Qual o limiar da moralidade nos comics?
O artigo de S. Seelow, Frank Miller,Batman e o choque de civilizações, publicado no Monde, (claro, sem querer) coloca uma questão interessante, diria mesmo de ordem, sobre o universo dos quadrinhos. Entre as polêmicas em torno do neo-conservadorismo de Miller, o autor achou por bem recorrer a um atalho, para dizer o mínimo, discutível: para explicar as reações negativas de fãs (note-se: desprezando as positivas) o texto afirma categoricamente que “o universo dos comics tem inspiração majoritariamente humanista e liberal”. Não sei bem o que quis dizer com “humanista”, mas o “liberal”, claramente é evocado num sentido meio pacifista, imoralista. Vindo de um jornal francês, ironicamente, vem-nos logo a lembrança, não direi do choque, mas de certo paralelismo entre duas subculturas bem conhecidas: a dos comics americanos e a das bandes dessinées franco-belgas (camada subliminar que me parece importante).

A pergunta que falta é a seguinte: entre os principais apelos do universo cultural norte-americano (e falo, evidentemente, não apenas dos quadrinhos) não está justamente seu moralismo fantasticamente (ia dizendo: fanaticamente) monolítico? “Heróis e vilões” (mocinhos e bandidos, diriam nossos pais, avós) simbiótica, surrealisticamente unidos, do espaço sideral ao velho oeste, até que a morte os separe...? A fórmula, claro, é bem ampla, mas no caso dos quadrinhos é preciso ir além; diria que não se trata apenas de uma forte característica mas da fórmula mais geral de seu sucesso e popularidade. Mesmo no cinema, provavelmente devido a seu público mais adulto, sempre houve um equilíbrio maior de gêneros e mensagens. Nos quadrinhos, dado seu papel semi-infantil ou semi-educativo, esse recurso tornou-se uma verdadeira norma formal, tudo o mais sendo “alternativo” (sintomático o surgimento, meio freudiano, dos quadrinhos de terror-erótico...?). Natural que essa tendência se manifestasse com força em solo puritano, certo?
Tex: típico herói americano?
Vamos com calma: Tex, herói típico americano é, na verdade, italiano. A atração exercida pelo ambiente desértico serve universalmente como pano de fundo, neutro, a-histórico, transcultural (como naqueles fundos nebulosos de J.-L. David), para o afirmação de uma ética simples, possível apenas num espaço ideal (versões urbanas: Gotham, Metropolis, etc.). É que o velho duelo do bem contra o mal, no fundo sabemos, não é uma bobagem. Bobagem é acreditar que ele é simples ou fácil. (Mesmo um ser-de-nada como Sartre visitou "o diabo e o bom Deus"). Um herói como o amnésico Ken Parker (meu favorito), mais dado a contradições, a mudar de lado, ora com índios, ora no exército, mesmo não repetindo o sucesso de Tex, buscava a tal da “verdade”. Diria que nos quadrinhos, mesmo quando isso não é o principal, permanece certa obrigatoriedade clássica de um chiaroscuro moral. Sendo assim, quem sabe, a exemplo da história da arte, haja certa vantagem em olhar o todo em termos de "clássico" e "anti-clássico".
David: ética simples, fundo simples
Heróis como Capitão América e Super-Homem, por exemplo, mantém esse apelo e parecem mesmo inviáveis sem ele (fórmula compatível com o cômico, com o ridicularizar-se a si próprio, pelo menos desde o final dos anos 80 com a Liga da Justiça, hoje consagrada no cinema com Os Vingadores - ia me esquecendo da série Batman, anos 60!). Anti-heróis como Justiceiro, Wolverine, e mesmo europeus como um Corto Maltese, um Blueberry, são só uns semi-Pilatos: guardam a estranha “mania” de serem bonzinhos. Pagam seu tributo a César. Os recordes de bilheteria dos filmes sobre heróis indicam que o seu simbolismo, o impulso de fazer a coisa certa, permanece vivo.
Certo, existem anti-heróis autênticos e de sucesso -- mais “anti” que “heróis” --, como Elektra (novamente Miller), Ranxerox, etc. O interessante é que são personagens "sem olhar", talvez mais artísticos, mas certamente menos (ou demasiado) humanos. Paira sobre esses quadrinhos uma espécie de nuvem negra de negação e contradição. Um classicista diria que são indispensáveis na medida que permitem renovar nosso gosto pelos clássicos. Relatividade sem relativismo, moral sem moralismo... Os quadrinhos, atenção historiadores e sociólogos, educaram uma geração!

Elektra: anti-heroína autêntica

3 comentários

Luiz André disse... @ 13 de agosto de 2013 12:14

É interessante estabelecer este ponto de discussão sobre o moralismo nas HQs atuais e como ele encerra uma espécie de anacronismo que vem perdendo terreno a cada dia, causando um pouco de confusão e incompreensão por parte de pessoas e fãs que cresceram com uma ideia geral sobre um super-herói (ou até mesmo, anti-herói) e hoje tem de vê-lo de outra forma. Não há mais espaços para personagens essencialmente bons ou maus, afinal, eles precisam de uma motivação que os faça avançar ou retroceder sobre suas escolhas, por mais incongruentes que elas possam ser em determinados casos. Logo, seja no universo das HQs mainstream, seja fora no grande eixo das HQs autorais, a tendência é a exploração de personagens mais humanos que agem em um universo fantástico e a graça é ver como pessoas comuns com superpoderes e incríveis habilidades se comportariam em tais situações. Este é um bom momento para se olhar com mais apuro sobre qual é o papel do bem, do mal e de como a moral se encaixa entre os dois dentro do escopo das HQs.

Unknown disse... @ 14 de agosto de 2013 09:12
Este comentário foi removido pelo autor.
Thomaz disse... @ 14 de agosto de 2013 09:16

Obrigado por comentar, Luiz. Nesse caso discordo do uso da palavra “anacronismo”, o artigo fala justamente da força e sobrevivência da fórmula “Bem vs. Mal” no universo das HQs e, mais sutilmente, do absurdo que é achar o neo-conservadorismo do Frank Miller uma espécie de “traição” baseado nesse, sei lá, neo-iluminismo cafona do politicamente correto. Abs

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