por Pedro Brandt

Acho que não é só na banca pertinho da minha casa, mas em várias outras já constatei que a seção de revistas pornô fica muito próxima da seção de quadrinhos. Será que os funcionários acham que o público é o mesmo? Vai saber...

O fato é que, não fosse por essa “coincidência”, eu não teria levado para casa uma edição de Quadrinhos Super Eróticos. Não foi uma necessidade masturbatória que me fez levar para casa esse gibi proibido para menores de 18 anos (como indica a capa).

Comprei a revistinha por uma curiosidade quadrinística (“claro, claro”, diria um amigo). Ainda que eu saiba que o conteúdo desse tipo de publicação está há anos luz de um Manara, um Serpieri, um Levis, um Frollo ou mesmo um Carlos Zéfiro, um detalhe me chamou a atenção e foi determinante para a aquisição. A tarja preta impressa no plástico que embrulhava a revista deixava à mostra, no alto, seu título e um personagem, um robô que, não tive dúvidas, reconheci das histórias de Barbarella.

Puxei o plástico para um lado e para o outro na tentativa de identificar, na capa, algo que confirmasse a presença da personagem no interior da publicação, mas foi em vão. A revista, tão fininha, claro, não teria como ter uma HQ completa de Barbarella, mas quem sabe um pedaço?
LEIA MAIS >


por Ciro I. Marcondes

E eis que chega às minhas mãos, via Pedro Brandt, um exemplar de Barbarella chamado “A obra-prima” (de 1977), numa simpática edição portuguesa da Meriberica/Liber (original da belga Dargaud), escrita e desenhada por ninguém menos que o criador da beldade, o francês Jean-Claude Forest. Ler uma Barbarella original é uma experiência muito legal por dois motivos: primeiro, porque a heroína surgiu em 1962, antes, por exemplo, da Valentina, e desde então se tornou citação preferida das feministas, enquanto ícone da cultura pop representando a mulher que utiliza sua sexualidade em prol de uma libertação sociopolítica. Em segundo lugar, sendo fã do filme de Roger Vadim (1968), pensava se valeria a pena buscar uma comparação da musa nos quadrinhos com sua sensacional e apimentada encarnação vivida por uma jovem e exuberate Jane Fonda (fiquem aí com o sensacional strip-tease da abertura). 




LEIA MAIS >


por Roberta Machado
A história de O Quinze começa cinza-azulada, quase negra. Logo, conforme evolui a trama de Conceição, Vicente e Chico Bento, as páginas mudam do azul da calmaria para um amarelo-alaranjado cheio de agonia, até alcançar o clímax da história, num céu vermelho que clama por chuva. Foi por meio das cores da aquarela que o artista Shiko conseguiu traduzir a histórica narrativa de Rachel de Queiroz, agora publicada em quadrinhos pela Editora Ática. O livro faz parte da coleção Clássicos Brasileiros em HQ, que já recontou tramas como O Alienista, Triste fim de Policarpo Quaresma e O Cortiço.

A transferência da narrativa de O Quinze para os quadrinhos não amenizou os duros parágrafos de Rachel de Queiroz sobre um dos piores anos já vividos na seca nordestina. Ao contrário, graças ao traço realista e delicado o quadrinista Francisco José de Souto, o Shiko, o cenário ganhou figurantes, os nomes ganharam rostos e a fome, feições. As ilustrações dão vida a um sertão cruel, botam fogo na terra quente que engole os corpos esquálidos e machucados pela seca. Mas a adaptação respeita o livro publicado em 1930, e mantém suas falas originais. O ilustrador não suprime a descrição do ambiente, e faz questão de unir às palavras brilhantes da autora ao próprio traço.
LEIA MAIS >


Por Ciro I. Marcondes


1: Sobre o Herói grego, os Super-Heróis e o atirador do Colorado

Herói grego por Pichard
O herói na antiguidade clássica era uma figura legitimamente criada pelo imaginário popular. Sua função, enquanto criação coletiva de um mundo pré-científico (ou melhor dizendo, pré-logosófico), em que religião, arte, filosofia e ciência se misturavam, era a de tornar cognoscível um sistema ético, metafísico, político, estético e religioso para o povo. Figuras como Aquiles, Ulisses e Heitor não eram apenas “histórias” que serviam para o povo se entreter, mas verdadeiras estruturas míticas de significação do mundo. A partir da instituição da filosofia, especialmente socrática, estas figuras vão assumindo caráter cada vez menos inspirador no sentido educacional, e passam a ser tornar personagens de literatura. Vale lembrar as palavras de Harold Innis: “Os poemas homéricos foram o trabalho de gerações de recitadores e menestréis, refletindo as demandas de gerações de público para quem esses poemas foram recitados”.

why so NOT serious?
Quando comparamos os super-heróis com os heróis gregos, como o faz, de um jeito mais ou menos irresponsável, Stan Lee, há um erro e um acerto: o acerto é que o super-heróis também são, de algum jeito, criações coletivas, moldadas num imaginário comum, que, através de diferentes artistas e com intensa participação de um público, acabam assumindo arquétipos sociais. O erro, entretanto, não pode ser desprezado. Os super-heróis aparecem em uma época já hiper-midiatizada, em que as criações da indústria claramente são modelos autorreferentes, cuja função quase exlcusiva é retroalimentar as próprias estruturas e funções da indústria. Foi assim com os quadrinhos, assim é com o cinema. Assim é com as adaptações de super-heróis para o cinema. Os super-heróis foram criados especialmente como propaganda de guerra, e sugiro expressamente que leiam o artigo que escrevi a respeito. A inspiração para suas atuações nas sociedades contemporâneas nada têm a ver com  a inspiração que o herói antigo tinha para os gregos. O super-herói nada inspira a não ser uma relação especular com sua própria estrutura midiática e industrial, sendo o público uma parcela ativa e participante deste jogo. Dentro destes limites, eles podem gerar histórias incríveis, algumas intensamente inteligentes, e é como produtos dentro deste universo hipermidiático do pop que devem ser pensados e apreciados. Fora isso, super-heróis são inverossímeis em sua mais crua natureza, e dar atenção demais a eles é dedicar muita energia a uma coisa escancaradamente alienante. Um culto extremado, que passe a colocá-los como modelos para representações da vida real é um culto ao próprio dinheiro que é o desdobramento inicial de todo seu processo constitutivo.  Não podemos esquecer as palavras do velho Milton Santos:
LEIA MAIS >

 
Back to Top