por Gustavo Trevisolli

Para um cara que vem de Campinas, interior de São Paulo, morar no Rio de Janeiro tem suas vantagens. Apesar do trânsito e da considerável quantidade de mamíferos presentes nesta cidade, os eventos culturais não são tão escassos como os próprios cariocas reclamam.

Além de ir em todos os grandes eventos do Centro Cultural no Banco do Brasil e da Caixa Econômica, ainda fui em outros eventos voltados aos quadrinhos, como ComiKong com presença de Oliver Copiel, artista responsável por inovar o visual do Thor; a Bienal de Livro, em uma mesa redonda com Rafael Coutinho, André Drahmer, Lourenço Mutarelli e Rafael Sica; além da segunda edição da Comic Con Rio, com exposição de originais de Will Eisner, presença de diversos cartunistas, inclusive do roteirista Chris Claremont. Recentemente acabou uma exposição em que houve mesas redondas e oficinas com Cartunistas de Brasil e Argentina.

Esta Exposição foi Macanudismo, com mais de 650 tiras, Cartuns e quadrinhos de Liniers. Argentino, nascido em Buenos Aires, atingiu fama e glória com suas tiras no jornal Lá Nácion, assim como em ilustrações para revistas como a Rolling Stone. Lançou até agora 8 álbuns dos Macanudos, sendo 5 traduzidos aqui no Brasil, lançados pela Zarabatana Books. A editora, com sede em Campinas, também lançou outros álbuns de quadrinhos argentinos, como a Fierro, colêtanea da revista argentina que apresenta diversos cartunistas do país.
As tiras online para o Jornal Lá Nácion podem ser lidas aqui

O grupo de Ken Parker parte, em vão, para evitar estupro, morte e rebelião (Giancarlo Berardi e Ivo Milazzo, 2002): que no gibi Ken Parker destila-se um adensado painel sociológico dos nossos dias atuais, sempre veiculado pelo gênero mítico que é o western, associado a um painel multicultural (vejam: histórias no velho oeste americano, feita por italianos, com fôlego universalizante), o bom leitor de HQs de qualidade (ou seja: o leitor de Raio Laser) já deve saber. Não surpreende, portanto, que na história em dois arcos "Um sopro de liberdade", publicada pela Mythos no Brasil em 2002, encontremos um debate ético capcioso, envolvendo sistemas prisionais, racismo, sociabilidade, estupro, jornalismo marrom e toda uma miríade de enlaçamentos contemporâneos que não nos surpreenderia se se passasse num presídio na São Paulo dos dias atuais. 

Aqui, Ken Parker está simplesmente... preso. O olhar humanitário do herói permite que se deflagre, deste ambiente, uma fauna rica de pessoas que estão encarceradas por motivos diversos: do cara que está ali vítima de puro racismo, ao mafioso veterano, ao psicopata. Fora isso, um coronel procurando fazer a coisa certa, mas levado a executar a coisa errada, um prefeito com o cuidado de não manchar sua imagem, um jornalista inescrupuloso, mas tentando fazer seu trabalho, e duas damas da sociedade feitas reféns dão o tom para que esse barril de pólvora inevitavelmente exploda.


Após um pequeno hiato para que nosso time de redatores possa respirar, voltamos à ativa na Raio Laser com a estreia de mais uma querida colaboradora. A bola da vez é de Gabriela Sobral (blog dela aqui), jornalista, analista de comunicação e fã de quadrinhos. Gabi tem talento e sensibilidade para as narrativas eternamente (e ternamente) afetivas, e resolveu se debruçar um pouquinho sobre a obra da querida (em vários meios) quadrinista iraniana Marjane Satrapi. Esperamos, logo, mais colaborações da Gabi. Seja bem-vinda! (CIM)

por Gabriela Sobral

Sagas da família, álbuns de família, histórias que os avós contam sempre foram coisas muito caras para mim. Sempre procuro algo nesse cheiro de passado, por puro encanto; uma necessidade de me perceber naquelas pessoas. Esse diálogo com a minha memória até hoje é essencial para a construção do que sou, e aos poucos vou tecendo um elo entre os “eus” antigos e os presentes. Essa introdução justifica o interesse em escrever sobre a obra da Marjane Satrapi, nas quais vejo os retratos de pessoas que não conheci, mas que adquiri. Agora, deixemos de lado minhas enrolações e vamos falar de quadrinhos. 

Por causa de meu hobby mofado, assim que tive contato com a obra de Satrapi, senti uma identificação imediata com a abordagem da quadrinista que mistura história, histórias de vida e um resgate de suas experiências, pois a narrativa nada mais é do que contar memórias, reais ou criadas. 


por Pedro Brandt

Stuart Sutcliffe foi um beatle por pouco tempo. Ele trocou a música por suas verdadeiras paixões: as artes plásticas e a namorada, Astrid Kirchherr, fotógrafa alemã que virou amiga dos rapazes de Liverpool antes da fama, durante a temporada do grupo em Hamburgo — onde eles aprimoram seu poder de fogo em cima do palco tocando em inferninhos na zona boêmia da cidade. É neste período que se passa a história em quadrinhos Baby’s in black — O quinto beatle.

Como o título sugere — e como o subtítulo A história de Astrid Kirchherr e Stuart Sutcliffe confirma —, a HQ escrita e ilustrada pelo alemão Arne Bellstorf tem os Beatles como coadjuvantes do curto, mas intenso, relacionamento do baixista com a fotógrafa. Stu, como era conhecido, tocou baixo nos Beatles entre 1960 e 1961. Especular como teria sido a história da banda caso ele tivesse permanecido nela é um exercício que não vai muito longe. Sutcliffe morreu de aneurisma cerebral, aos 21 anos, em 10 de abril de 1962.


Quem debuta por aqui hoje é, com enorme satisfação (nossa), o Thomaz Simões, professor de História da Arte, altamente qualificado, e que mesmo assim escreveu a mais surpreendente crônica sobre os quadrinhos... E ele se apresenta:

Hoje professor, foi graças aos quadrinhos que acabei tomando gosto por desenho e leitura. Me formei arquiteto, fiz mestrado em História da Cultura, em breve começo um doutorado em Antropologia Social... Um dia, em algum lugar, me encontro (espero que tenha quadrinhos por lá).

por Thomaz Simões

“Romance gráfico”?... Fico na dúvida se respondo – monossilabicamente, ou melhor, quadrinisticamente – : “sei não” ou “putz!”...

Sei que deveria ficar feliz com esse reconhecimento dos quadrinhos como Arte, mas... sei não. É que no fundo não ligo. Isso vem lá da minha adolescência e, por isso mesmo, é digno de nota: perdido, “sem pai nem mãe” no tiroteio da fase, consumia, colecionava, quilos de “gibis” sem peso na consciência de estar sendo infantil...

Certa vez, para a incredulidade do meu pai, pedi que enviasse uma carta com “perguntas ao editor”, dúvidas sobre detalhes quase insignificantes detectados no meio das histórias (vinham muitas vezes de notas de rodapé – marcadas com asterisco – com referências a números ou personagens antigos), resumindo: qualquer sombra de cultura quadrinística que me faltasse eu ia atrás.


por Ciro I. Marcondes 

Sempre fui um fã de Sergio Aragonés. Lembro-me perfeitamente de, back in the good old nineties, comprar uma edição velha de Groo, o errante (uma que tinha Groo caminhando, num plano bem aberto, no deserto, junto a um esqueleto de urubus) e ler e reler aquela edição, até então única para mim, de maneira quase psiquiatricamente obsessiva. Estava ali, antes que eu conhecesse o humor da verve da MAD (da qual Aragonés foi um dos mais assíduos colaboradores), um tipo de diferente de HQs, primado por um humor negro, mas não baixo e cínico, como quase tudo que se vê em humor (mesmo de qualidade) hoje em dia. O humor de Groo conseguia ao mesmo tempo ser irônico, ácido, crítico, e leve, suave, quase inocente. Que tipo de inteligência mordaz seria capaz de produzir uma paródia de Conan que conseguia ser quase melhor que o original? Certamente não uma bitolada mente americana. Aragonés, o espanhol-mexicano, com pleno domínio da quadrinização, era a própria mente multicultural que poderia produzir o quadrinho mais engraçado dos anos 80: acostumado a deitar e rolar na linguagem dos quadrinhos mudos em Louder than words para a MAD, ele fez, junto ao impagável Mark Evanier, de Groo uma obra-prima tanto da estética, quanto das paródias, quanto do humor, quanto da linguagem em quadrinhos.

por Pedro Brandt

“A história a seguir é uma adaptação bastante livre do romance de Carlo Collodi”, avisa o roteirista e desenhista Winshluss antes da primeira pagina ilustrada de sua versão em quadrinhos para Pinóquio. Nas mãos deste artista francês (nascido Vincent Paronnaud, em 1970), a marionete que ganha vida não é de madeira e seu nariz não cresce se ele mentir. O boneco também não tem fada madrinha, um pai carinhoso preocupado com ele ou um grilo falante fazendo papel de consciência.

Se tanto a obra de Collodi quanto a animação feita a partir dela pelos estúdios Walt Disney pregavam lições visando o bom comportamento dos petizes, Winshluss apresenta em 183 páginas uma visão sombria do mundo que nada tem de conto de fadas. Uma publicação, definitivamente, não recomendado para crianças — mas indicada para quem quiser conhecer uma das mais impressionantes HQs francesas em anos recentes, vencedora do prêmio máximo no festival de Angoulême em 2009. À qualidade do conteúdo, soma-se o ótimo acabamento editorial, com capa dura, papel de alta gramatura, impressão impecável e uma adaptação muito bem-feita da tipografia original.

Começa amanhã, e segue até quarta-feira, a III Jornada de Estudos Sobre Romances Gráficos na UnB. O evento é organizado pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea e, desta vez, tive a honra de participar da organização. Apresentarei, logo na primeira mesa, no dia 24, o trabalho "A espaçotopia a partir de Moebius", e vou ministrar um pequeno workshop sobre a história dos Quadrinhos no dia 25. A programação está muito rica e conta ainda com o lançamento do livro Histórias em quadrinhos: diante da experiência dos outros, organizado por Regina Dalcastagnè.

Segue a programação abaixo e... programe-se! (CIM)


por Ciro I. Marcondes

No ano passado, numa frutífera excursão aos sebos, encontrei uma pequena coleção do Zé Carioca – edição quinzenal – entre 1971 e 1979 (pegando os – ainda modestos – 25 anos da Editora Abril), que consegui pechinchar pela quantia de R$ 1,00 cada, levando, ao todo, no final, umas 40 edições bem conservadas, sem grampo, bem amareladas (como não poderia deixar de ser), mas dignas. A coleção está toda furada, mas isso pouco me importava (não sou muito afeito aos esquisitismos do colecionismo). Após uma amiga me declarar que eu havia gasto 40 reais em uma bela pilha de lixo, resolvi ensacar aquilo e guardar para quando uma oportunidade interessante de aproveitá-la na Raio Laser aparecesse.

Sempre fui leitor Disney (é verdade que é difícil indicar algum tipo de HQ que eu não leia) desde a infância, e, por mais que estivesse distante desse universo há alguns bons anos (ou décadas), sentia falta dessa parcela tão importante da cultura de HQs aqui no blog. Disney acabou sendo bastante defenestrado por suas associações com o macartismo, além da presença daquele livro eficiente, mas academicamente chucro e datado (“Para ler o Pato Donald”), que cuidou de limar lentamente outros tipos de leitura inteligente de seus quadrinhos. Minha lembrança dos quadrinhos Disney sempre foi de narrativas versáteis, atuais, cheias de ricos universos de personagens, com arquétipos fortes (carregando, lá, seus preconceitos, mas, felizmente, naquela época ninguém se importava), variabilidade temática, instigações cientificas, sociológicas, uma fartura de benesses.

Minha pequena “pilha de lixo” vai do número 1031 até o número 1445, lembrando que, em primeiro lugar, esta série começa no número 449 (primeira estranheza) e que, em segundo, ela consta apenas de números ímpares, já que os números pares eram dedicados ao Pato Donald na Abril dos anos 60-70 (estranheza editorial número 2). É claro que, como estamos falando de Zé Carioca, estamos falando de um tipo especial de cultura Disney, ou seja, uma desenvolvida no Brasil e para o Brasil, e vou privilegiar aqui a análise deste aspecto das histórias. A imensa maioria delas é já da fase de editoração 100% nacional, provavelmente desenhadas pelo lendário Renato Canini, responsável pelo abrasileiramento absoluto do Zé nos anos 70, mas não há créditos.

As histórias do Zé nesta época são intensamente vivazes, muito coloridas, com familiar cenário brasileiro, e geralmente lidando com problemas mais afeitos ao leitor brasileiro: um tipo especial de assaltos e violência, por exemplo, ou a cultura do samba e outros tipos de cultura de matriz negra, geralmente excluídas do compêndio cultural da Disney, ou um certo temperamento mais despojado, elétrico e malandro de todos os personagens, contaminados por um senso de ética carioca que, sejamos francos, ainda faz bastante sentido. Portanto, selecionei quatro histórias que funcionam como um anedotário daquilo que encontrei em Zé Carioca ao chafurdar neste “lixo extraordinário”.


Alexandre Linck Vargas é professor universitário de Cinema. Atualmente faz também doutorado sobre Teoria dos Quadrinhos e escreve para um blog diferente, com uma proposta "além", o Quadrinhos na Sarjeta. Linck realiza leituras analíticas, muito contextuais, deslindando visões estéticas e sociopolíticas a partir dos quadrinhos, e seu blog é altamente recomendado. Aqui, colaborando para a gente, ele escreve sobre a Academia e os Quadrinhos, um tema relevante. Como em qualquer assunto, os quadrinhos são matéria-prima para o pensamento estético, filosófico e/ou sociológico. Não existe absolutamente qualquer razão para que assim não o seja, considerando que o "pensamento acadêmico" por sí só não existe, a não ser como direcionamento do próprio pensamento em si. Obrigado Linck e boa leitura a todos! (CIM)

por Linck

Antes de tudo gostaria de agradecer o convite do Ciro para escrever aqui. Demorei para achar o tom na medida em que já escrevo em outro lugar e não queria apenas fazer mais um texto de “rotina”. Pensei então em concentrar uma discussão que de certa maneira se dissemina em cada texto lá no Quadrinhos na Sarjeta: A verdade das HQs! (música de revelação). Isso é pretensioso? Demais. E é mentiroso também. Eu não falo da verdade, muito menos das HQs, mas quero pensar um pouco o problema da verdade.
                                         
É sabido que historicamente os quadrinhos foram pouco lidos pela academia. Há diversas iniciativas que se destacam, mas pontuais. No Brasil existem duas tradições bastante fortes, a tradição semiótica e a tradição marxista. Mesmo assim num país pouco escolarizado e bastante alheio ao mundo acadêmico, essas duas linhas não encontraram muita ressonância no leitor comum. Com isso criou-se um curioso cenário de isolamento. Não só isolamento da academia com o leitor, mas também entre os pequenos grupos que estudavam quadrinhos no âmbito acadêmico.


por Ciro I. Marcondes

Em 1957, cinco cartunistas espanhóis publicaram aquilo que seria, talvez tecnicamente, a primeira revista independente de quadrinhos da história. Guillhermo Cifré, Carlos Conti, Josep Escobar, Eugenio Giner e José Peñarroya, até então, eram os mais formidáveis cartunistas da mais formidável editora espanhola, a Bruguera, vivendo ali seu esplendor do auge da era editorial no século XX. Alguns dos quadrinhos mais populares desta época na Espanha eram editados pela Bruguera através da saudosa revista Pulgarcito: El reporter Tribulete, Don Pío, Zipi y Zape e, é claro, Mortadelo e Filemón (aqui: Mortadelo e Salaminho), o mais internacional quadrinho espanhol, criado por Francisco Ibáñez, de uma geração imeditamente posterior. O cômico-absurdo e politicamente incorreto desta HQ dá o tom de toda uma geração hoje bastante esquecida, mas que não tarda em ser resgatada a partir da memória da iconoclástica revista Tio Vivo.

Insatisfeitos com as condições de trabalho e partindo para uma nova aventura editorial, estes cinco voluntariosos homens se demitiram da Burguera no auge de suas pretensões como cartunistas, numa época em que, em plena ditadura franquista, quadrinistas eram vistos como mera working class, precisando varar madrugadas para cumprir prazos absurdos, com salários baixos e nenhum reconhecimento. Já os quadrinhos eram uma extensão pobre e baixa do milionário mercado editorial, que via, antes da popularização da televisão, uma multiplicação sem precendentes da extensão de seu domínio.


por Pedro Brandt

Acho que não é só na banca pertinho da minha casa, mas em várias outras já constatei que a seção de revistas pornô fica muito próxima da seção de quadrinhos. Será que os funcionários acham que o público é o mesmo? Vai saber...

O fato é que, não fosse por essa “coincidência”, eu não teria levado para casa uma edição de Quadrinhos Super Eróticos. Não foi uma necessidade masturbatória que me fez levar para casa esse gibi proibido para menores de 18 anos (como indica a capa).

Comprei a revistinha por uma curiosidade quadrinística (“claro, claro”, diria um amigo). Ainda que eu saiba que o conteúdo desse tipo de publicação está há anos luz de um Manara, um Serpieri, um Levis, um Frollo ou mesmo um Carlos Zéfiro, um detalhe me chamou a atenção e foi determinante para a aquisição. A tarja preta impressa no plástico que embrulhava a revista deixava à mostra, no alto, seu título e um personagem, um robô que, não tive dúvidas, reconheci das histórias de Barbarella.

Puxei o plástico para um lado e para o outro na tentativa de identificar, na capa, algo que confirmasse a presença da personagem no interior da publicação, mas foi em vão. A revista, tão fininha, claro, não teria como ter uma HQ completa de Barbarella, mas quem sabe um pedaço?


por Ciro I. Marcondes

E eis que chega às minhas mãos, via Pedro Brandt, um exemplar de Barbarella chamado “A obra-prima” (de 1977), numa simpática edição portuguesa da Meriberica/Liber (original da belga Dargaud), escrita e desenhada por ninguém menos que o criador da beldade, o francês Jean-Claude Forest. Ler uma Barbarella original é uma experiência muito legal por dois motivos: primeiro, porque a heroína surgiu em 1962, antes, por exemplo, da Valentina, e desde então se tornou citação preferida das feministas, enquanto ícone da cultura pop representando a mulher que utiliza sua sexualidade em prol de uma libertação sociopolítica. Em segundo lugar, sendo fã do filme de Roger Vadim (1968), pensava se valeria a pena buscar uma comparação da musa nos quadrinhos com sua sensacional e apimentada encarnação vivida por uma jovem e exuberate Jane Fonda (fiquem aí com o sensacional strip-tease da abertura). 





por Roberta Machado
A história de O Quinze começa cinza-azulada, quase negra. Logo, conforme evolui a trama de Conceição, Vicente e Chico Bento, as páginas mudam do azul da calmaria para um amarelo-alaranjado cheio de agonia, até alcançar o clímax da história, num céu vermelho que clama por chuva. Foi por meio das cores da aquarela que o artista Shiko conseguiu traduzir a histórica narrativa de Rachel de Queiroz, agora publicada em quadrinhos pela Editora Ática. O livro faz parte da coleção Clássicos Brasileiros em HQ, que já recontou tramas como O Alienista, Triste fim de Policarpo Quaresma e O Cortiço.

A transferência da narrativa de O Quinze para os quadrinhos não amenizou os duros parágrafos de Rachel de Queiroz sobre um dos piores anos já vividos na seca nordestina. Ao contrário, graças ao traço realista e delicado o quadrinista Francisco José de Souto, o Shiko, o cenário ganhou figurantes, os nomes ganharam rostos e a fome, feições. As ilustrações dão vida a um sertão cruel, botam fogo na terra quente que engole os corpos esquálidos e machucados pela seca. Mas a adaptação respeita o livro publicado em 1930, e mantém suas falas originais. O ilustrador não suprime a descrição do ambiente, e faz questão de unir às palavras brilhantes da autora ao próprio traço.


Por Ciro I. Marcondes


1: Sobre o Herói grego, os Super-Heróis e o atirador do Colorado

Herói grego por Pichard
O herói na antiguidade clássica era uma figura legitimamente criada pelo imaginário popular. Sua função, enquanto criação coletiva de um mundo pré-científico (ou melhor dizendo, pré-logosófico), em que religião, arte, filosofia e ciência se misturavam, era a de tornar cognoscível um sistema ético, metafísico, político, estético e religioso para o povo. Figuras como Aquiles, Ulisses e Heitor não eram apenas “histórias” que serviam para o povo se entreter, mas verdadeiras estruturas míticas de significação do mundo. A partir da instituição da filosofia, especialmente socrática, estas figuras vão assumindo caráter cada vez menos inspirador no sentido educacional, e passam a ser tornar personagens de literatura. Vale lembrar as palavras de Harold Innis: “Os poemas homéricos foram o trabalho de gerações de recitadores e menestréis, refletindo as demandas de gerações de público para quem esses poemas foram recitados”.

why so NOT serious?
Quando comparamos os super-heróis com os heróis gregos, como o faz, de um jeito mais ou menos irresponsável, Stan Lee, há um erro e um acerto: o acerto é que o super-heróis também são, de algum jeito, criações coletivas, moldadas num imaginário comum, que, através de diferentes artistas e com intensa participação de um público, acabam assumindo arquétipos sociais. O erro, entretanto, não pode ser desprezado. Os super-heróis aparecem em uma época já hiper-midiatizada, em que as criações da indústria claramente são modelos autorreferentes, cuja função quase exlcusiva é retroalimentar as próprias estruturas e funções da indústria. Foi assim com os quadrinhos, assim é com o cinema. Assim é com as adaptações de super-heróis para o cinema. Os super-heróis foram criados especialmente como propaganda de guerra, e sugiro expressamente que leiam o artigo que escrevi a respeito. A inspiração para suas atuações nas sociedades contemporâneas nada têm a ver com  a inspiração que o herói antigo tinha para os gregos. O super-herói nada inspira a não ser uma relação especular com sua própria estrutura midiática e industrial, sendo o público uma parcela ativa e participante deste jogo. Dentro destes limites, eles podem gerar histórias incríveis, algumas intensamente inteligentes, e é como produtos dentro deste universo hipermidiático do pop que devem ser pensados e apreciados. Fora isso, super-heróis são inverossímeis em sua mais crua natureza, e dar atenção demais a eles é dedicar muita energia a uma coisa escancaradamente alienante. Um culto extremado, que passe a colocá-los como modelos para representações da vida real é um culto ao próprio dinheiro que é o desdobramento inicial de todo seu processo constitutivo.  Não podemos esquecer as palavras do velho Milton Santos:


A horripilante aparição do demônio Thog, de Xhutal, para Natala, da Britúnia (Roy Thomas e John Buscema, 1985): ao ler a história de Conan entitulada "A sombra no palácio da morte" (sendo a segunda parte "Nos tentáculos de Thog") em uma velha "Conan, o bárbaro: especial número 2" da editora Abril, não pude deixar de ficar fantasmagoricamente impactado não apenas com a arte vigorosa, viril e ricamente detalhada (sempre rembrandtiana, no preto-e-branco) de John Buscema, ou com o roteiro sólido, de minuciosa decupagem e estilística literária, de Roy Thomas - mas também com uma certa qualidade nefasta, demoníaca, quase metafísica, da base original do perturbador escritor Robert E. Howard.


por Pedro Brandt 

Nós, da Raio Laser, somos fãs da editora Rachel Gontijo. Ano passado, ela lançou A Bolha Editora, especializada em quadrinhos pouco convencionais e bizarros. Este fim de semana, Rachel, que é brasiliense mas mora no Rio de Janeiro, estará mais uma vez em Brasília para divulgar material d’A Bolha. Ela chega na cidade com duas novidades: Ice fuckers, do francês Frédéric Fleury, e O babaca, do americano Gary Panter. Recomendo uma googleada para conferir o trabalhos dos dois artistas.

Pessoalmente, gosto mais do Panter, dono de um estilo mais explosivo e selvagem (como o nome dele sugere) e criativo do que o Fleury, com seu traço underground tosco (“escola” que tem formado alunos demais, eu diria). De qualquer jeito, quero conferir os dois lançamentos para melhor avaliá-los. 


O agito está marcado para às 15h, deste sábado (28 de julho) na Laje (708 Sul, bloco A, casa 47). Presença confirmada de quase toda a galera que produz quadrinhos em Brasília. E, claro, da equipe Raio Laser. Nos vemos lá!




O uso que fazemos das palavras é capaz de dizer muito sobre o modo como enxergamos o mundo. No uso da palavra razão encontra-se as marcas de como, em geral, a concebemos. Dizemos que “a razão disto é aquilo”, ou seja, associamos, sem perceber, razão a causalidade, como se fossem a mesma coisa. Quando dizemos que “a razão disto é aquilo” estamos querendo dizer justamente que a “causa” disto é aquilo. Mas um pensamento que se guie unicamente pela causalidade na interpretação do mundo certamente corre sério risco de reduzí-lo. O mesmo acontece na narrativa: ainda que muitas narrativas sejam construídas em torno de uma causalidade que simplesmente encadeia os acontecimentos, há sempre a possibilidade de construir de outro modo o que se quer contar. Um exemplo banal: começar pelo fim.

Hippies lastimam seu apocalipse junkie (Gilbert Shelton, 1976): A cena é desoladora: no cruzamento da 2nd Avenue com a Praça St. Marks, em Nova York, seis personagens dispõem-se num movimento estatizado pelo formato de charge do quadro, cada um envolto em suas próprias preocupações, reiterando seu próprio monólogo. Na rua, uma enxurrada de lixo que, se prestarmos um mínimo de atenção, revelará um pouco dos hábitos desta louca sociedade no mês precedente: todo tipo de garrafa de bebidas alcoólicas legalizadas (gin, uísque, cerveja, todo tipo de vinho - até um "suave french wine" - , e até coisas como "toxic tickle" e "óleo de fígado"), um edição da revista East village other (publicação lendária pela qual passaram Crumb, Spain Rodriguez e o próprio Shelton), um sutiã, uma cueca e até mesmo um papel de "doce de gordura de porco". 



Cristiano Bastos é um gaúcho sangue boníssimo e nosso amigo, residindo aqui em Brasília. Escreveu, dentre muitas atividades, para as revistas Bizz, ESPN e Aplauso. Atualmente é reporter especial da revista Rolling Stone, onde escreve sobre música e política.  Nesta última, fez reportagens maravilhosas sobre Novos Baianos, Raul Seixas e Romário. É autor do livro Gauleses Irredutíveis - Causos e atitudes do rock gaúcho. É também diretor do documentário Nas paredes da pedra encantada, sobre o álbum Paêbirú, de Lula Côrtes e Zé Ramalho. E ele curte quadrinhos. E ele curte EC Comics, Tales from the Crypt, quadrinhos de antes do comics code authority. E ele curte bons textos. E fez um ótimo texto pra gente, contando sua relação com estes lendários quadrinhos de terror, além da arte de chafurdar no lixo alheio. Para quem quiser conhecer o trabalho do Cristiano, ele tem um blog e um portfolio online. Valeu meu véio. Esta é uma colaboração realmente especial. PS: Ilustrei a crônica do Cristiano com imagens sortidas das HQs de Cripta do terror. Enjoy! (CIM

por Cristiano Bastos

Aos meus “40 invernos” eu às vezes ainda sonho um sonho que sonhava sempre quando criança. De tanto sonhá-lo ficou gravado em minha memória. Sonho que perambulo entre as lixeiras do prédio “minhocão” [esses conjuntos habitacionais levantados pelo Banco Nacional da Habitação (BNH), nos anos 1970, para acomodar a classe C], em um dos quais minha família estabeleceu-se quando meus pais deixaram Cachoeirinha, na região metropolitana da capital gaúcha, para ir morar em Porto Alegre. Eram dezesseis blocos e as respectivas lixeiras, enfileiradas uma ao lado da outra. E, para cada andar, havia um compartimento através do qual os moradores despojavam seus refugos domésticos – e, também, jornais, livros e revistas.



por Pedro Brandt

A revista Animal teve vida breve, durou 22 números, entre 1988 e 1990, mas deixou um legado que ainda reverbera na memória de leitores e autores de histórias em quadrinhos. Foi em suas páginas que vários personagens, roteiristas e desenhistas estrangeiros, até então inéditos no Brasil, foram publicado no país pela primeira vez. O espanhol Max foi um deles. Seu Peter Pank — uma releitura mucho loca de Peter Pan — foi uma das séries mais populares da publicação.

Depois disso, os fãs brasileiros de Max ficariam anos sem notícias do espanhol, até a publicação, no final de 2006, de O prolongado sonho do Sr. T (estreia da editora Zarabatana). Esse distanciamento pode dar a impressão de que autor espanhol tem uma produção sazonal. Não é o caso. Aos 55 anos, Max (nascido Francesc Capdevila) acumula quatro décadas de ilustrações e histórias em quadrinhos e goza de grande prestígio na Espanha. Em 2007, o barcelonês recebeu o Prêmio Nacional dos Quadrinhos. Ano passado, foi tema de uma grande exposição retrospectiva no Museo Valenciano de la Ilustración y la Modernidad, em Valência, que depois passou pela Cidade do México (contabilizando 30 mil visitantes) e desde 18 de junho ocupa a galeria do Instituto Cervantes de Brasília, onde permanece até agosto. De lá, segue para Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador.


 por Lima Neto

Olá Leitores! Começo este post afirmando que tentei não escrevê-lo por muito tempo.


Desde que o escritor Grant Morrison colocou seu ponto de vista em relação às patentes inclinações gays do conceito de Batman, na revista Playboy, passando pelo apoio “pessoal” do presidente Obama ao casamento igualitário e chegando, finalmente, ao casamento de Estrela Polar e a recentíssima reencarnação do Lanterna Verde original Alan Scott como um herói homossexual – não acreditei que este assunto deveria ser uma pauta, ou melhor, não queria engrossar a super-exposição que um assunto como esse acaba recebendo, mesmo sendo um defensor da causa LGBTS e entusiasta da inclusão social nos quadrinhos Marvel e DC. 

RAIO LASER - Quadrinhos Além é uma publicação que busca uma visão diferente, aprofundada e dinâmica da arte deliciosa que são as Histórias em Quadrinhos. Completamos um ano em Abril e agora convidamos todos a comemorarem conosco numa festa chocante, alucinática, divertida e deliciosa! Nos acompanha também o pessoal da Ilustrativa, a incrível empresa de ilustração de Brasília, que conta com talentosos quadrinistas, e que celebra 10 anos de existência. Vamos alucinar?


Por Ciro I. Marcondes

Moebius morreu em 12 de março de 2012. Eu havia programado um texto sobre Escala em Pharagonescia, uma de suas histórias mais interessantes e pitorescas, para a série “o que são BDs – um segundo corte”, quando, em 12 de março de 2012, Moebius morreu. Isso me fez repensar algumas coisas sobre como este texto deveria ser conduzido, e resolvi realizar apenas um comentário breve sobre Pharagonescia e encarar novamente, com toda sua complexidade, irregularidade e gordurosas gotas de primorosa intuição lisérgica, A garagem hermética, uma obra que é toda Moebius, uma obra que está toda dentro de Moebius, e a vida e morte de Moebius, de certa forma, atravessa a esteira dimensional que compõe esta obra.

Sobre A garagem hermética, escreveu Moebius: “Ao criar este sentimento de permanente insegurança, eu descobri o prazer da continuidade. Todo mês eu tentaria, com certa dificuldade, recriar uma trama coerente a partir dos elementos existentes. Então, as separaria outra vez para me sentir inseguro novamente e, assim, no mês seguinte, unir os pedaços e começar tudo de novo, até o final da história”. Este procedimento criativo, que intui as próprias hipóteses (e não as respostas) da história a partir das imagens que vão se transvisualizando no lápis do autor, é o diferencial de um artista como Moebius. Ele sai de uma noção bela, simples e ao mesmo tempo inexorável de inconsciente, como se, lá no fundo de nós mesmos, ao invés de palavras tivéssemos imagens (ainda Freud, ao invés de Lacan), e essas imagens é que gerassem nossa consciência, nosso self, tudo o que somos, e daí também, no processo artístico, os diálogos brotam das imagens, a trama brota das imagens, portas abrem outras portas, fiações geram estruturas que abrem mais portas, e a linguagem do sonho parece uma oficina organizada, mas organizada no condensar e no deslocar. É uma garagem, sim, mas hermética.



É com muita satisfação que a Raio Laser recebe suas propostas de colaborações, que têm crescido, com pautas interessantes, dentro do nosso conceito. Foi numa dessas que conhecemos o Gustavo Trevisolli, que colaborou com nosso parceiro Pipoca e Nanquim, e que nos ofereceu um texto muito interessante sobre a cultura de quadrinhos chilena. Ei-lo! E eis as informações sobre nosso mais novo (e jovem) colaborador: Gustavo Trevisolli tem 21 anos e é Analista de Suporte. Ele atualiza um um site onde coloca textos mais curtos e notas sobre opiniões mais pessoais e ilustrações com algumas tiras e charges (quando tem tempo de scanear). Vai lá.

Pra não deixar de meter o bedelho, vou indicar eu mesmo também uma HQ chilena que passou em branco no texto do Gustavo. Trata-se de Humanillo, uma coletânea do já veterano ilustrador e quadrinista chileno Jorge Quien. Adquiri esse livro numa viagem para a Argentina no começo de 2011 e coincidentemente estava-o lendo agora. Quien é um quadrinista diferente e sensível, de matriz poética, procurando reverter o valor e lugar dos objetos e das coisas, muitas vezes ilustrando poemas de outros autores. Destaco esse quadro aonde ele faz o grande Frank Herbert, autor de Duna, apresentar a si mesmo a um personagem. (CIM)

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por Gustavo Trevisolli

Nas férias decidi com a minha esposa fazer algo diferente: uma viagem a algum país da América do sul. Como ela já conhecia a Argentina, ficamos entre Peru e Chile. Queria conhecer o Chile principalmente por ser a casa de Neruda, além de ser conhecido como um dos países mais culturais da América do Sul. Depois de pesquisar bastante, percebi que, além de Condorito, não havia muita coisa sobre os quadrinhos chilenos das quais se teria algum conhecimento ou divulgação no Brasil. Resolvi
dedicar então algum tempo de minha viagem fazendo uma pesquisa informal em Santiago, sobre a produção e distribuição dos gibis chilenos.


Em 1988 a Editora Abril lançou três grandes e lindos volumes recompilando todas as primeiras edições de “Pato Donald”, que não apenas foram as primeiras publicações de Disney no Brasil, como também as primeiras publicações da própria Abril. E, naquela época, levado por meu pai a uma das feiras do livro de Brasília, eu estava lá, observando a linda capa do Volume 1, com Donald xerife de peito de aço recebendo saraivada de balas. Eu estava lá, e pedi a meu pai que comprasse aquele volume pra mim. Tenho certeza de que esta edição de “Anos de ouro do Pato Donald” foi muito importante para a minha formação quadrinística. Lembro-me de ler este volume algumas vezes, bastante afoito. E lembro-me de uma história em especial, que nunca me fugiu à mente depois que o volume desapareceu da minha casa, em meados dos anos 90.

“Mickey no ano 2000” é uma história do ano de 1950, e não faço ideia a quem se deve atribuir a autoria (“Copyright 1950 Walt Disney Productions”). É uma história absolutamente admirável e, nela, o camundongo recebe, de maneira muito não-usual, uma encomenda pelo correio com uma caixa e o seguinte bilhete: “Querido Mickey! Ponha esta capa invisível e verá as maravilhas do ano 2000. – Um amigo da ciência”. Se a própria noção de uma “capa invisível” já parece junk-science o suficiente, imagine o que ela – e todo o resto de vitupérios científicos que viriam nas páginas a seguir – podiam realizar na cabeça de um menino de sete anos. Essa coisa do ano 2.000 sempre me fascinou de tamanha maneira (obviamente, antes que o ano modorrento que ele efetivamente foi chegasse) que eu também aderi de um jeito um tanto irracional a outra obra de retrofuturismo que abordava (de uma maneira, digamos, ligeiramente diferente) a mesma questão: o filme 2001, um odisseia no espaço. Quando encontrei, mais recentemente, num sebo, esta mesma edição por preço até módico, catei ela da prateleria e resolvi reler esta minha incrível história de formação.


III JORNADA DE ESTUDOS SOBRE ROMANCES GRÁFICOS
Data: 24 e 25 de setembro de 2012.

Local: Auditório 1 do Instituto de Ciências Biológicas – Universidade de Brasília


O Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea convida para a terceira edição da Jornada de Estudos sobre Romances Gráficos. Dando prosseguimento e ampliando as discussões sobre as narrativas gráficas e suas relações, alcances, disputas no campo literário, o evento consistirá de apresentação de trabalhos, palestras com convidadas(os), oficinas, lançamentos sobre o tema. O público alvo é composto de pesquisadoras(es), estudantes, profissionais da área e interessadas(os) em geral, que poderão participar com a apresentação de trabalhos ou como ouvintes.





















Mandrake dá palmadas virtuais em astro mirim de Hollywood (Lee Falk, 1938): voltando de uma viagem à Itália,  meu irmão veio com uma edição bem puída, datada dos anos 70, de uma coletânea de histórias de Mandrake (Editoriale Corno (!); coleção Super fumetti in FILM), incluindo um ciclo completo realizado pelo próprio Lee Falk em 1938, além de três outros dos anos 60, da ótima fase de Phil Davis. A edição é curiosamente um produto de convergência, procurando republicar heróis que haviam aparecido também no cinema. No caso de Mandrake, uma série de pequenos filmes, 12 episódios, bem vagabunda, lançada em 1939 (outros heróis da coleção incluem Doc Savage, Diabolik, Kriminal, Drácula, Fantasma, Satanik... bem legal). Como não sei italiano, para ler o gibi desfalecente e mofadinho tive que fazer um mínimo múltiplo comum de português, francês e espanhol. A coisa meio que funcionou e tornou a experiência ainda mais pitoresca. Un altro trucco di Mandrake!


por Ciro I. Marcondes

Eu fui pego de calças curtas. Tendo adquirido Ovelha negra – A revista que o Brasil não leu encomendando-a pela Internet através do site da Pandemônio, fui lendo-a sem saber exatamente do que se tratava. Apenas tinha a referência de ser de autoria do Professor da UFMG e quadrinista retumbantemente aficcionado Daniel Werneck, em parceria com o desenhista Ricardo Tokumoto. Era o suficiente. Porém, ao começar a ler o gibi, envolvi-me num mundo mais intrigante do que poderia esperar: tratava-se de uma recuperação (“restauração”) devidamente comentada e contextualizada, de uma revista de HQs de contracultura que havia balançado a cena belorizontina, como zine ou revista, nas décadas de 50, 60 e 70. O material era incrível, e a evolução dos desenhos e quadrinistas, acompanhando a trajetória sociopolítica do Brasil, mais ainda. O trabalho de “pesquisa” parecia extremamente bem-feito, especialmente em contextualizar o desaparecimento, sem rastros, da revista nas décadas seguintes, devido à linha dura do governo militar. Até que, de repente, um estalo me bateu à cabeça: “Como é possível que uma revista desse calibre, com experimentações avançadas de linguagem e conteudo forte e contracultural, não seja absolutamente idolatrado pelos quadrinistas de hoje, na era da Internet, ou isso não seja recorrentemente citado por artistas do calibre de Angeli ou Adão. Como é possível que eu mesmo nunca tenha ouvido falar nisso”?? Não aguentando mais, chequei as últimas páginas e percebi que todo o gibi de tratava de um tipo de mockumentary, ou um “jornalismo falso em quadrinhos”. F for fake.





Esta estreia, nas colaborações, do meu irmão Luiz Gustavo Marcondes tem sabor especial. Primeiro: porque a promessa de colaboração já vem de longa data. e finalmente se deu. Segundo: porque Guga se predispôs a cobrir, com ótimas fotos, esta incrível expo do Angeli, em nem eu nem Pedro pudemos conferir. E ainda num fim de semana futebolístico complicado (salve, tricolor paulista!). Terceiro: porque seu texto tem uma clareza sintética e ao mesmo tempo objetividade crítica que às vezes faltam aos rocambólicos escribas daqui. Gustavo é jornalista do Correio Braziliense, e escreve para o melhor Caderno de Esportes do Brasil. É aficcionado por cultura pop e arte em geral, e curte, é claro, quadrinhos além. (CIM)

texto e fotos por Gustavo Marcondes

Em um dos vídeos que faz parte da exposição Ocupação Angeli – aberta apenas até o domingo 6 de maio, com entrada gratuita –, em São Paulo, o cartunista diz que perdeu o tato para escrever e desenhar “tiras”. Uma confissão franca e que não esconde o cansaço criativo do artista de 55 anos com relação ao formato que o consagrou, ainda nos anos 1970. Um passeio com calma pela pequena sala do Itaú Cultural, na Avenida Paulista, porém, pode indicar que a coisa não vai tão mal assim.












por Lima Neto
Ahhh! Terremotos! Tsunamis! Crises monetárias mundiais!
Realmente o mundo anda vivenciando um clima aconchegante de apocalipse. Mas, se o tempo e o espaço pudessem ser resumidos em uma palavra, talvez “mudança” fosse a mais apropriada. Mudança causa terror! Mudança causa apreensão! E mudança traz esperança, para aqueles que são de sentir esperança. Um desses abençoados é um velho conhecido do mundo do quadrinho norte-americano: o escritor Mark Waid, famoso pela sua visão do futuro do universo DC junto com o artista Alex Ross em Reino do Amanhã e outros trabalhos tanto para a editora da Warner quanto para a Marvel.






















por Pedro Brandt

O prêmio de revelação dado em 2009 a Bastien Vivès no Festival de Angoulême — evento francês dentre os mais relevantes para as histórias em quadrinhos na Europa — colocou em evidência o talento do jovem autor e da obra pela qual ele foi premiado na ocasião, O gosto do cloro (Le goût du chlore). Publicada originalmente em 2008, ela acaba de chegar ao Brasil pelo selo Barba Negra (ligado à editora Leya). Independente de distinções e honrarias, o trabalho merece ser conhecido por seus méritos próprios. É, desde já, um dos melhores lançamentos do ano.

 


por Ciro I. Marcondes

I just don’t see why I should even care
It’s not dark yet, but it’s getting there

            - Bob Dylan, “Not dark yet”.

É muito comum que grandes artistas ou pensadores, no final de suas vidas e carreiras, venham a olhar para um certo lado obscuro da existência. Atenhamo-nos ao básico: a faceta niilista e caótica das últimas tragédias de Shakespeare; a abissal missa de Réquiem de Mozart, composto para seu próprio enterro; o pessimismo derrotista nos últimos quatro álbuns de Bob Dylan; e até mesmo Freud demonstrou-se profundamente desiludido com a humanidade em seus últimos textos. Se conseguirmos aceitar isso como algum tipo de padrão – há que se considerar sempre as exceções. A nona de Beethoven, por exemplo, é um canto de cisne carregado de paixão e alegria – acho que ele se conforma com a resposta aparentemente mais óbvia, mas que só acreditamos quando acontece conosco: o envelhecimento é um processo muito difícil, de flagrante padecimento do corpo (e, portanto, de proximidade com a morte), e com ele confluem o acúmulo de frustrações e fracassos, de questões não-resolvidas, de inscrições cicatrizantes que vamos carregando na alma. Além disso, é evidente que o mundo não está ficando muito melhor, e daí é possível que estes artistas busquem uma última lufada de ar, carregada de pestilência fúnebre, que finalize com maturidade e severidade o próprio processo vital e artístico de cada um.

No caso que eu quero analisar aqui, é muito curioso o fato de se tratar de André Franquin, não apenas um mestre dos quadrinhos, mas também um mestre do humor nos quadrinhos. E o humor ganha particularidades insubstituíveis quando embebido de um tanto de... obscuridade. E Franquin acabou revelando-se um mestre também naquilo a que chamamos “humor negro”. Porém, antes de passar de vez a esta análise de seu humor, eu gostaria de pedir licença e analisar seu terror, a partir do mesmo sentido com que Francisco de Goya, o grande pintor do romantismo, instilou terror em sua fase terminal, já doente (circa 1820), surdo e quase cego, pintando as paredes de sua casa com cenas sombrias de rituais macabros, deuses pagãos e pessoas desfiguradas.






















por Roberta Machado

Solanin é uma daquelas histórias que tocam nas lembranças emotivas do leitor sem apelar para o drama óbvio. Tentar resumir sua história só torna claro que a ação não é o forte dessa narrativa, que se apoia nas entrelinhas e torna o espectador parte ativa da trama. Cada decisão, reflexão ou conclusão tomada pelos personagens cria um profundo raciocínio impossível de não relacionar com fortes experiências pessoais.
Meiko é uma garota de 23 anos que mora com o namorado dos tempos de faculdade e se vê presa num trabalho enfadonho e frustrante. Ela já não depende dos pais, mas entrou no limbo em que o emprego temporário virou ocupação, e o futuro é uma incógnita que em nada lembra as aspirações da adolescência. O próprio companheiro da protagonista, Taneda, abriu mão do sonho de viver de música para ganhar o mínimo em uma posição de designer freelancer.



Sim, ficamos um mês de férias, sem avisar. Deem um desconto. O povo aqui tem vida. Mas tem mais coisa pra mostrar em Raio Laser. Preguiçosamente, depois dos nossos orgulhosos dois dias de Omelete, retornamos. E quem puxa o bonde é o colaborador Lima Neto, dono da Kingdom Comics, figura onipotente das HQs em Brasília, etc, etc ("bocejo") que traz texto reflexivo, com enorme potencial de polêmicas, sobre a famigerada "Before Watchmen" (eu, na minha humilde desatenção, digo que parece maneiro). Gostaria de salientar que tenho orgulho de ter Lima como colega no PPG-COM da UnB. Valeu Limão! (CIM)
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por Lima Neto

“Os quadrinhos são os filhos bastardos da imprensa com o mercado” disse Art Spiegelman certa vez (Art Spiegelman, caso você tenha entrado neste site por engano à procura de promoções em tratamento estético a laser, é um dos principais quadrinistas a chamar a atenção do grande público para a arte das HQ´s, e seu potencial é para abordar temas mais sérios e espinhosos como campos de concentração e antissemitismo, caso de sua obra-prima Maus). E como mercado e HQ´s mainstream são meus assuntospreferidos para tratar aqui, evoco a fala de Spiegelman e acrescento que estes filhos, em sua encarnação mais mercadológica – os comics norte-americanos – além da sua infeliz condição de bastardos, estão passando hoje por um momento de exploração intensiva e abusiva por parte dos grandes conglomerados do entretenimento, acrescentando a uma relação incestuosa (como coloca Alan Moore) um nível só visto antes na aurora da indústria dos comics.

 
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