Sidarta presencia a morte violenta do asceta Assad, que entrega o corpo para ser devorado pelos lobos (Ozamu Tezuka, 1972): a série Buda, publicada por Ozamu Tezuka ao longo dos anos 1970, é tão magnanimamente constituída em todas as suas estruturas de quadrinhos que não valeria a pena escrever um texto longo sobre ela. Caberia um sobre cada um dos 14 insuperáveis volumes. Ou seja, um livro (hmm... pensar a respeito). Portanto, para não deixar em branco este que é um dos meus quadrinhos favoritos e certamente um dos melhores de todos os tempos (seria uma espécie de Em busca do tempo perdido das HQs), resolvi comentar um único momento, dentre literalmente dezenas e dezenas de ações sublimes na história, para prestar tributo. A título de curiosidade, Buda é a obra mais ambiciosa deste gênio das HQs, e aquela em que o deus do mangá mais se dedicou de corpo e alma, elaborando todos seus elementos estilísticos (humor, drama, ação, personagens-atores, metalinguagem, narrativas cruzadas, etc.) num profundo grau de resolução filosófica e existencial, sem jamais perder a pegada de aventura e a leveza de seu humor. Além disso, é um dos momentos em que seu grafismo espacial chega à máxima exponencialidade, com páginas inteiras de paisagens impressionistas e percepções narrativas espalhadas num único quadro, em nada deixando a dever a um Patinir ou a um Debret.

Estes três quadros estão no sétimo volume da saga, quando Sidarta inicia sua jornada espiritual ao buscar um caminho tortuoso de ascese hindu na floresta de Uruvella, onde homens passam os dias sendo comidos por formigas, queimados pelo sol e furados por pregos, além de outros tipos de autoflagelo. Após questionar estes pricípios e ser rejeitado pelos ascetas, Sidarta vê-se só em sua jornada, acompanhado apenas pelo pequeno Assad, um monge melequento que, em primeira instância, não passa de um estorvo inútil e que, depois de passar por uma transcendental experiência de quase-morte, recebe o dom de previsão exata do futuro. Desde o princípio, Assad prevê o exato dia de sua própria morte, seis anos no futuro, devorado por bestas selvagens. A brutalidade da previsão e a serenidade do pequeno monge impressionam o jovem príncipe, que faz tudo para protegê-lo. A preocupação do leitor acompanha a de Sidarta, já que Assad é o tipo de personagem que angaria simpatia progressivamente e, como suas previsões nunca falham, a cada volume alimenta-se a expectativa sobre sua morte vaticinada.

A beleza da história desse personagem se equipara à força que com ela impressiona o futuro Buda. Cada um dos reis, soldados ou camponeses que vão se consultar com Assad recebem de volta uma resposta plácida, técnica e frustrante: seus futuros nunca serão o que esperam, e geralmente resultam em mágoa, frustração ou insuficiência, que precisam ser comunicados com ascetismo pelo pequeno monge. Admira-nos, portanto, o olhar incompassivo e resignado com que Assad realiza sua leitura do mundo, anunciando a importância do desapego budista em níveis absolutamente extremos. Na véspera de sua própria morte, Assad comporta-se de maneira idêntica aos outros dias de sua vida, consciente da inutilidade de cultivar paixões contra aquilo que está além de sua capacidade de resolução. Sidarta amarra-o numa árvore para impedir que as bestas selvagens o ataquem, mas um castor, na calada da noite, rói as cordas e Assad vai parar perto de uma ninhada faminta de lobos, que chora, sem alimento. Resolutamente, sem paixões ou afetos, Assad oferece seu próprio corpo para os pais dos lobos, que o dilaceram diante dos olhos de Sidarta que, atrasado, nada pode fazer. O desprendimento total em relação a qualquer tipo de posse, apego ou adesão acha um apogeu neste generoso ato de martírio ("não me pertence nem minha própria vida") onde Assad entende, como um dever inquestionável, que a vida daqueles lobos necessita mais dele do que ele próprio. Foi este o verdadeiro prego cravado no coração daquele que se tornará o Buda. (CIM)

Este post é dedicado à KK, que dividiu comigo, por um ano todo, a entusiasmente experiência de ler a série completa do Buda.













1 comentários

Guga Marcondes disse... @ 15 de janeiro de 2012 21:25

Um quadro e, de repente, a vontade de ler a série inteira e o sentimento de tempo perdido... e um projeto para 2012.

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