por Ciro I. Marcondes*

O Paleolítico é um período fascinante especialmente pelos seus muitos gigantismos. São quase 300 mil anos se considerarmos apenas o Homo sapiens moderno, e muito mais se considerarmos os hominídeos imediatamente anteriores que participaram da nossa evolução. Será possível que de alguma forma ainda resida em nós uma herança mítica destes homens e mulheres que sobreviveram por centenas de milhares de anos como nômades, caçando animais gigantes da megafauna, enfrentando a era do gelo, comendo carne de mamute? A beleza em se pensar a transmissão do pensamento mítico por tantas eras está presente em Mondo Colosso, HQ brasiliense de Mateus Gandara e Vítor Vitali, lançada independentemente em 2014 (selo Vudu Comix), e que coroa a boa fase que o quadrinho do Distrito Federal vem vivendo desde os anos 2000.


Traduzir um pouco do gigantismo da empreitada dos nossos antepassados das cavernas (ainda que, nômades, estes povos nunca tenham efetivamente morado em cavernas) está na intenção da dupla de autores, e de maneira literal: Mondo Colosso é um mundo primitivo, e de criaturas gigantes. Sua história é um relato lírico e selvagem envolvendo grupos rivais, o instinto da sobrevivência e os rituais da natureza. Logo nas primeiras páginas, acompanhamos uma paisagem selvagem e violenta, onde um boi é devorado... por uma águia. Esta águia é capturada por uma mulher gigante, que a oferece a uma ainda maior centopeia, criando um jogo de encaixes em dimensões espaciais cada vez maiores, aproveitando o zoom potencial da “lente” que é a empaginação em quadrinhos – fazendo eco à montagem de “atrações”, fértil em close-ups e planos-detalhe, do cineasta soviético Sergei Eisenstein.

Os desenhos rústicos e sólidos de Gandara – associados a uma distribuição vertiginosa e inventiva dos quadros nas páginas – favorecem uma dupla potencialização da história ancestral de Vitali: por um lado, cria-se uma mitologia de titãs, tal qual na antiguidade clássica, nos aproximando da narrativa oral e do caráter embrionário, metonímico, do mito. Estamos no território do universal. Por outro lado, sendo esta uma narrativa totalmente sem falas, nos aproximamos também, curiosamente, do apuro técnico e da imagem mecânica do cinema mudo. Educados em uma formação naturalmente mista, os autores não se esquivam de fazer valorizar não apenas a inebriante montagem soviética, mas também a qualidade indevassável de uma imagem silenciosa que, longe da palavra, se torna passagem imediata para a nossa ancestralidade. Assim, Mundo Colosso dialoga não apenas com quadrinhos e cinema, mas também com as pinturas das cavernas de Lascaux e Chauvet, nossas imagens primordiais.

Mondo Colosso é uma HQ extremamente rápida de se ler. Basta a agilidade dos olhos e a velocidade do virar das páginas. Mesmo assim, traz à tona uma quantidade respeitável de imagens que se fixam na memória, não ficando atrás de outros projetos recentes e bons que se aproximam do silêncio (como as histórias do Projeto 1000, da Narval) ou do primitivismo ancestral (como a também ótima Piteco – Ingá, de Shiko). Gandara e Vitali ainda não se esquivam de introjetar discreto posicionamento político ao conferir o protagonismo da história a uma mulher de seios fartos, metaforizando a valentia feminina e a abundância de fertilidade presente nas próprias “estatuetas de Vênus” do Paleolítico. A nudez na história, inclusive, honesta e necessária, é também símbolo do desnudamento humano diante de um mundo hostil e sempre colossal, em todas as suas acepções. Vale a pena ficar de olho nesses autores, deve vir mais coisa boa por aí.

* Publicado originalmente no jornal de quadrinhos Suplemento.

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