O eterno retorno do trapaceiro (Esad Ribic e Robert Rodi, 2005): este quadro abre a minissérie Loki, uma HQ de super-herói de rara densidade existencial e valor filosófico, roteirizada pelo escritor Robert Rodi e poderosamente pintada pelo artista croata Esad Ribic. Se acabei sendo um pouco duro com as primeiras histórias de Thor, esta HQ tem o mérito de nos recompensar com toda a beleza conceitual do universo do personagem, construindo, no final, uma incrível parábola mitológica. Loki, o deus da trapaça de Asgard e irmão adotivo de Thor, finalmente conseguiu. Já velho e amargo, ele derrota o soberbo irmão em combate e se torna senhor dos deuses. É a hora da desforra. Loki acorrenta o irmão e prende todos aqueles que durante incontáveis anos haviam-no humilhado das mais diferentes formas: Lady Sif, Balder e até seu pai adotivo, Odin.

Loki é um dos tipos mais intrigantes do mundo dos super-heróis. Conspirador, invejoso, ressentido, fracassado: é o nêmesis exato do ideal viking, altivo, perfeito, orgulhoso e infalível que representa o arquétipo de Thor. O fato de Loki trazer um perfil desajustado, malhado pelas condições cruéis das virtudes mitológicas, sem qualquer ideal clássico de beleza ou força moral, me faz pensar, com alguma compaixão, numa triste gênese da infâmia, da perfídia e, claro, da covardia. Rodi enquadra a história em um princípio narrativo muito simples, mas sempre eficiente: Loki é o novo soberano e impõe sua vontade aos súditos de Argard, que o detestam, mas o servem. Solitário e repudiado, ele é atormentado por flashes e fragmentos do passado ao mesmo tempo em que precisa considerar o ofício, natural do monarca, de governar, e se vê mergulhado em um improvável dilema: deve ou não matar o meio-irmão Thor?




por Ciro I. Marcondes

Por uma questão de coincidência, a DC Comics acaba de zerar novamente (“reboot”) seu universo, no legítimo sentido mercadológico de adaptar seus personagens às novas condições culturais, justamente no momento em que eu preparava este texto a respeito das primeiras histórias do Superman, datadas de 1938, republicadas pela Panini sob o título de “Crônicas – Volume 1, em 2007. No reboot em questão, a mitologia do personagem será repensada a partir de uma ideia muito conveniente de Grant Morrison: a de trazê-lo de volta às suas raízes mais profundas. O novo “velho” Superman não vai voar (apenas dar uns saltos muito grandes) e seus poderes divinais serão consideravelmente reduzidos. Da mesma forma, ao invés de supervilões intergalácticos e de outras dimensões, este novo Superman estará a serviço do cidadão comum, combatendo gangsters, falsários, políticos corruptos, etc. De fato, estas alterações (radicais a ponto do “azulão” vestir calça jeans) possuem uma convergência com o Superman de Jerry Siegel e Joe Shuster. Mas que Superman era este?

As origens culturais do Superman são mais ou menos bem conhecidas: mistura de herói de ficção científica pulp, com herói de capa e espada, com halterofilista. O seu surgimento – os autores o criaram em 1932 e tentaram vendê-lo no usual formato de comic strip, mas só conseguiram publicá-lo no formato de comic book, em 1938) – dentro de um mundo de publicações pop muito crescentes nos anos 30 que incluíam toda espécie de histórias fantásticas, poderia ser, de certa forma, previsto (vide outros justiceiros mascarados precedentes). Porém, usando uma linguagem contemporânea, este meme que se inaugura com Superman – o do super justiceiro com poderes esdrúxulos advindos de explicações científicas grosseiras (considerando o mundo sci-fi B das histórias de alienígenas como tal), usa roupa esquisita e protege os fracos e oprimidos – foi disparado com a grande sacada de Siegel e Shuster. Como podemos ver pelo sucesso deste mesmo arquétipo nos dias de hoje, foi um meme vitorioso, adaptado ao imaginário cultural do século 20.






















por Pedro Brandt

O álbum Xampu, lançado em 2010, foi o ponto de partida para projetos pessoais nos quais o desenhista Roger Cruz vem trabalhando há alguns anos. Depois de nos contar mais sobre a produção da HQ lançada no ano passado, o paulistano volta às páginas de Raio Laser para falar de seu pimeiro artbook, Nudes in fury.

Como você apresenta o Nudes in fury?

O Nudes in Fury é um artbook que tem como temas nudez e sexo. É uma seleção das melhores artes que produzi sobre esses temas nos últimos dois anos, desde que parei de trabalhar com super-heróis. Na maioria das artes, inseri a nudez e o sexo em alguma situação cômica. Não pretendia que fossem apenas belas poses de nu ou sexo explícito, algo que se vê em ensaios fotográficos.






















por Pedro Brandt

Quando Gen — Pés descalços foi publicado no Brasil pela primeira vez, em 1999, o boom dos quadrinhos japoneses ainda não tinha chagado às bancas do país. Passados 12 anos, a obra de Keiji Nakazawa continua como um dos melhores mangás já lançados por aqui. Sucesso no Japão, onde foi transformado em desenho animado, três filmes e série de tevê, a obra criada por Nakazawa é um clássico que continua a encantar leitores. Os quatro volumes nacionais da série estão fora de catálogo há algum tempo. Mas o primeiro deles acaba de ser republicado pela Conrad Editora, com nova capa e, desta vez, no sentido oriental de leitura.

Lançado em capítulos entre 1972 e 1973, na revista Shonen Jump (cujo público alvo são adolescentes do sexo masculino), Gen é inspirada na biografia do autor. Natural de Hiroshima, Nakazawa (hoje com 72 anos) é sobrevivente do ataque americano que jogou a bomba atômica sobre a cidade. Neste primeiro volume em especial, boa parte da trama se passa antes do fatídico 6 de agosto de 1945 (dia do bombardeio).





















"Foi a primeira vez que vi, com meus próprios olhos, a suástica" (Art Spiegelman, 1986): Por motivos de uma demanda de sala de aula (disciplina: "Literatura e Narrativas Modernas"), precisei reler MAUS, a obra máxima de Spiegelman, e este é sempre um ato de redescoberta, como diz Calvino: "Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira". O que me chamou atenção nesta releitura, especificamente para esta seção, entretanto, não foram os inúmeros requadros formidáveis desta HQ. Spiegelman obviamente elabora a trajetória de seu pai no holocausto (e a sua própria, na tentativa de compreender o pai no "presente") com alto grau de metalinguagem, várias camadas interessantes de narração e enunciação, fronteiras difusas e intrigantes entre a memória, a ficção e o documental - enfim, tudo aquilo que torna esta obra uma expressão máxima dos quadrinhos. 

Conforme eu dizia, desta vez um quadro mais sóbrio me chamou a atenção, exatamente porque se tratava de uma releitura. Como eu já sabia o que se passaria na visão brutal e realista do holocausto contada por Vladek Spiegelman, o requadro aberto na página 34 da edição da Cia.das Letras (que traz os dois volumes juntos) irrompeu-se sobre minha leitura monótona como um calafrio que chega sem aviso, antecipando o horror em flashfoward. Vladek está indo de trem à Tchecoslováquia para procurar tratamento psiquiátrico para sua jovem esposa Anja. Ao passar por uma cidadezinha, seu discurso quase técnico e referencial também nos pega de surpresa ao narrar, no requadro panorâmico que fecha a página, as seguintes legendas: "Era o começo de 1938, antes do guerra. No meio da cidade, tinha bandeira nazista. Foi a primeira vez que vi, com meus próprios olhos, a suástica".






















por Ciro I. Marcondes

Nosso país tem a capacidade peculiar de impressionar os estrangeiros, e algumas visões muito famosas foram descritas e registradas por autoridades intelectuais históricas, e outras nem tanto. Basta lembrar que Charles Darwin passou mais de um mês viajando pela costa do Brasil no Beagle, a partir de fevereiro de 1831, e isso foi declaradamente importante para que ele tivesse aquele estalo para pensar a teoria da evolução. Darwin também ficou positivamente chocado com a cultura do escravismo e a relação de passividade que ambos os lados nutriam com este sistema econômico, e ele não seria o último a pensar o Brasil como algo exótico não apenas no que diz respeito à nossa diversidade natural.

O antropólogo Claude Lévi-Strauss (lembrado por ter sido meio que sacaneado por Caetano Veloso), esteve no Brasil quase um século depois (1935-39 - vale ler o romance Nove noites, de Bernardo Carvalho, que menciona o caso), no alto Xingu, e enfatizou que tornou-se cientista de verdade no Brasil. Seu trabalho sobre estudos de parentesco e mitologia a partir de povos indígenas brasileiros ainda é referência mundial em antropologia. De alguma forma ainda meio miraculosa e errática para nós, algumas peculiaridades de nossa cultura continuam fazendo parte do “incognoscível” para os gringos. Lembro do show do REM em 2001 no Rock in Rio, quando o vocalista Michael Stipe disse, com provável sinceridade, que o Rio de Janeiro era a cidade “mais sexy” em que ele já havia estado. Os casos, independente da relevância, são numerosos.

Mas o que me deixa realmente feliz nesse panorama é o fato de um sujeito não-científico, verdadeiramente errante e multicultural – o gênio solto e plural dos quadrinhos Hugo Pratt, precursor de Clint Eastwood e o escambau – tenha não apenas dedicado parte de sua arte para debulhar as particularidades do Brasil, como também tenha efetivamente morado por aqui no início dos anos 60 e – dizem (e porque não alimentar lendas legais?) – teve uma filha índia por aqui. Pratt, bem diferente dos estereótipos de tipos inadequados e esquisitos de quadrinistas, era viajante indevassável, tendo morado em mais de 10 países diferentes, em todos os continentes.


por Pedro Brandt

Em 1937, a série A Garra Cinzenta dividia espaço com as aventuras dos personagens Fantasma e Super-Homem no suplemento infantil Gazetinha, do jornal paulistano A Gazeta. A popularidade da criação do roteirista Francisco Armond e do desenhista Renato Silva era tanta que, em 1939, depois de publicados todos os 100 episódios, a série foi relançada em dois volumes. 

Com o passar dos anos, o culto ao redor de A Garra Cinzenta só aumentou. E também o mistério a respeito da HQ brasileira (considerada a primeira no país e ter elementos de terror). Algumas perguntas permanecem sem resposta. Por que, mesmo popular entre os leitores, a série foi interrompida abruptamente? E, afinal, quem foi Francisco Armond? 

Garra Cinzenta, edição de luxo e fac-similar que a Conrad acaba de colocar nas livrarias, não responde essas perguntas. Mas faz justiça a um título que marcou época, virou xodó de colecionadores e, mesmo tendo sido republicada em mais duas ocasiões (somente a primeira parte, em 1975, e em tiragem limitada e completa, em 1998) e estar disponível para download em vários sites, estava há muito fora de catálogo.

RAIO LASER escreve dois relatos e faz um singelo vídeo a partir do encontro com um dos grandes da HQ mundial.

fotos e vídeo por Artur Brandt


1: A lucidez de Laerte

por Ciro I. Marcondes

Através de bela iniciativa do Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, Laerte esteve na UnB na última quarta-feira, para a II Jornada de Romances Gráficos. Pedro conduziu uma reportagem levando o grande mestre à nova geração de quadrinistas brasilienses, e fiquei bicando a entrevista, ali entre as apresentações do simpósio e a oportunidade de ter contato com um artista de referência para mim e todos ali presentes. Laerte (60 anos) deve ter passado por um dia um pouco pesado. Bateria de entrevistas (Correio, UnB TV, Raio Laser) e por fim uma fala de quase duas horas para um auditório lotado. Talvez isso tenha contribuído para que ele tenha se expressado de um jeito tão comovente, que misturava trajetória pessoal com intensa inflexão sobre si mesmo e sobre o mundo. Mas suspeito que não foi o stress que o fez desaguar conversa tão boa e cativante, mas sim sua inquietação.



 
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