O movimento ameaçador da garotinha (Jean-louis Janssens e Guilhem Bec, 2007): Zarla, guerrière impitoyable é uma BD bastante genérica publicada pela Dupuis, a mais tradicional editora belga de HQs, em 2007. Seu enredo consiste numa tentativa da editora de misturar o mundo tão específico das HQs de fantasia medieval com a tradição, própria da Dupuis, de criar personagens bastante humanos e cativantes, que se misturam a meios tradicionais da ficção fantástica. O que ela faz na narrativa detetivesca em Spirou e Fantasio, ou com o folk lore em Schtroumpfs, são exemplos. Zarla é uma garotinha, filha de caçadores (hoje mortos) de dragões, criada por um velho bruxo e uma sevente giganta. Ela herda também a arma principal dos caçadores de dragões - um cão demoníaco e enfeitiçado, chamado Hydromel, que a acompanha como um bicho preguiçoso, mas que se transforma num guerreiro assustador quando Zarla se encontra em perigo (salvando-a sem que ela perceba).  

Zarla é uma HQ muito simpática, com traço encantador (Guilhem) e doses corretas de humor e aventura. É um produto infantil. Mas, à parte a sugestão de um produto de qualidade nesta categoria, eu gostaria de salientar como, de uma hora pra outra, os quadrinhos simplesmente abrem tudo que podem, num vortex vertiginoso, do modo como é descrito naquele belo poema de Drummond "A máquina do mundo", ou aquele assombroso conto de Borges, "O Aleph": um sistema todo se abre diante de nós, num momento, num átimo, numa condensação onírica - e depois se fecha, levando-nos a esquecer aquela epifania, relegando-nos novamente à burocrática passagem do tempo, a separar as coisas umas das outras, a tentar decodificá-la a partir de tedioso sistema classificatório.

Quando, num acesso de movimentação espacial entrecortado por pouquíssima passagem de tempo - aquilo que McLoud chama "transição de aspecto-para-aspecto" - , Zarla parece apenas a indefesa garotinha que pressupõe a série, e implora ao inimigo que não a faça mal, e então, num rompante, perfeitamente inscrito na sarjeta entre um quadro e outro, a menininha loira desatina sua farsa e diz "e tome isso!", empunhando uma pequena e frágil espadinha, quando isso acontece, nós nos convencemos, neste movimento sugerido, de todo o conceito da série. Se há algo de essencial, digamos, no próprio briefing que deve ter dado origem a esta série, isso deve ser a oposição entre a candidez inocente da menininha, acreditando que todos fogem dela, e não do cão-demônio, e a postura irascível e amedrontadora que ela assume, ao se portar com absoluta certeza de ser uma guerreira completa. Se é uma dicotomia, se é uma oposição paradoxal, se uma infeliz ironia, isso tudo se submete ao poder imagético da alegoria. A alegoria que tão bem se repousa na imagem. Imagem que tão bem se debruça nos quadrinhos. Quadrinhos que são capazes de sintetizar, num movimento tão sutil, o cosmos conceitual todo do produto a que dão suporte. Nesta simples sarjeta rastreada de uma HQ absolutamente ordinária, não apenas a série se abriu toda, sem possibilidade de ser convencida do contrário, como também o sistema representacional das HQs, tão distante das palavras e letras da literatura, em tudo racionais, explicativas, que se alongam tanto, e condensam tão pouco. Difícil não pensar num Aleph esotérico: Zarla empunhando a espada me levou à Mona Lisa, às pinturas góticas, às cavernas de Lascaux, aos sonhos de toda humanidade. (CIM)





















Quer dizer que, depois da “polêmica” do texto anterior, você voltou à Raio Laser cheio de esperança de ler outra iluminada crítica do Ciro Marcondes?! Pois você se deu mal! As linhas a seguir falam de lembranças afetivas, de um mangá semi-pirata e de videogame. Se você também leu esse gibi lá nos idos de 1993, deixe seu depoimento na caixa de comentários.

por Pedro Brandt

O jovem que entra numa banca de jornal hoje em dia e se depara com o tanto de mangás disponíveis nas prateleiras talvez não imagine como era a coisa no passado. Antes da chegada dos quadrinhos japoneses em massa ao Brasil (que começou a acontecer com força na virada do século), os mangás traduzidos para o português eram pouquíssimos. Contavam-se nos dedos de uma mão: Lobo Solitário, que foi publicado em diferentes formatos e editoras ao longo dos anos 1980 e 1990 (até ser, finalmente, editado na íntegra pela Panini, a partir de 2005); Akira, pela editora Globo (com um intervalo de alguns anos, mas publicada até o fim); a minissérie Mai, a garota sensitiva, pela Abril; e a também mini Crying Freeman, pela Nova Sampa.(republicada pela Panini em 2006).

Em comum, esses mangás têm desenhos em estilo mais realista e tramas mais sérias, com maior apelo para o leitor maduro. Eu gostava de todos eles (li-os na Gibiteca de Brasília) e queria mais. Não só mais títulos, mas variedade, opções. E, especialmente, eu queria um mangá com “cara de mangá”, com olhos arregalados, bocas enormes e muitos, muitos recursos gráficos que aproximam os quadrinhos dos desenhos animados.

Essa vontade eu saciei em outubro de 1993, quando me deparei com Street Fighter II – Em quadrinhos. Vale contextualizar: naquele ano, os Cavaleiros do Zodíaco, série que tem grande importância para a popularização dos animes e, por consequência, dos mangás no Brasil, ainda não tinha estreado na tv brasileira. Ou seja, qualquer mangá que chegasse ao país era, efetivamente, uma grande novidade.
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