por Ciro I. Marcondes

Lá pelos idos de 2002 eu era apenas um estudante de Letras e me lembro que, em uma aula de Literatura Brasileira Contemporânea, entre a prosa lacônica e enfadonha de João Gilberto Noll e os textos histéricos, wanna be contemporâneos de Marcelino Freire, caiu nas minhas mãos Dois irmãos, o hoje já clássico segundo romance de Milton Hatoum, publicado em 2000, sobre a eterna rivalidade de um par de irmãos gêmeos no seio de uma família libanesa-brasileira na Manaus do século XX. Nunca tinha ouvido falar. Li com voracidade, porque, na verdade, não se trata de um livro que simplesmente lemos, mas sim que consumimos.

Ao contrário dos autores citados, Hatoum fazia-se contemporâneo usando uma linguagem simples: não flertava com o cinema, não abusava de discursos indiretos livres e narrativas frouxas que se confundem com a errância do autor, e não fragmentava seus personagens em mil diferentes excertos para tentar redefinir o que seria um romance. Pelo contrário, buscava delinear cada aspecto de seu texto, e a polifonia da história se dava através de um vai-e-vem que engancha o passado no futuro sistematicamente. Sua modernidade residia, portanto, nos tipos de sincretismo entre as várias possibilidades de Brasil que são oferecidas ao leitor numa Manaus que hoje parece ainda mais remota e indefinível.




por Lima Neto

Prólogo -  Hicksville: uma pequena resenha

Há alguns meses atrás chegou às minhas mãos a graphic novel Hicksville, de Dylan Horrocks. Não conhecia a revista ou seu autor com profundidade e a comprei baseado num burburinho difuso que a fazia se destacar um pouco dentre as outras possibilidades de compra, além da bela capa um tanto Jayme Hernandez. 

Hicksville é um mistério. Acompanhamos o jornalista especializado em quadrinhos Leonard Batts a uma jornada pelos confins da Nova Zelândia em busca de elementos para escrever a biografia definitiva de um astro fictício dos quadrinhos contemporâneos chamado Dick Burguer. Sua busca o leva à pequena cidade de Hicksville, localizada “no cu do hemisfério sul”, uma espécie de Twin Peaks onde todos os habitantes – do banqueiro ao zelador – são apreciadores, críticos e potenciais criadores de histórias em quadrinhos. A investigação de Batts não é fácil. Tudo que ele descobre é que toda a cidade odeia Burguer e suas criações e que ninguém vai revelar nada relacionado a este ódio... e que café não é uma bebida popular na Nova Zelândia. 

No clímax da história, em uma festa comunitária anual chamada Hogan's Alley Party (para aqueles que não são nativos da cidade, Hogan's Alley é o nome da tira que apresentou ao mundo o Menino Amarelo e consolidou as páginas dominicais como um sucesso da imprensa do final do século XIX), vemos toda a comunidade da cidade fantasiada de seus personagens de quadrinhos preferidos. São tantas referências visuais, mundiais e específicas da Nova Zelândia, que a sensação é inebriante: Capitão Haddock, Fu Manchu, Mestre do Kung Fu, Ferdinando, Terry de Terry e os Piratas, etc. Esta festa é o ápice de uma sensação de valorização superlativa das HQs que emana de todas as páginas de Hicksville

Dick Burguer é um mega astro de Hollywood graças às adaptações milionárias de seus quadrinhos para o cinema. A revista para a qual o repórter Batts trabalha paga uma viagem ao outro lado do mundo para construir um perfil de um quadrinista. A mágoa envolvida em torno do que aconteceu na cidade e sua estrela internacional é tão intensa que a sensação que se tem é que o mundo gira em torno das histórias em quadrinhos. E esta sensação é o dado mais fantástico da trama. É o elemento que quebra com o realismo das interações entre os personagens e a cidade. Totalmente irreal...

...ou será que não?



Planos-detalhe descrevem a incrível capacidade de Matt Murdock em aguçar seus sentidos (Stan Lee, Bill Everett, 1964): "Do ponto de vista estritamente físico, o olho sente a cor. Experimenta suas propriedades, é fascinado por sua beleza. A alegria penetra na alma do espectador, que a saboreia como um gourmet, uma iguaria. O olho recebe uma excitação semelhante à ação que tem sobre o paladar uma comida picante. Mas também pode ser acalmado ou refrescado como um dedo quando toca uma pedra de gelo. Portanto, uma impressão inteiramente física, como toda sensação, de curta duração e superficial. Ela se apaga sem deixar vestígios, mal a alma se fecha."

Quem escreveu estas palavras foi o lendário Wassily Kandinsky, pintor fundador do Der Blaue Reiter expressionista e pioneiro (além de mestre absoluto) da arte abstrata. Kandinsky era sinestésico, e tinha uma visão profundamente espiritual, além de técnica, da arte. Para ele, um quadrado, um círculo, uma cor, um ponto, etc., possuíam uma vibração originária, um tipo de comungação natural com aspectos não-visíveis da realidade, e a combinação entre estes elementos produz poderosas novas vibrações, e cabe à arte o controle destes efeitos. A sinestesia é uma condição neurológica em que diferentes estímulos são misturados nas vias neurais até chegar aos seus respectivos córtex (visual, auditivo, etc.), misturando os sentidos. As pessoas sentem gostos e cheiros ao verem cores. Sensações de frio ou calor ao se depararem com determinados nomes ou palavras. Números possuem cores específicas. As possibilidades combinatórios dos sinestésicos são muitas, e os casos são muito diferentes entre si.

Daí o estalo na minha cabeça ao ler a primeiríssima história do Demolidor, "A origem do Demolidor", escrita por Stan Lee e ilustrada por Bill Everett, que contém uma sequência com quatro quadros detalhando minuciosamente a natureza dos super poderes de Matt Murdock: "Meu paladar tornou-se tão altamente desenvolvido, que posso dizer exatamente quantos grãos de sal existem num pedaço de pretzel...". Os super sentidos não são colocados exatamente como sinestésicos (não há entrecruzamento entre eles), mas há de se admirar o ímpeto imaginativo de Stan Lee: o texto que descreve os sentidos beira a elocubração científica, e dá a medida exata, com exemplos muito lúcidos, daquilo que o Demolidor pode fazer: "Até meus dedos tornaram-se incrivelmente sensíveis! Posso dizer quantas balas há numa arma apenas pelo peso do cano...". 

A ideia de que o Demolidor seja um personagem sinestésico, ou hiper-sinestésico, é em si revolucionária não apenas para um super-herói (já que esta condição era praticamente não-documentada pela ciência na época), mas muito interessante para o desenvolvimento das habilidades narrativas em quadrinhos. A partir destes quatro quadros plantados em sua primeira história, toda história do Demolidor passaria pelo mesmo desafio: como representar esta hiper-sensibilidade sinestésica em um meio feito apenas de imagens planas e palavras como os quadrinhos? Quadrinhos não trabalham com cheiros, com sons, com movimento, com o tato que não seja a própria textura rude da página em si. E pior: aquilo que os quadrinhos possuem de mais elaborado, que é a sua concepção visual, está ausente da sensibilidade do Demolidor. Cego, ele pode ser tudo que os quadrinhos não são, mas não pode ser a única coisa que eles são. 




E as aguardadas quickies estão de volta, com pouca alteração no formato além do título em português (o que pareceu mais conveniente) e a estreia de resenhas rapidíssimas (para zines e coisas de leitura muito rápida). Lembrem-se: as resenhas são voltadas para o mercado (in)dependente e podem surgir coisas de anos anteriores que estavam encalhadas aqui. Muito do que a gente resenha nos foi enviado pelo correio. Então, não dê mole (se tiver coragem): mande seu material para a Raio Laser no seguinte endereço:


RAIO LASER
SQS 212 Bloco G Apto 501.
Brasília-DF
Brasil
CEP: 70275-070



por Pedro Brandt

Rock e histórias em quadrinhos são expressões artísticas que têm caminhado juntas na trajetória recente da banda brasiliense Quebraqueixo. Em 2010, o quarteto lançou seu segundo disco, A banda desenhada, projeto que inclui, além de CD, HQ de acabamento luxuoso, com capa dura, e histórias adaptadas das letras da banda feitas por 14 talentosos quadrinistas de Brasília.

Realizado com patrocínio do Fundo de Apoio à Cultura (FAC), da Secretaria de Cultura do GDF, o projeto teve como contrapartida uma série de shows e oficinas de histórias em quadrinhos em escolas da rede pública do Distrito Federal em 2011. Alunos, professores e a banda gostaram da experiência e, em 2014, o Quebraqueixo emplacou o Festival Itinerante Rock e Quadrinhos. Também viabilizado pelo FAC, o projeto rendeu 12 edições no ano passado e, pelos próximos meses, continuará passando por escolas do DF.



Duas atividades são produzidas nos centros de ensino que recebem o festival. Primeiramente, no horário do recreio, os alunos assistem a um show do Quebraqueixo. O grupo, formado por Evandro “Esfolando” Vieira nos vocais, Paulo Mattos na guitarrista, Herman Antunes no baixo e André Bermak na bateria pratica o chamado hardcore crossover (gênero com raízes no punk rock e influências de thrash metal) e reflete em suas letras questionamentos e críticas sociais e comportamentais.




por Marco Collares

Em primeiro lugar, gostaria de enfatizar que gosto muito do personagem criado por Bob Kane, e que constantemente leio e releio HQs de Batman, incluindo o arco da Era de Prata escrito por Denis O'Neil, o não menos relevante O cavaleiro das trevas, de Frank Miller, a obra cult A piada mortal, de Alan Moore, como também o igualmente impactante Asilo Arkham, de Grant Morrison.

Considero todas as obras mencionadas verdadeiras referências do gênero super-heróis e não tenho dúvidas de que tais obras auxiliaram na iconização do personagem, conferindo a ele uma tonalidade quase mítica. Essas HQs foram fundamentais na constituição de um rico imaginário para os leitores, não somente pela excelente qualidade das tramas, como também por apresentarem o famoso arquétipo do vigilante detetivesco pulp em um mundo mais próximo ao nosso, mais palpável, mais cotidiano e atual (em seus respectivos contextos), ou seja, por mostrarem ações e relações mais plurais, no sentido de apresentarem os defeitos e as obsessões de Bruce Wayne e uma série de elementos humanos que antes eram camuflados ou suprimidos pelas cenas de sopapos regados a onomatopeias policromáticas, carros góticos bizarros e equipamentos ao estilo Mandrake.

O mesmo vale para o excelente filme O cavaleiro das trevas, de Christopher Nolan, e seu senso de pretenso realismo e pragmatismo em torno do ambiente ficcional e dos coadjuvantes do Batman, incluindo o famoso vilão Coringa e sua lógica hobbesiana no que tange ao instinto de sobrevivência imanente a todos nós. Fora todo o senso estético do filme regado a uma ação e a uma fotografia que deixam de lado o excesso de computação gráfica para dar lugar a cenários, modelos, fios, máscaras, efeitos de câmera e afins, tudo com o propósito de alcançar um impacto mais "realista", segundo palavras do próprio diretor em entrevistas.

Nolan e seu pretenso realismo

Pois bem. A questão que coloco se resume a esse "pretenso realismo inerente" em torno do Batman, um realismo comumente apregoado por artistas, roteiristas, leitores e aficionados, à exaustão. Mais de uma vez perguntei a amigos, conhecidos e fãs do personagem sobre filme de Nolan e a reposta usual se deu em torno da frase: "gostei porque achei realista". O mesmo vale para opiniões de botequim no que concerne ao personagem em si. Quantas opiniões seguiam a cartilha do "eu gosto muito mais do Batman do que do Super porque ele é mais realista, porque não passa de um homem comum".




Quando eu e Pedro Brandt lemos O lobisomem/A múmia  e Chuva de merda, percebemos que, por díspares que possam parecer estas HQs, havia um certo substrato comum que as unificava, e justificava que as suas resenhas fossem publicadas juntas. Estes dois quadrinhos não são apenas igualmente incômodos (em sentidos diferentes), mas trabalham releituras da própria tradição do quadrinho brasileiro. Afinal de contas, se tivemos uma longa tradição de quadrinhos de horror (especialmente nos anos 50 - aquelas coisas de Colonnese, Jayme Cortez, Colin, Shimamoto, etc.), esta geração mais underground contemporânea traz novamente o horror à tona, mas sem as ingenuidades da nossa era de ouro. O corpo, suas purulências e excrescências, se torna aqui o objeto de análise e horror. Se Belga o faz por meio de metáforas doentias, Berger usa o humor punk. É tudo lindo. E incômodo. Seguem os textos, um de minha autoria, e outro do Pedro. (CIM)


Personagem noiado caminha por cenário noir com grana e uma arma (Thomas Ott, 2008): conheci o trabalho do suíço Thomas Ott, surpreendentemente, lendo trabalhos teóricos. Em especial o de Marion Lejeune, que trata especificamente de histórias em quadrinhos sem falas, onde o curioso caso das repetições em deslizamentos gráficos ocorre com frequência na obra de Ott. Talvez não tenha sido tão surpreendente assim, já que o trabalho do suíço tem uma riquíssima elaboração gráfica, intrigante abordagem temática e parece mais desafiador a cada página que viramos. O quadro que vemos aqui pertence ao seu último trabalho, de 2008, chamado simplesmente 73304-23-4153-6-96-8 (precedido por El número na edição argentina que me chegou em mãos, da editora Loco Rabia). Ele mostra um homem enlouquecido por poder, sexo e dinheiro após entrar em uma espiral de sincronicidades jungianas provocadas por um número (sim, o do título) anotado em um papel que ele guardou de um homem condenado à morte. Ott, um perfeccionista que trabalha com a técnica do scratchboard (que consiste em riscar sobre cera pintada de preto), exprime verdadeiro terror alucinatório ao misturar o impressionismo de um Van Gogh (de onde ele tira o delineamento e o preenchimento) com o expressionismo em noir de Billy Wilder ou Robert Siodmak, revelando uma cidade engastada e old-fashioned, com personagens solitários, perdidos e diminuídos em labirintos urbanos que parecem extraídos diretamente dos anos 40. 



por Pedro Brandt

Qualquer colecionador de quadrinhos que se preze frequenta – ou em algum momento da vida frequentou – bancas e livrarias que vendem revistas usadas. É nesses estabelecimentos, popularmente conhecidos como sebos, que o leitor tem a chance de encontrar não apenas aquele quadrinho há muito tempo procurado, mas também conhecer outros tantos que, não fosse a visita a esses locais, provavelmente jamais saberia da existência.

Em tempos de Internet, a compra de quadrinhos ficou muito mais fácil. Achar um gibi antigo, raro, ou mesmo a edição do mês anterior está ao alcance de alguns cliques. Mas num passado não muito distante, “garimpar” revistas nos sebos era a alternativa mais viável. Para não dizer a única. Não foram poucas as surpresas que encontrei nesses lugares, as pechinchas pagas, as trocas honestas.

Uma banca, em especial, tem lugar cativo na minha memória afetiva da pré-adolescência. Localizada na quadra 511 Sul (Brasília), entre uma loja de materiais de construção e uma tradicional loja de colchões, a Banca Fortaleza foi, durante muito tempo, uma das principais referências na cidade para se comprar e trocar revistas.


A história de vida do amigo Marcos Maciel de Almeida se confunde com a história dos quadrinhos em Brasília. Ávido leitor de comics, este fã de Beatles, Monstro do Pântano e Warriors – Os selvagens da Noite foi fundador, junto com Nonato Natinho, da Kingdom Comics, primeira loja especializada em quadrinhos da capital brasileira. Marcos foi sócio da Kingdom até 2007, quando vendeu sua parte no negócio. A paixão pelos quadrinhos, entretanto, nunca diminuiu. Apresentei Aldebaran para o Marcos como uma das séries mais impressionantes que eu li recentemente. Ele foi atrás da obra, leu e teve a mesma percepção sobre a HQ. Aproveitei o entusiasmo do Marcos e perguntei se ele gostaria de escrever suas impressões sobre Aldebaran. O texto – esperamos que o primeiro de muitos – segue abaixo. (PB)
por Marcos Maciel de Almeida
Dinbaía de Hâmbrios: essa estranha expressão me veio durante um sonho. Não consta nos dicionários. Apesar disso, não consigo deixar de pensar que teria algum significado para mim. É como se já tivesse esquecido o que é, ou talvez seja algo que ainda conhecerei no futuro.Usei esse exemplo para tentar explicar a sensação de familiar estranhamento que a leitura de Mundos de Aldebaran causou em mim. A HQ, escrita e desenhada pelo brasileiro Luiz Eduardo de Oliveira – mais conhecido pelo acrônimo LEO – já é publicada desde 1994 no mercado franco-belga.
Mais que uma história de ficção, o carioca LEO lançou as bases de um novo futuro para humanidade, que enfim logrou colonizar outros planetas. Em um deles, Aldebaran, os colonos foram deixados à própria sorte. Os terráqueos nunca mais retornaram a essa parte do universo, e, por essa razão, os habitantes não tiveram outra alternativa senão caminhar sozinhos.
Nessa HQ singular, os personagens são o pano de fundo para o cenário, e não o contrário. OK, Marc e Kim são dois bons protagonistas, mas parecem coadjuvantes para a geografia e a fauna dos mundos dessa nova realidade. Sobreviventes de uma vila destruída pela Mantrisse – criatura misteriosa cujas aparições servem como fio condutor da saga – a dupla tem uma química interessante, mas que parece ter sido criada somente para permitir o desenrolar de situações que, gradualmente, desvendam os mundos exóticos construídos por LEO. Em busca de respostas para sua catástrofe pessoal, Marc e Kim acabam conhecendo diversas pessoas que também tiveram suas vidas afetadas pela Mantrisse, numa investigação que os levará a outros planetas e a se deparar com seres e provações tão bizarros quanto incomuns.


Novidade nos bancos de poeira do planalto central! Eu já venho dizendo que algo acontece na química que constrói os quadrinistas do Distrito Federal. Por aqui, paredes dos túneis das tesourinhas e passarelas por debaixo do eixão são encantadas e coloridas por pôsteres, lambe-lambes, ilustrações, grafites e stencil com poesia vagabunda. Bem ou mal, a linguagem gráfica ganha cada vez mais adeptos e os quadrinhos, enquanto forma de comunicação mais versátil e modelável do séc. 21, se inscrevem como mais uma forma de identidade da nossa jovem capital.

Pois eis que uma inciativa do grupo GIBI (que meigo), integrado por estudantes de pós-graduação da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (incluindo o professor Lima Neto, membro da RAIO LASER), formalizou a criação de um evento que dá um passo além tanto na formulação teórica e científica quanto na criação artística em quadrinhos no território brasileiro. Trata-se do ENQUADRINHOS - 1° ENCONTRO DE QUADRINHOS DE BRASÍLIA (16 a 18 de setembro de 2015). Diferentemente de outros eventos semelhantes que também ajudam a consolidar o estudo dos quadrinhos como campo acadêmico, o Enquadrinhos, despojado, vai se focar em um formato mais breve (o pôster) e apostar no mérito de dar oportunidades iguais de apresentação tanto para o pesquisador quanto para o artista: existem as modalidades de inscrição "acadêmica" e "artística". 

Além dos trabalhos, divididos em quatro abrangentes eixos temáticos, o Encontro contará com quatro pauladas em forma de palestras, realizadas por gente de calibre tanto em produção acadêmica, quanto em editoração, quanto em realização artística: Paulo Ramos, Edgar Silveira Franco, Henrique Magalhães e Rafael Coutinho. Tudo isso ajuda a se pensar uma confluência dialógica entre artistas, pesquisadores e editores, elaborando a única sinergia possível para a continuidade e ampliação do movimento vibrante que ocorre com os quadrinhos no Brasil atualmente, mas que corre (sempre) o risco de morrer na praia graças à marginalização que o meio sofreu em todas as suas áreas de atuação desde... bem, desde sempre.

É hora de consolidar o grande momento dos quadrinhos no Brasil. Não apenas com uma morosa institucionalização e legitimação técnica e intelectual, mas sim com pensamento vigoroso, transformador, capaz de entender e modelar os processos que este meio de comunicação e arte move na sociedade. E isso não é possível sem que mercado, academia e os próprios artistas pensem conjuntamente. É o que o Encontro está propondo. Artista ou pesquisador, vai lá e se inscreve sem medo! É até 13 de julho. (CIM)


NORMAS PARA ELABORAÇÃO DE POSTER

1 – O EnQuadrinhos receberá resumos de trabalhos acadêmicos e projetos de produção em quadrinhos de inscritos ligados ao ensino superior. Os resumos aprovados serão transformados em posters para exibição durante o evento e se dividirão em duas categorias: Poster acadêmico e pôster artístico.

2 - Para que o pôster proposto aprovado seja apresentado é obrigatória a inscrição formal do autor, ou um dos co-autores no site do evento: www.enquadrinhos.net.br

3 - Cada poster poderá ter 01(um) autor principal e até 02 (dois) co-autores;

4 - Os resumos aprovados deverão ser adaptados para o formato de pôster e enviados para confecção até a data prevista (conferir nos informativos do site). O pôster impresso deve ser apresentado ao público por, no mínimo, um de seus responsáveis em um horário pré-determinado para apreciação geral e avaliação por parte da comissão científica;

5 - É obrigatório que o autor responsável pela inscrição forneça os seguintes dados: Título do Trabalho e nome de todos os autores com seus respectivos vínculos institucionais. Importante - Esses dados serão utilizados para confecção do certificado. O preenchimento incorreto é de inteira responsabilidade dos autores, e não implicará em troca de certificados posteriormente;

6- Prazo para sumissão de resumos: impreterivelmente até dia …, através do site www.enquadrinhos.net.br;

7 - Os posters devem obedecer as medidas de 120cm de altura e 80cm de largura, ou seja, obedecendo a orientação de retrato. Deverão estar expostos com clareza no poster: título, autores e instituição de origem na parte superior com o logotipo da respectiva instituição;

8 – O arquivo digital do pôster deve ser enviado no formato PDF atentando para o gerenciamento das cores em CMYK (cores para impressão);

9 - Abaixo do título e da identificação deve constar, em letra de tamanho inferior à utilizada no texto, a forma de contato com os autores;

10 - A área de apresentação deve conter as informações referentes aos objetivos da pesquisa, processo metodológico, corpo da pesquisa, discussão e referências bibliográficas (no caso de poster científico);

11- Deverá ser reservado 15 cm de altura na parte inferior do poster onde será colocada a identificação do Encontro (logotipo do encontro e das agências de fomento participantes assim como os apoiadores privados);

12 - Cada trabalho exposto receberá um certificado.

13 - Os certificados estarão disponíveis no site do evento em data que ainda será determinada.

  


por Ciro I. Marcondes*

Uma casa de madeira junto a um farol na praia. Um homem tremendo, em aparente estado de intensa angústia e sofrimento, espera na porta. Uma bela mulher nua o observa da janela. O homem fuma, cospe sangue, o mar bravio se agita. Ele segue neste estado tremeluzente, elétrico, impassível. Um carro sai pela enseada. Uma história de pesadelo tem início. Quem são este homem e esta mulher? O que significam estas cenas? A que tipo de interioridade se conectam? De que inconsciente óptico fazem parte?

Estas imagens fazem parte do começo de Torpor, que o pernambucano Mateus Acioli lançou em 2014 pelo selo Narval para a coleção “Franca”, que é uma espécie de carta branca para os quadrinistas mais talentosos desta geração independente expressarem sua intimidade artística, suas ideias mais livres e radicais. São imagens que anunciam um submundo onírico e oblíquo, de difícil penetração, mas de acesso livre a um fluxo de impressões fortes, revisitando os universos selvagens do sexo e do torpor da vida e da morte. Trata-se de uma história silenciosa e carregada de uma iconografia que varia entre a psicanálise e o ocultismo, sempre com uma ação desconfortável na mente.


É com satisfação que trazemos mais um colaborador aqui para as fileiras da Raio Laser. Marco Collares vem da área da História e contribui com um texto nada menos que excelente sobre os fundamentos historiográficos da Era Hiboriana de Robert E. Howard (ou seja; CONAN). É um texto que vai além do óbvio e que nos mostra as sutilezas com que a contemporaneidade se infiltra nos discursos de ficção histórica. Quanto ao Marco, deixo ele mesmo se apresentar. Obrigado Marco. (CIM)

Sou professor de história no RS, formado pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e mestre em história e cultura política pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP), campus de Franca/SP. Me especializei em história antiga, mais especificamente em Império Romano, estudando autores latinos do porte de Cícero, César, Tito Lívio, Salústio, etc. Meu gosto pela história antiga é da juventude, da época em que acompanhava de perto as HQs e outras mídias (agora é uma paixão mais esporádica e seleta, mas acompanho boas estórias, e quando falo em outras mídias, falo de cinema, games, RPGs, séries televisivas, animes, etc).

por Marco Collares


Um tema bastante interessante diz respeito aos chamados "usos do passado", mais especificamente, a forma como as sociedades de outros tempos e lugares são representadas no contexto presente, ou melhor, em algum contexto mais contemporâneo, com toda a carga ideológica, conceitual e temática inerentes ao ambiente sócio histórico, político e cultural do referido contexto. Como bem afirmado pelo historiador medievalista da Escola dos Annales, Marc Bloch: "o passado em si não é o objeto do historiador, mas sim a importância do presente para a compreensão do passado e vice versa".

Isso significa que quaisquer fontes, documentos e textos, quaisquer conjunto de enunciados, quaisquer obras da literatura, ou mesmo quaisquer artefatos culturais de naturezas diversas (sejam tais artefatos iconográficos, gráficos ou materiais) que tratam de algum passado, seja histórico ou munido de traços históricos, todos esses documentos dispõem de signos, significantes e significados inerentes ao contexto presente de consecução dos mesmos.

Nesse ponto estamos próximos daquela arrebatadora verdade acerca das obras do Aedo Homero, a Ilíada e a Odisseia. Que verdade seria essa? Ora, os poemas narravam eventos em torno da Guerra de Troia e depois desses eventos, narravam sobre o retorno de um de seus heróis, Odisseu (Ulisses em latim) para sua terra natal, a Ilha de Ítaca, tratando-se assim de eventos que teriam ocorrido por volta do ano 1200 A.C, no final do chamado Período Minoico-Micênico da história grega. Porém, quase todas as questões sobre os conhecidos poemas não circunda somente na enfadonha Questão Homérica de definição da real autoria dos poemas, mas sim no fato de que o poeta (ou poetas, segundo alguns autores) colocou diversos traços de sua própria época histórica no passado retratado, traços históricos de um período posterior chamado de Período Homérico da Grécia Antiga (e o nome “Período Homérico” não se deve a esse fato?), com elementos culturais, políticos e sociais desse período.

O que depreendemos dessa verdade? Que os brilhantes estudos de historiadores renomados do porte de Jean-Pierre Vernant ou de Pierre Vidal-Naquet sobre o Período Homérico não deixam de lidar com os supracitados "usos do passado", visto que eles procuraram compreender, entre tantas outras coisas interessantes, quais são os elementos históricos do período de compilação e difusão do corpus homérico, quais são os aspectos sociais, políticos e culturais do mundo do autor da obra e os que foram inscritos e misturados, conscientemente ou não, ao passado mítico narrado pelo poeta.

Não se pode deixar de mencionar, claro, que grande parte desse processo ocorreu devido aos aspectos inerentes do que se costuma denominar de tradição oral, tradição essa que usualmente transforma completamente os eventos narrados oralmente, devido às contínuas recitações de poemas e narrativas proferidas de "boca em boca". Em outras palavras: o anacronismo é inerente quando se repassa um fato oralmente, pois cada um conta uma história diferente da original.

É nesse sentido que trato o tema do título deste post, "A Era Hiboriana, de Conan e suas Nações". Isso porque o criador da personagem Conan, da Ciméria, o escritor pulp texano Robert E. Howard, não criou somente um personagem isolado. Ele consolidou igualmente todo um gênero literário e narrativo denominado de Sword and Sorcery (Espada e Feitiçaria), gênero que se difundiu sobremaneira no século XX e que atrai milhões de pessoas aos cinemas no mundo inteiro, com filmes do porte de O Senhor dos Anéis.


Aproveitando o lançamento da edição "integral" e colorizada da saga espacial publicada por Daniel Lopes ao longo de 2013, deixo aqui o texto que escrevi como introdução para "Marco, o macaco do espaço". A colorização ficou ótima e vale muito a pena garantir seu próprio volume. (CIM)

Marco: odisseia em busca da origem dos quadrinhos

por Ciro I. Marcondes

“O homem não é nada além de um macaco no espaço”. Foi esta frase que eu ingenuamente inseri em um filme amador feito para o colégio nos idos de 1998. A coisa toda incluía uma animação primitiva feita com as próprias mãos (pintadas de preto) e um fundo escuro. Ela mostrava um macaquinho de playmobil saindo de uma nave espacial ao som do famoso poema sinfônico de Strauss Assim falou Zaratustra (a “música de 2001”), seguido de uma narração em voz over que entoava a “impactante” sentença.

Ao ler toda a série Marco, esta ligação entre uma ancestralidade primitiva e um futuro pós-humano (que eu ingenuamente havia tentado expressar na ocasião do filmete) me voltou como uma forma de estética. Explico-me: talvez, para expressar o mundo incognoscível dos nossos alhures passados e relacioná-lo com nossas ambições de buscar a eternidade da espécie por meio da tecnologia, seja necessário misturar alguma sofisticação mágica, criadora de ilusão (no meu caso, a “ambição” da animação) com algo que a sabote instantaneamente, e isso é algo que revela seu próprio artifício (o próprio método “primitivo” de animar mostrando as mãos que mexiam o brinquedo). Somente uma contradição dos procedimentos estéticos poderia revelar a contradição da própria odisseia humana.

por Ciro I. Marcondes

Estando no “exílio”, recebo pouco material nacional aqui, e é por isso que a chegada do número dois do Jornal Pimba foi motivo de celebração. Já falamos sobre esta heroica publicação de Brasília aqui. O formato de jornal, que atrai certa nostalgia e ao mesmo tempo impulsiona novo entusiasmo às artes da ilustração e dos quadrinhos, é aquela contradição “do bem”: é barato, dá espaço para os desenhos fazerem vingar seu potencial, e além de tudo possui uma relação afetiva com a história dos quadrinhos. Afinal, os quadrinhos nasceram nos jornais. Aqui na França, a tradição de jornais (ou revistas que começaram como jornais) que publicam quadrinhos (de aventura ou humor) persiste até hoje. Não apenas nas pedras inaugurais belgas (Spirou, Tintin), mas em publicações que mantêm sua essência: Le Canard Enchainé, Fluide Glacial, Pilote, Charlie Hedbo. O Pimba aparece, em meio a estas leituras, em perfeita sintonia.


Benoît Brisefer chega em Khben-Nogbang (Peyo, Yvan Delporte, 1968): bem na época em que houve a polêmica a respeito do brasileiro executado na Indonésia, eu estava lendo esta história do personagem Benoît Brisefer, clássico belga criado por Peyo (de "Schtroumps" e "Johann e Pirluit"). Aqui, o simpático mini-herói (edição: "Os doze trabalhos de Benoît Brisefer") precisa recuperar nove pedaços de papel dos títulos de um terreno com petróleo que estão espalhados pelo mundo. Isso o leva até um "certo país no sudeste asiático", descrito no letreiro do quadro aqui destacado desta maneira: "Khben Nogbang, cidadezinha do Sudeste da Ásia, mistura o charme pitoresco do extremo oriente aos benefícios da civilização ocidental...". Ao olharmos para o quadro, vemos não apenas a cidade viva, magnificamente representada no traço gros nez de Peyo, como também as propagandas de Coca-Cola ironicamente emplacadas acima das lojinhas orientais. Ora, longe de querer fazer qualquer análise pseudossociológica que compare a situação sociocultural do sudeste da Ásia com a história da BD francobelga, eu gostaria apenas de apontar algumas curiosidades ao redor deste requadro.


por Ciro Inácio Marcondes

Antes de propriamente retomar o intenso trabalho que será reformular a nossa querida Raio Laser em 2015, cabe um post que retome um pouco a origem dos quadrinhos. Quero dizer: que busque mais um mito de origem para os quadrinhos do que qualquer outra coisa. Trilhar um caminho vetorial e teleológico para a História nunca é uma opção muito legal, já que tendemos a condensar o mundo numa visão seletiva (logo, impositiva) e simplista, perdendo tudo o que ocorre ao redor (justamente o que há de mais interessante). Porém, um exercício de fantasia histórica não vai nos fazer mal. Há mais, de tudo que envolve nosso hábito de ler quadrinhos em 2015, no imaginário japonês do séc. XIX, do que talvez se costume considerar. Vamos dissecar isso um pouco .

Para os que tiveram a oportunidade de ver a disputadíssima exposição “Hokusai”, nas galerias nacionais do Grand Palais em Paris, ficam algumas impressões e interrogações. Dentre as centenas de desenhos, gravuras e pinturas expostos (produção entre 1778 e 1849), fica na memória um vergalhão de ideias, sketches, imagens, rabiscos, tudo trazido à tona de maneira selvagem e num cenário de difícil contextualização. Afinal, requer-se uma grande expertise em arte japonesa para traçar a real diferença entre um egoyomi (a saber: arte para calendários ilustrados) e um surimono (gravuras para pendurar na parede) dentro do contexto do início da carreira do homem que mundialmente ficou conhecido como Katsushika Hokusai, mas, tal qual um David Bowie de um mundo pré-moderno no Sol Nascente, assumiu várias identidades durante a vida.

 
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