por Pedro Brandt

Já foi mais fácil gostar de Frank Miller. Primeiramente porque seus quadrinhos já foram muito melhores. E, segundo, porque sua pessoa pública, ao menos no passado, parecia mais simpática. E mais coerente. Para alguém que se disse desiludido com Hollywood depois da experiência traumática que foi escrever o roteiro de Robocop II, Miller não parece ter se importado com princípios quando fez sua horrenda adaptação cinematográfica do Spirit – personagem de seu velho amigo Will Eisner que, morto em 2005, não teve o desgosto de ver sua criação massacrada na tela de cinema.

Recentemente, o americano escreveu em seu blog sobre o movimento Occupy. O teor do texto é tão reacionário que cabe a pergunta se Miller realmente pensa aquilo tudo ou se suas palavras apenas expressam a frustração do artista com as críticas negativas recebidas por seu mais novo trabalho, Holy terror.

O no mínimo controverso Holy Terror
O rancor do discurso de Miller parece ir de encontro a muitas coisas pelas quais ele já lutou e defendeu. Existe uma pouco lembrada HQ dele lançada pela Dark Horse em 1997 chamada Tales to Offend, uma provocação ao Comics Code Authority, o famoso selo que regulava o conteúdo que poderia ser publicado em um quadrinho americano mainstream. Em Tales, FM apresenta uma história do universo de Sin City (Daddy’s little girl, publicada no Brasil em 2001 em uma one show, da editora Pandora) e duas histórias do anti-herói Lance Blastoof, um mercador da morte que viaja pela galáxia fazendo negócios escusos, nunca se preocupando com quaisquer consequências. O engraçado é que no último quadro da última história, Blastoff diz ao leitor “Nunca deixe o Sr. Oportunidade passar por vocês, crianças!”


O mais legal disso tudo é que o texto de Frank Miller sobre o Occupy acabou repercutindo bastante, fazendo com que outros profissionais dos quadrinhos se manifestassem sobre o assunto – o que acabou gerando a circulação desse tema entre o público leitor de quadrinhos.

A roteirista Ann Nocenti, por exemplo, escreveu um texto no qual expressa sua opinião sobre o Occupy. Uma visão, aliás, totalmente oposta à de Miller. O texto pode ser lido no site Bleeding Cool e é, na verdade, apenas um trecho de uma entrevista maior (ainda não publicada na íntegra) na qual ela fala de vários assuntos, entre eles o Occupy e seu futuro trabalho na revista Green Arrow (Arqueiro Verde).

Parte do discurso de Ann segue abaixo:

Ann Nocenti
“Muitas pessoas têm problemas para entender o movimento Occupy porque ele é algo muito novo. É descentralizado. Não é um movimento de ‘protesto’. É amorfo, como a Internet. É, de certa forma, um estilo de vida. É apoiado por trabalhadores sindicalizados, policiais simpáticos à causa, idosos, ricos, pobres, a direita, a esquerda... e, cada vez mais, até pelo ‘1%’. Ele cruza todas as linhas de classe, raça, gênero e política. É claro que as rádios de direita estão cheia desses descrições do Occupy –‘crianças mimadas, bufões, ralé’, etc. – porque as pessoas temem o que não entendem".
Para Ann, o Occupy não significa estar vendado, mas tomar o controle da própria vida:

“Que algo está errado com este país é inegável. Que os alunos se graduem em direito com uma enorme dívida e ainda assim não possam conseguir um emprego é simplesmente errado. Que bons planos de saúde só possam ser comprados pelos ricos é simplesmente errado. Que despejar dinheiro em guerras que não podemos ‘ganhar’ é simplesmente errado. Passei um tempo no país da al-Qaeda. Dólares abastecem tudo; acabam até financiamento quartéis do Talibã. Winston Churchill disse há muito tempo que ‘olhos ocidentais nunca vão entender os caminhos da cultura tribal’. A Guerra às Drogas (*o programa do governo americano War on Drugs), a última e inútil ‘guerra’ que levou nosso país à falência, foi recentemente declarada um fracasso absoluto.

“É muito fácil e preguiçoso demais apenas criticar o que o movimento Occupy está fazendo. É muito mais difícil apoiar e tentar entender que este é um símbolo de uma natural mudança radical em nossa sociedade”.


Mulher sem medo

Talvez os leitores estejam se perguntando “quem diabos é Ann Nocenti?”. Não lembro de nenhum trabalho dela recente (até porque, segundo o próprio Bleeding Cool, ela passou os últimos anos mais próxima de projetos sociais do que dos quadrinhos), mas algumas das HQ escritas pela americana têm lugar cativo na minha memória afetiva.

Uma delas, inclusive, faz de certa forma um link com esse assunto do Occupy. É a edição de número 252 da revista Daredevil, publicada nos Estados Unidos em 1987 e no Brasil em 1989, dentro da edição 82 de Superaventuras Marvel. Detalhe curioso: o gibi em questão tem 66 páginas e duas histórias, ambas com roteiro de Nocenti, a do Demolidor e uma protagonizada por Longshot, personagem criado por ela (e idealizado visualmente por Arthur Adams). Imagino que isso tenha sido uma coincidência. Mas gosto de pensar que foi uma espécie de homenagem da equipe de quadrinhos da Editora Abril ao trabalho de Ann Nocenti – que naquela época fazia um baita sucesso com o Homem Sem Medo ao lado do desenhista John Romita Jr. (e não esqueçamos do veterano Al Williamson, responsável pela arte final). 

Outra curiosidade: a edição original, americana, fazia parte de uma saga chamada Queda dos mutantes, que, em 1989, ainda não tinha chegado ao Brasil. Por isso, as referências à saga (como uma breve aparição do Arcanjo) não aparecem em Superaventuras Marvel 82.

A ilustração da capa – com o Demolidor em plena ação, no alto de uma pilha de corpos desfalecidos (uma referência às famosas pinups de Frank Frazetta) - e as chamadas “Blecaute em Nova Iorque!” e “Caos nas ruas!” dão uma indicação do que é a história. Intitulada Ataque, a trama apresenta Matt Murdock (advogado cego, alterego do Demolidor) guiando uma comunidade carente da Cozinha do Inferno (o bairro onde ele cresceu) até um hospital em uma noite sem luz em Nova York. Já com o uniforme do Demolidor, o herói e a Viúva Negra partem para as ruas para tentar controlar o tumulto e, especialmente, os arruaceiros mais perigosos.

Ao medo das pessoas do escuro somam-se outros temores. Em tempos de Guerra Fria, um bombardeio nuclear talvez fosse o maior deles. Como seria o mundo em meio aos destroços, sem lei e ordem? Balaço, integrante da galeria de inimigos do Demolidor, sabe que seria a situação ideal para causar o caos e fazer valer a lei da violência. “Em breve a cidade estará a nossos pés”, acredita o vilão.

Tal qual Will Eisner nas histórias do Spirit, Nocenti preenche a sua com personagens coadjuvantes que ajudam a contextualizar o cenário e, claro, contar outros dramas além daqueles dos heróis. Caim, por exemplo, é um adolescente confuso, dividido entre seguir os passos de Matt Murdock ou uma vida marginal. Enquanto isso, um presidiário anônimo (sem ligação com o restante da história) escapa da delegacia mas revê suas posições quando encontra um bebê abandonado em uma lata de lixo. 


Sejam eles coadjuvantes ou protagonistas, os personagens são embebidos de humanidade pela roteirista. Até o Demolidor chega a perder a paciência e passar uma descompostura em Caim.  No fundo de uma história cheia de ação, tensão, drama e paranoia, Ann Nocenti encontra espaço para mostrar o lado mais iluminado do ser humano, aquele que, em meio às adversidades, busca um objetivo maior, coletivo e solidário.

"Approved by the Comics Code Authority"

6 comentários

Luanda, Angola, África disse... @ 28 de dezembro de 2011 17:28

parabéns pedro!saudade de você!estarei por aqui até o carnaval bora se encontrar?

Davide Di Benedetto disse... @ 29 de dezembro de 2011 13:16

Cara, me permita dizer que não gostei desse artigo. Achei ele confuso porque acredito que essencialmente ele trata de duas coisas diferentes que não se casam.

1a - A "maluquice" reacionária do Frank Miller

2a - Ann Nocenti

Que o Frank Miller fez boas HQs, e depois foi fazer bombas como The Spirit e Holy Terror é fato conhecido. Dito isso ele sempre foi "reacionário", com a velhice creio que isso ficou apenas mais exacerbado.

Quanto a Ann Nocenti não conhecia o trabalho dela, mas a declaração sobre o Occupy me parece ingênua. Então não é um movimento de "protesto" (um protesto justíssimo aliás)mas um ESTILO DE VIDA?! Como assim? E o que é isso de dizer que ele transpõe todas as camadas da sociedade? São palavras pomposas e bonitas, mas vazias.

O Ocuppy é um movimento de protesto sim. Justo, com certo peso político e cultural. Mas só. Além disso é exagerar muito.

E então você conclui mostrando uma HQ dela (a história até parece boa por sinal) e dizendo que seus protagonistas lutam por um bem comum e possuem um lado "humano".

Mas o que dá a entender (e me desculpe se entendi errado) é que Ann Nocenti, somente com base no seu humanismo, seria melhor que Frank Miller.

Por quê? Porque os personagens de Miller são seres desiludidos com o mundo com a vida, "superficiais" e desprovidos de humanidade? É isso?

Se for discordo. Miller sempre usou estética baseada no gênero noir e escreveu no passado boas histórias de FICÇÃO. Ficção é ficção, tem obrigatoriedade nenhuma de tratar de temas morais ou de ser profunda. É entretenimento em primeiro lugar.

Mesmo assim o subtexto nas suas histórias sempre foi o lado podre da humanidade. E acho esse um tema tão importante quanto outro.

Como disse não conheço a Ann Nocenti pra poder comparar. Mas acredito que não é por defender um ideal "bom" e "nobre" que isso coloque um artista na frente do outro.

Existem maus artistas produzindo coisas "politicamente corretas", e artistas quase amorais ou malucos que produziram obras primas.


Arte é arte, política é política. Obra é obra, autor é autor.

Uma coisa pode (e deve) falar da outra, mas cada uma pertence a sua esfera.

Pedro Brandt disse... @ 29 de dezembro de 2011 14:27

Olá Davide,
Obrigado por comentar. Imaginei que fosse surgir um comentário como o seu, justamento porque o texto fala de coisas diferente que, apesar de dialogarem, não estão necessariamente na mesma esfera. Concordo contigo que o que
Nocenti diz a respeito do Occupy soa um tanto ingênuo. No entanto, ela passou os últimos anos trabalhando com diversos tipos de ativismo social, nos EUA e fora dele. Acredito que em comparação com Frank Miller ela tem mais embasamento e experiência para falar de um assunto como o Occupy. O meu objetivo original com o texto era falar apenas da hq do Demolidor, uma hq que me marcou e considero uma das melhores do personagem. A coisa cresceu e, disparando para vários lados, deu nessa "monstruosidade" aí. Acho legal que o texto tenha te feito refletir e comentar aqui. De alguma forma, o que você escreveu acrescentou aos assuntos do texto. E esse tipo de debate de ideias é um dos objetivos do blog. Continue nos visitando e comentando os textos. Ah, e tente ler alguma coisa de Nocenti no Demolidor, vale a pena.


Pedro Brandt

Pedro Brandt disse... @ 30 de dezembro de 2011 21:56

Olá Davide,
Obrigado por comentar. Imaginei que fosse surgir um comentário como o seu, justamento porque o texto fala de coisas diferente que, apesar de dialogarem, não estão necessariamente na mesma esfera. Concordo contigo que o que 
Nocenti diz a respeito do Occupy soa um tanto ingênuo. No entanto, ela passou os últimos anos trabalhando com diversos tipos de ativismo social, nos EUA e fora dele. Acredito que em comparação com Frank Miller ela tem mais embasamento e experiência para falar de um assunto como o Occupy. O meu objetivo original com o texto era falar apenas da hq do Demolidor, uma hq que me marcou e considero uma das melhores do personagem. A coisa cresceu e, disparando para vários lados, deu nessa "monstruosidade" aí. Acho legal que o texto tenha te feito refletir e comentar aqui. De alguma forma, o que você escreveu acrescentou aos assuntos do texto. E esse tipo de debate de ideias é um dos objetivos do blog. Continue nos visitando e comentando os textos. Ah, e tente ler alguma coisa de Nocenti no Demolidor, vale a pena.

Pedro Brandt

Davide Di Benedetto disse... @ 2 de janeiro de 2012 15:32

Não acho que você tenha escrito uma "monstruosidade". Apenas perdeu o foco do texto, mas acontece as vezes. Eu mesmo cometo muito esse erro.

Talvez apenas ter comparado a abordagem que o Miller deu ao personagem, com a abordagem que a Nocenti deu, teria "funcionado" melhor.

Não questiono que a Ann deve ter uma visão de mundo mais ampla que o Frank, ou que não desenvolva um trabalho sério como ativista. Mas temos a mania de acreditar que artistas sempre tem uma opinião relevante a cerca de diversos assuntos, inclusive política, principalmente quando somos fãs. Só que uma coisa não necessariamente implica na outra.

Nesse caso a visão dos dois me parece equivocada, um ranzinza e preconceituoso e fanático ao extremo, a outra com uma visão um pouco deslumbrada e exagerada do movimento. Talvez justamente por ser ativista e estar engajada na causa.

Mas enfim, gostei do blog e acredito que o post foi válido sim. Desculpe pelos comentários gigantes.

Como disse não conhecia a Nocenti. Vou procurar ler a histórias dela, em especial essa do Demolidor que você falou.

Artur Brandt disse... @ 2 de fevereiro de 2012 13:10

Porra Pedro, eu tenho esse gibi do Demolidor, essa Superaventuras Marvel, e é das minhas preferidas do Homem sem medo. Aliás, quase todas que eu tenho da fase da Ann Nocenti eu gosto muito! Fiquei surpreso de ver ela ilustrada aí, achei que fosse uma coisa muito particular gostar dessa edição. Sabe, coisa que você não tem amigos para compartilhar, porque eles não íam saber do que se trata, haha. Muito bacana, vou continuar lendo as postagens que eu perdi.

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