Mandrake dá palmadas virtuais em astro mirim de Hollywood (Lee Falk, 1938): voltando de uma viagem à Itália,  meu irmão veio com uma edição bem puída, datada dos anos 70, de uma coletânea de histórias de Mandrake (Editoriale Corno (!); coleção Super fumetti in FILM), incluindo um ciclo completo realizado pelo próprio Lee Falk em 1938, além de três outros dos anos 60, da ótima fase de Phil Davis. A edição é curiosamente um produto de convergência, procurando republicar heróis que haviam aparecido também no cinema. No caso de Mandrake, uma série de pequenos filmes, 12 episódios, bem vagabunda, lançada em 1939 (outros heróis da coleção incluem Doc Savage, Diabolik, Kriminal, Drácula, Fantasma, Satanik... bem legal). Como não sei italiano, para ler o gibi desfalecente e mofadinho tive que fazer um mínimo múltiplo comum de português, francês e espanhol. A coisa meio que funcionou e tornou a experiência ainda mais pitoresca. Un altro trucco di Mandrake!


O que chama a atenção para este requadro selecionado é o fato de pertencer ao arco da história (publicado pelo King Features Syndicate) escrita pelo criador do personagem, bem apropriadamente chamada "Mandrake em Hollywood", antecipando o lançamento da série para o cinema. Logicamente, esta série em quadrinhos foi publicada em tiras de 3 em 3 quadros, tornando a coletânea uma leitura bastante monótona. A arte, digamos, "primitiva", lembra os próprios primórdios do cinema - pouca ação, com baixa variação de ângulos (quase todos em "plano americano") e exploração primária de recursos básicos como flashbacks, letreiros e outros elementos dos quadrinhos. Estes "primeiros quadrinhos" eram balizados, em quase sua totalidade, nos diálogos. O conteúdo moral das histórias, porém, bem duvidoso, não parece processar a mesma ingenuidade.

Aqui, Mandrake, o mago da "magia branca" (como o prefácio do gibi faz questão de esclarecer), assina contrato como ator de Hollywood e passa a investigar casos envolvendo as celebridades de Beverly Hills. Os dois casos mostrados em "Mandrake em Hollywood" apresentam o mesmo detour moral: no primeiro, uma vedete loira e orgulhosa, namoradinha da América, que não gosta de atuar e maltrata sua dublê, se vê cair num golpe engenhoso (dá-lhe vilões!): a dublê assume sua identidade e bota a biscate na miséria. Mandrake, o enfadonho gentil-homem, passa a investigar, desvendar o caso, prender a dublê e restaurar a ordem. Nas tiras subsequentes, o fato de a atriz humilhar anteriormente a dublê não é mais mencionado. Para o velho mago, dois pesos são duas medidas diferentes. No segundo caso, ainda mais hilário, um pequeno Justin Bieber da época, o rabugento Sonny, é uma giga estrela mirim, indescritivelmente babaca, que humilha camareiros e motoristas, prestando respeito apenas à amizade sóbria de Mandrake. As coisas vão se dando assim até que alguns empregados, coerentemente de saco cheio, resolvem sequestrar o infame peralta e pedir a fortuna de 1 milhão de dólares como resgate. Claro que Mandrake passa a investigar tudo e restaurar a paz no reino de Hollywood novamente.

A diferença entre os dois arcos é que, na história de Sonny, Mandrake reconhece a personalidade "difícil" do menino e resolve usar de alguns corretivos para libertar a natureza bondosa que se escondia por trás daquele pequeno Hitler (o grande, por sinal, já chegava invadindo a Polônia naquela mesma época). O hilário é que, evidentemente, Mandrake não vai sujar suas mãos pra dar umas palmadas no moleque (afinal, quem é que bate no filho dos outros?). Então, ele cria uma ilusão (tipo um... hmmm... cinema?) que mostra a mãe de Sonny aplicando-lhe o corretivo, como se o ato passivo da espectatorialidade, conforme muito bem se acreditava a respeito do cinema na época, provocasse o distanciamento necessário para que fossem aplicadas às massas, num doutrinamento técnico, os corretivos capazes de reconstruir as imagens individuais e coletivas de um povo. Hitler que o diga! Cinema é magia! (CIM)


0 comentários

Postar um comentário

 
Back to Top