdo cultural vigente em sua época, da imagem erótica do shunga até as imagens aleatórias do primeiro manga. Hokusai, num Japão que lentamente se abria à modernidade no Séc. XIX, viveu em um ambiente iconofágico: a imagem estava por toda parte. Desde a reprodução calculada das gravuras e estampas até a modernização da imprensa e a popularização dos jornais em meados deste mesmo século. A obsessão em juntar a palavra e a imagem está, logicamente, na própria escrita (os kanjis), mas data também das pinturas em rolos do séc. XII (Toba). Ela nunca realmente abandonou o imaginário japonês. Talvez não tenha havido de fato uma separação entre uma escrita de superfície (em imagens) e uma escrita em linha (em palavras), como vimos no ocidente. Daí a imaginarmos o porquê de o Japão ser o país que mais produz quadrinhos no mundo, não é tão difícil. Hokusai viveu o esplendor desta cultura. Dentro deste contexto, sua influência é incalculável.

Um mangá de Hokusai
2 – Inventou a palavra mangá: é realmente muito difícil dizer que um sujeito nascido no séc. XVIII inventou uma palavra, mas é possível afirmar com razoável precisão que foi por sua causa que ela se difundiu. Afinal, mangá originalmente quer dizer “imagem diversa”, ou, eventualmente, dependendo da leitura, “imagem irresponsável” (no sentido de “livre”, “sem compromisso”). Basicamente, um mangá, no Séc. XIX, era um caderno de rascunhos livres. Hokusai foi o primeiro a comercializar mangás (da mesma maneira que o ilustrador contemporâneo e gabaritado publica seus sketchbooks hoje em dia). Suas estampas e desenhos eram tão admirados que ele recebeu inúmeras solicitações para publicar seus rascunhos, o que ele começa a fazer em 1810. Depois disso, esses cadernos se organizam em manuais de desenhos para iniciantes em vários volumes, que se tornam extremamente populares. Os desenhos destes cadernos não apenas são um inventário do cotidiano do Japão nesta época, com milhares de variações, como também apresentam poses, movimentos, traços estilísticos e linhas de ação que são, pode-se dizer, puro quadrinhos. Não à toa, havia na exposição duas interessantes montagens em vídeo que animavam estas “imagens livres”, fazendo materializar-se instantaneamente a ponte entre este fenômeno cultural do séc. XIX e os nossos “animês".
3 – Hokusai era um ilustrador de quadrinhos: para além de se pensar a disponibilidade midiática da época ou elocubrações sobre a origem da palavra “mangá”, talvez o fã de quadrinhos simplesmente se sinta tocado, ao entrar em contato com a arte de Hokusai, pelo seu estilo tão gritantemente parecido com o de um quadrinho contemporâneo. Não apenas por suas gravuras mais conhecidas, da série “36 visões do Monte Fuji” (dentre as quais consta sua Mona Lisa, “A grande onda em Kanagawa”), que funcionariam como o esplendor artístico do melhor quadrinista contemporâneo. Não. Trazer à tona o auge de um artista que trabalhou incansavelmente por mais de cinco décadas talvez simplesmente não seja justo com esta proposição. As “36 visões”, de um brilho onírico e de uma potência narrativa inigualáveis, influenciaram de Monet a Winsor McCay; de Kurosawa a Miiazaki. Elas extrapolam os quadrinhos, ainda que estejam na matriz deles.
Também não me refiro aos já citados e pioneiros manuais de desenho. Refiro-me, tão simplesmente, aos desenhos mais ordinários, geralmente os mais desprezados na exposição, de riquíssimo detalhamento em cenas majestosas, carregadas de movimento e ação, e que, apesar de tudo, guardavam a modéstia de serem ilustrações para livros baratos, lidos pela população mais comum. Bater o olho naquilo e ver os quadrinhos é mais ou menos como olhar para um retrato fotográfico muito antigo e reconhecer nele alguém com quem você convive no dia a dia. As ilustrações de livros de Hokusai carregam esta potência: ali reconhecemos o dinamismo de Goseki Kojima; a sobriedade de Yoshihiro Tatsumi; o detalhismo de Masahiko Matsumoto; a qualidade espectral de Shigeru Mizuki; o pessimismo de Kazuichi Hanawa; e até a estética de Frank Miller. Eis o mangá psicografado.                

Puro quadrinhos?

4 comentários

Timbuktu disse... @ 26 de janeiro de 2015 16:30

Sabia que a famosa frase de FHC "esqueçam o que escrevi" é um miss-quotation? Ele jamais disse isso.

Ciro disse... @ 26 de janeiro de 2015 16:47

Bem Schmidt, neste caso é como aprendemos em "The man who shot Liberty Valence": "Quando a lenda realidade, publica-se a lenda" :))

Linck disse... @ 28 de janeiro de 2015 02:00

Excelente texto, Ciro!

Raio Laser - CIM disse... @ 28 de janeiro de 2015 09:29

Valeu Linck!

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