Seguindo com nosso ótimo fluxo de colaborações, recebemos um texto do Professor e Mestre em Literatura pela UnB Eiliko Flores. Tendo se voltado, num doutorado, a um intenso estudo sobre diálogos entre gerações em nossa literatura, Eiliko foi convencido a reler uma antiga paixão, a incompleta e ambiciosa série Storyteller, do ilustrador Barry Windor-Smith, e a escrever sobre ela. Ei-lo:

por Eiliko Flores

Barry Windsor-Smith (1949- ) é conhecido pelo seu trabalho em Conan, o bárbaro, mas principalmente por Arma X, a brilhante graphic novel sobre a origem de Wolverine. Em 1997, artista já consagrado nos quadrinhos, com um estilo único que rendia o privilégio de fazer apenas as capas de muitas revistas, Windsor-Smith decidiu lançar um projeto autoral, criado em seu próprio estúdio. A revista se chamaria Barry Windsor-Smith´s Storyteller, e seria lançada em um formato ainda maior do que aquele usado nas graphic novels usuais. Storyteller era a autêntica criação livre e apaixonada de um artista completo, que escrevia, desenhava e coloria suas histórias.  



Saído de uma edição maltrapilha de MAD (William M. Gaines e Bill Elder, 1953): esta imagem apareceu no meio de uma leitura entusiasmada de uma coletânea de bolso da revista MAD publicada pela novaiorquina Ballatine em 1956 a partir dos originais da EC de 52, 53 e 54. Este poeirento, mofado e fedorento livrinho reúne algumas das melhores histórias da MAD clássica escritas por Bill Gaines, como "Melvin of the apes",  "G.I. Shmoe" e "Little Orphan Melvin", com desenhos de caras legais como John Severin, Wally Wood e o próprio Bill Elder. Me custou a bagatela de 4 reais esse gibi puído e esquecido na prateleira de um sebo. Muito possivelmente, fui a última pessoa que vai lê-lo desde sua longa trajetória quando pertencia à biblioteca da Sociedade Americana dos Amigos dos Marinheiros (como diz um carimbo na folha de rosto), ou quando passou às mãos de um certo ˜Eduardo˜, que não deixou qualquer outro registro. Digo isso porque, na medida em que fui lendo o gibi, ele foi literalmente se despedaçando, por mais que eu tenha costume de ler livros com cuidado para preservá-los. Primeiro, ele se dividiu ao meio. Depois, uma de suas partes segmentou-se em outras duas (estilo Gremlins), até que as páginas começaram a cair uma a uma, algumas realmente se esfarelando. Death comes to us all, even little books

O humor da MAD original, como se sabe, era paródico e pentelho, e foi uma das primeiras publicações a sacanear pesado com a cultura pop de sua própria época, coisa hoje quase irritantemente lugar-comum (de coisas boas, como South Park, a ruins, como CQC). Incrível que uma concepção completa de humor contemporâneo tenha saído da cabeça de uns 4 ou 5 caras no meio do macartismo americano. Esta história Frank N. Stein é uma das mais divertidas, justamente porque Gaines cria a paródia perfeita do cientista europeu genial, sádico e obcecado. Tudo bem que o Dr. Frankenstein original fosse um personagem suíço. Aqui ele vira um alemão aloprado, de sotaque carregado (chega a ser difícil de entender coisas como "Ja boss! Ja boss! All der time you iss saying, 'Ja boss'! Rause mitt der 'Ja boss', hey vill you?"). Era o início dos anos 50, bem fácil de sacanear alemães.





















por Ciro I. Marcondes

O expressionismo é um padrão visual e conceitual que, com o passar do tempo e diluição bem rala de suas origens, acabou deixando de ser uma estética completa para se tornar uma espécie de estilema. Digo isso porque, na maioria das coisas que vejo com influência expressionista, parece existir uma intenção bem explícita de parecer expressionista, como se identificar essa predileção fizesse parte do processo de entender estas obras. Isso faz com que sempre esses efeitos pareçam somente lisonjeiros ou até paródicos. Daí coisas como o cinema de Tim Burton ou boa parte desses filmes de terror asiáticos. Nos quadrinhos acho que o fenômeno se repete, sendo o estilema um conjunto de dados visuais bem fechado. A gente pode achar isso desde na clássica história de Spiegelman “Prisioneiro do planeta inferno”, que aparece também em Maus, até nas adaptações de Kafka feitas por Peter Kuper, legais, mas bem óbvias, apesar de um quadrinista como Mutarelli flutuar na direção de uma composição bem mais orgânica com o tema.

É aí que vejo o maior mérito (não pequeno, e não único) da graphic novel Três sombras, do francês Cyril Pedrosa, premiada em Angoulême e publicada aqui pela Cia. das Letras. Curiosamente famoso por animar Hércules e Corcunda de Notre Dame para a Disney (guardadas as proporções, a base do traço é a mesma de Três sombras), Pedrosa acabou escrevendo um conto de fadas não apenas com franca inspiração expressionista, mas que também traz o conteúdo essencialista de seu arcabouço estético e filosófico sem parecer estar fazendo um monte de citações inócuas. Três sombras tem muita força estilística e conceitual, e a beleza de sua história aproveita, de maneira muito pessoal, o fundamento expressionista sem recorrer a um estilema visual.






















por Pedro Brandt

No ano em que Zé Carioca, o mais verde e amarelo dos personagens de histórias em quadrinhos, completou 70 anos (ou seriam 69? Há divergências), cabe uma pergunta: a cultura, as temáticas, as histórias, enfim, o Brasil pode servir como inspiração para HQs? Muitos responderiam que sim. No entanto, não é preciso ir muito longe para  perceber que a maioria dos quadrinhos brasileiros têm, no fundo, histórias de teor universal nas quais a brasilidade aparece de maneira mais implícita. Essa constatação de forma alguma tira os méritos desses quadrinhos. Mas é interessante notar que alguns autores têm conseguido imprimir em suas obras uma inegável cara brasileira — sem apelar para ufanismo. Marcello Quintanilha e André Toral são dois deles.

Coincidentemente, Quintanilha e Toral estão com novos trabalhos na praça, Almas públicas, do primeiro, e Curtas e escabrosas, do segundo. Mais coincidências: ambos têm 72 páginas e um preço muito parecido. Além disso, os dois álbuns apresentam tanto histórias recentes quanto trabalhos antigos dos desenhistas/ roteiristas. Outra semelhança entre eles são os desenhos com personalidade, imediatamente reconhecíveis. Mas enquanto André Toral é mais direto e simples, Marcello Quintanilha é rebuscadíssimo, próximo da fotografia.



Temos recebido colaborações de gente legal e preocupada em pensar o mundo dos quadrinhos. Ficamos extremamente felizes com o entusiasmo das pessoas em torno do conceito do site. Esta última é muito especial, porque vem de um cara que tanto eu quanto o Pedro admiramos enormemente. Lima Neto é artista plástico, quadrinista e empresário, e é responsável por uma parada obrigatória da cultura pop em Brasília: a gibiteria Kingdom Comics, no Conic. Esta loja é, desde os anos 90, ponto nevrálgico do debate quadrinístico na cidade, onde passam grandes figuras, são trocadas grandes ideias e construídas grandes amizades. Lima não apenas mencionou a RL no (ótimo) blog da loja, como nos ofereceu a republicação de um texto lúcido e necessário. Só temos a agradecer. (CIM).

por Lima Neto

Se você leu qualquer site ou blog de quadrinhos nesses últimos dois dias, já deve estar por dentro de duas novidades que veem tendo uma grande repercursão no mundo dos gibis.

Como essas notícias jã não são mais novidades e foram amplamente divulgadas até pela imprensa leiga, não vou temer spoilers…

A primeira notícia se refere ao Homem-Aranha do universo Ultimate. Como já noticiamos em nosso site, a Marvel deu carta branca para a equipe criativa do universo de Marvel Millenium para ousarem e escreverem o tipo de estória que nunca seria visto no universo convencional da editora. Esse com certeza é o maior presente que um escritor poderia receber e é uma ótima notícia também para os leitores ávidos por novidade. Sendo assim, munido de uma liberdade editorial inédita em um título do Aracnídeo, o escritor Brian Michael-Bendis botou as mangas pra fora e revirou o mundo do Ultimate Spider-man de cabeça para baixo. Peter Parker encontrou seu fim em um dos momentos mais tocantes da série e foi substituído por um novo personagem: Miles Morales. Jovem e negro de decendência latina.






















por Ciro I. Marcondes

Nos últimos tempos, vem me ocorrendo essa necessidade inexplicável de retratações ambíguas, e é um tipo de processo um pouco angustiante, mas satisfatório. Justiça seja feita. Se em primeiro lugar veio um texto baita elogioso sobre Thor, chegou a vez de pensar novamente em Superman. Este texto já estava planejado, mas vem a calhar, já que não vale a pena ficar pensando no Super apenas como um fetiche cultural do bully ou do escoteiro. Partindo do mesmo Grant Morrison de quem parti em “Superbully Americano”, a ideia é trazer uma visão espelhada, em tudo um negativo da outra, da primeira apresentada.

Eu já vinha lendo a HQ All-star Superman antes mesmo de começar a ler o Superman crônicas, que inspirou o texto “Superbully americano”. Escrever sobre Superman já era um interesse de longa data. Acho que, nessa altura de vida e dos nossos tempos, cabe pensar um pouco num dilema difícil, que acompanha as pessoas no presente. Que tipo de homem deve-se querer ser? Deve-se avançar até o limite de sua própria potencialidade e produtividade, buscando superar sempre as próprias condições de atuação no mundo? Ou deve-se conformar com nossa condição limitada, mortal e modesta, tornando-se o homem comum uma carapuça confiável e justa, dentro da condição de cada um em alcançar a própria felicidade?

Acredito que o mito de Superman tem a ver com isso. Usei, portanto, a minissérie All-star Superman (publicada em 2007 pela Panini sob título Grandes astros Superman), cultuada parceria do escocês Grant Morrison com o célebre ilustrador Frank Quietly (publicada originalmente entre 2005 e 2008), para ao mesmo tempo instigar este tipo de questão mais filosófica sobre Superman e testar a leitura de uma HQ mais longa no Iphone, procurando pensar também na mudança de input na recepção da leitura dos quadrinhos que este tipo de gadget proporciona.

Uma tarefa, portanto, que resume certo grau de imaterialidade e eternidade (“buscar os aspectos quintessenciais da mitologia do Superman”, parafraseando Morrison) com a fortuita mudança de suporte para os quadrinhos, que pode ser bem passageira e sugere volatilidade (ler pelo Icomics no Ipad ou pelo CDisplay já é diferente, e não sabemos qual(is) modelo(s) de leitura digital pode permanecer). Vou dividir este texto, então, em pequenos blocos alternando comentários pontuais sobre All-star Superman em si e outros processando as sacadas que a dinâmica para quadrinhos que o app da DC para Iphone (que é idêntico ao da Marvel) me proporcionou. Espero que gostem da leitura.





















Maus
Dando continuidade à nossa série de gentis colaborações, RAIO LASER apresenta um texto muito especial. "Valsa com Bashir: experiência, memória e guerra" é um artigo do professor e pesquisador Pablo Gonçalo, publicado originalmente na revista portuguesa Doc Online, especializada em visões sobre o gênero do documentário. Pablo atualmente desenvolve tese de doutorado pela UFRJ e é um dos mais promissores pesquisadores brasileiros no campo do documentário cinematográfico. Ele produziu este texto pensando nas relações ambíguas entre uma certa invenção da memória e a constituição deste mesmo processo na elaboração dos fatos pelo evidenciamento da narrativa. Para isso, ele costurou uma relação necessária e midiática com extensa análise sobre não apenas o filme de animação Valsa com Bashir, o genial quase-doc israelense de Ari Folman, como também sua adaptação em quadrinhos (pelo mesmo Folman, com o ilustrador David Polonsky) e uma necessária ponte com o aspecto pós-memorialístico do clássico Maus, de Art Spiegelman. Boa leitura! (CIM)

Valsa com Bashir: experiência, memória e guerra

por Pablo Gonçalo

1.

Um documentário. Uma animação. Uma história em quadrinho. Uma narrativa autobiográfica. A história contada em Valsa com Bashir utiliza-se de diversos instrumentos e recursos para reconstruir e recuperar a memória do massacre de Sabra e Chatila durante a invasão do Líbano por Israel, em 1982. Mais do que um retrato de um importante acontecimento histórico, uma investigação ou uma narrativa expositiva, o autor Ariel Folman optou por expressar seu ponto de vista e sua própria experiência nesse acontecimento.

Ao apostar numa linguagem que mescla gêneros e cruza fronteiras, Valsa com Bashir oferece ao espectador uma imersão sui generis na experiência de uma guerra. Seja pelo filme, seja pela história em quadrinho, que acompanhou o lançamento do filme, a relação entre imagem e memória obtém uma força peculiar nessa história. Como se fossem indissociáveis, ambas brotam e ressurgem simultaneamente por meio da teia narrativa. Este artigo possui o objetivo de investigar como se alinham tais combinações entre experiência, narrativa autobiográfica, imagem e memória nos diversos suportes de expressão de Valsa com Bashir.


por Pedro Brandt

Um dos maiores nomes das histórias em quadrinhos, o francês Jean Giraud, pseudônimo Moebius, andava sumido das livrarias brasileiras. Aliás, a publicação de seus trabalhos em versão nacional sempre foi espaçada. Depois de histórias esporádicas em revistas e alguns poucos álbuns lançados na virada dos anos 1980 para os 1990, HQs de sua autoria só voltaram a ser publicadas no Brasil em 2006 — três volumes de Incal, parceria com Alejandro Jodorowsky, e três de Blueberry, o caubói criado por Giraud e o roteirista Jean-Michel Charlier.

A recente publicação no Brasil de Coleção Moebius: Arzach serve tanto para apresentar o trabalho do autor para novos leitores, como para proporcionar aos antigos fãs, finalmente, uma edição nacional da obra, uma das mais conhecidas e representativas de Moebius. O álbum funciona também como carta de intenções de uma nova editora brasileira de quadrinhos, a Nemo (integrante do Grupo Editorial Autêntica). Leia entrevista com o editor Wellington Srbek abaixo.

O personagem Arzach surgiu um 1975 e causou muito barulho à época, como lembra Moebius no texto de apresentação: “O fato de não haver texto em suas páginas de início surpreendeu muito. Além disso, a história não correspondia a nenhum dos esquemas narrativos clássicos, ao menos no âmbito dos quadrinhos, já que na literatura contemporânea esse tipo de caminho não tem nada de excepcional. Enfim, graficamente eu não medi esforços e dediquei a cada imagem um volume de trabalho e uma energia comparáveis àquelas que, geralmente, são reservados a uma pintura ou uma ilustração”.

 
Back to Top