O povo veste a máscara de Ruben Plata (Daniel Torres, Francisco Pérez Navarro e Incha-Ramón Marcos, 1982): há várias coisas legais na HQ Opium, criação do espanhol Daniel Torres, publicada no Brasil pela Abril em 1990: primeiro, um senso completamente idiossincrático de retrofuturismo. Os carros voam, mas são Cadillacs. As máquinas se insurgem contra as pessoas, mas são eletrodomésticos dos anos 50. Os desenhos, tanto de Torres quanto de Marcos, deveriam ser sombrios e obscuros, mas são uma mistura de Spirit com linha clara francobelga. É um choque. A HQ é kitsch e cool ao mesmo tempo. Em segundo lugar, temos o protagonismo de vilões elegantes (também mais voltados à era de ouro) e intrépidos. Opium, típica criminal mastermind, parece um Mandrake que saiu pela culatra. Sua convicção pelo mal é tão atroz que emociona. Gin é a perfeita femme fatale, gloriosa e sexy, muito malvada, e consciente destes atributos. Já do lado dos heróis, temos um protagonista de perfil apenas aparentemente clássico que, na verdade, é uma figura ambígua: o âncora de telejornal Ruben Plata, sacana, melindroso e vaidoso, pode ser considerado um anti-Clark Kent, e essa é a sua maior transgressão.

por Pedro Brandt e Ciro I. Marcondes
fotos Polyanna Carvalho

Foi com muita curiosidade que li a HQ online Backstage, assinada por Rafael Coutinho e Gabriel Góes. O primeiro é um dos principais nomes dos quadrinhos brasileiros contemporâneos, desenhista de Cachalote (a ótima graphic novel escrita por Daniel Galera) e Beijo adolescente. Góes eu conheço desde meados dos anos 1990 e sempre me impressionei com suas ilustrações e quadrinhos – nos últimos tempos, quando nos encontramos, inevitável eu perguntar para ele “já terminou o Vestido de noiva?”, me referindo à segunda parceria dele com o roteirista Arnaldo Branco adaptando texto de Nelson Rodrigues (a primeiro foi Beijo no asfalto). Espero que saia em breve! Pois foi o Góes – um dos mentores da revista Samba) – que nos deu o toque de que Rafa Coutinho passaria alguns dias em Brasília, perguntou se não gostaríamos (eu e Ciro) de entrevistá-lo. Munidos de algumas perguntas, fomos até a Laje (estúdio em Brasília onde trabalham desenhistas e artistas plásticos, e que virou uma espécie de ponto de encontro dessa galera) para o bate-papo. O chato de entrevistar caras como o Coutinho é que ele é tão gente boa que dá vontade de desligar o gravador e deixar a missão da entrevista de lado, ficar só trocando ideias, falando de quadrinhos, cinema, música, de vida, enfim. Mas acho que a entrevista manteve bastante desse aspecto informal que foi o encontro. Degravar tudo foi um parto (degravar é sempre um porre!) e depois de concluída essa etapa, a transcrição ficou perdida num limbo, numa zona fantasma entre a o excesso de preguiça e os compromissos aos borbotões. Eis que seis meses depois, finalmente colocamos o texto no ar, aproveitando mais uma visita do filho de Laerte à capital federal – ele veio dar uma palestra que faz parte da programação da exposição Macanudismo, sobre o trabalho do argentino Liniers, em cartaz até 2 de março, no Museu dos Correios, em Brasília. Por conta do atraso, alguns detalhes da conversa podem soar redundantes. Mals aê. (PB

 
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