Leonardo anuncia a morte de Mestre Splinter (Peter Laird, Jim Lawson, 2003): as HQs das Tartarugas Ninja fizeram grande sucesso ao tentar parodiar o estilo e índole violentas de Frank Miller em meados dos anos 80, e até hoje são algum objeto de culto (especialmente as primeiras), com muita gente considerando-as algo "sombrias", "violentas", "underground", "sérias", etc. Mesmo assim, o jeitão pop de coisa inocente e feita pra crianças que as criações de Peter Laird e Kevin Eastman atingiram com a super popularidade do desenho animado clássico (dos anos 90) e dos filmes fez com que muita gente jamais se interessasse por estas obscuras HQs. Incluindo eu mesmo. Até agora.


Não que eu tenha efetivamente corrido atrás dos gibis originais, supostamente itens de colecionador nos dias de hoje, mas o acaso e a sensacional arte do ilustrador Jim Lawson acabaram fazendo com que as TMNT topassem com os olhos daqui da Raio Laser num sebo bastante maltrapilho ("Beco"?) de Porto Alegre. A estante de quadrinho era extensa, mas a grande maioria das coisas eram HQs em formato americano de todos os tipos, coisas lançadas no Brasil, X-Men, super-heróis, coisas assim. Já quase em estado de desistência diante de tanto material inócuo e sem graça, eis que vem aos meus olhos um primeiro plano chapadão de uma tartaruga ninja ostentando terrível expressão de constrangimento, com as placas do peitoral arranhadas - excelente ilustração - e o logotipo diretaço escrito logo acima: "TMNT". Achei tudo aquilo muito cool e, devido ao estado zero bala da revista, gastei uns 4 contos nela e em mais duas outras edições para sacar de qual era. Tratava-se (informei-me depois) de uma edição da quarta fase da revista, que tem publicações irregulares, com o cânone bastante interrompido (chateando os fãs), quase sempre publicado pela editora criada pelos autores originais, a Mirage Publishing (há uma fase, hoje apócrifa, publicada pela Image). O mais legal é que, a despeito de ser uma edição americana de 2003, o texto da HQ é de ninguém menos que um dos criadores dos mutantes, o gente boa Peter Laird.

Laird, surpreendentemente, mesmo décadas depois, ainda leva jeito com a coisa, foi o que percebi. De leitura rápida, cheia de imagens silenciosas e quadrinização voraz que nos faz atravessar as páginas com volúpia de coisa pop bem feita, a inconclusa história desta edição número 10 traz dois plots que começavam em edições anteriores e terminam em posteriores, à tradicional maneira americana (criada pela Marvel, especificamente). O quadro que ilustra este post é o último da história, mas ele é precedido por sinais premonitórios, com algumas sequências inteligentes, sensíveis e bem-feitas do cotidiano do Mestre Splinter: o velho rato alimenta seu gato, passarinhos, toma chá, etc, no que parece uma casa de campo onde ele pode dedicar-se aos afazeres da idade avançada. 

Há uma certa beleza de um senso-comum-zen nestas sequências, de quadrinização delicada, efeitos de câmera lenta, zoom-out, grandes primeiros-planos e recursos que, por básicos que sejam, muitos iniciantes e até quadrinistas experientes simplesmente não dominam. Splinter passa a sofrer de algum mal interno (um ataque cardíaco? Um AVC?), e lentamente vamos sendo informados de que o sensei das tartarugas está a perecer. Eu não cheguei a ler a edição número 11, então não sei se Splinter efetivamente morre. Eu sei que poderia descobrir isso baixando a próxima edição na Internet, mas, de alguma maneira, prefiro ficar com o tom de epitáfio que se carrega nesta história, e com a trajetória peculiar do volume que eu adquiri no sebo. Sei que estes quadrinhos seriados tendem inevitavelmente a se estragarem, vítimas de seu próprio modelo de novela, e prefiro, neste caso, criar algum tipo de mitologia pessoal. 

Esta edição não traz apenas este plot de Splinter, mas também outros que parecem traduzir bem o estilo contemporâneo de Laird: são coisas que misturam aliens com ficção científica, nanorrobótica, terrorismo digital, coisas da cultura contemporânea, firmada de maneira madura, específica, detalhada, geeky, para adolescentes inteligentes. Claro que, coroando a pequena sorte de ter topado inadvertidamente com esta edição, fica o que me chamou a atenção originalmente: a arte de Lawson é de um detalhismo esplêndido, toda angulosa, aproveitando ao máximo os requadros dinâmicos, elegantemente plasmados nas páginas, num preto-e-branco cheio de expressões caricatas, personagens com ótimo design e um apurado senso sobre como se fazer quadrinhos de aventura sem que eles sejam simplesmente horrendos ou ridículos. As tartarugas em si, vale lembrar, pouco aparecem na história, porque passam a diegese toda sedadas, mas despertam justamente nas últimas páginas para trazer um teor dramático, espécie de falha trágica, ao final da edição. O anúncio consternado de Leonardo, porta-voz do grupo, é o suficiente para mim: não tenho intenção de ler mais coisas das TMNT, já que esta experiência basta por esta vida. (CIM)




4 comentários

ǝward B. disse... @ 29 de julho de 2013 18:01

Posso dizer que da Mirage (e da Image), eu li tudo dos tartarugas Ninja, a hq é fantástica, diverte sendo engraçada e também violenta. Uma coisa que você não teve como reparar lendo poucas coisas apenas, é que eles envelheceram, sim, essa fase da mirage (volume 4) ressuscitada nos anos 2000 não tentou ser continuação no mesmo ano em que pararam (o volume 2, já que o 3, da image, eles desconsideraram na timeline deles). Em algumas edições desse você identifica algumas coisas como "eu subia essa parede mais rápido", e principalmente, conhece a filha do Casey Jones e (adotiva) da April já adolescente.
Mas as hq's pararam de ser publicadas quando o Laird vendeu os direitos dos personagens pra Viacom (dona do nickelodeon), e aí começou a sair outras hq's resetando tudo e com consultoria e participação do Kevin Eastman, particularmente não gostei da nova origem, mas a hq ainda diverte.

Raio Laser - CIM disse... @ 29 de julho de 2013 18:07

Opa. Obrigado award B. Sabia que esse post ia pescar algum fã legítimo das Tartarugas e poderíamos ter mais detalhes interessantes sobre a série como um todo. O que posso dizer é que essa edição me pegou de surpresa e alguns detalhes da qualidade geral da série ficaram bem nítidos, mesmo com o pouco espaço de texto a que tive acesso. Esse novos desenhos animados prestam? Abraço!

Thiago Bruno disse... @ 30 de julho de 2013 17:29

Ótimo texto, Ciro! Tive até vontade de ler essas edições mais antigas das Tartarugas. Também gostei das novas edições, até comprei algumas da Panini, mas não achei tão boas quanto aquelas primeiras histórias das Tartarugas daquele volume um que uma vez eu te emprestei.

Raio Laser - CIM disse... @ 31 de julho de 2013 10:10

Pois é Thiago. Fiquei com vontade de reler aquelas que você havia me emprestado, porque não me lembrava muito bem delas. Seria bom pra complementar o texto. Essas novas da Panini cheguei a olhar na banca, mas também achei o estilo meio tosco e desisti...

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