Dois fenômenos interessantes se agregam neste post. Primeiro, o enfoque nos webcomics, um interesse meu já com certo tempo, mas que não tive tempo de desenvolver autonomamente. Se há algo que, dentro da ideia de "quadrinhos além", pode se inventariar para uma transformação do meio das HQs e gerar formas de expressão híbridas, isso já está expresso no presente dos webcomics. O que nos leva ao segundo fenômeno auspicioso: a estreia do nosso querido leitor, consumidor apaixonado e dedicado de todo espectro de atuação dos quadrinhos, o jovem ilustrador Thales Lira. Como eu sabia que, além de pegada como arqueólogo das HQs, ele curtia explorar este ambiente inovador dos webcomics, convidei-o, após ler textos seus de boa qualidade, para escrever este pequeno guia para nós. Também conferi tudo que ele indicou e acho que vale um baita debate lá caixa de mensagens. Thales está para se formar em artes visuais na Unicamp e agora cabe decidir o que pode impulsioná-lo mais: se a teoria ou a prática. Greetings! (CIM)

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por Thales Lira

Falar de webcomics hoje está longe de ser algo inovador, já que diversos artistas serializam e publicam trabalhos na internet, chegando a ser quase uma norma para qualquer aspirante a quadrinista: “Tenha um site, gera conteúdo, atraia pessoas para o seu trabalho” seria a regra não-escrita.

Desde que Scott Mcloud apontou para as possibilidades da web no desenvolvimento das histórias em quadrinhos, diversos autores já se aventuram nesse terreno. Alguns usando como uma extensão das formas tradicionais como serialização de tiras, algo típico de jornais, outros explorando as possibilidades do meio, como a famigerada tela infinita, uso de imagens já prontas (clip-art, os “memes”) e alguns casos até animação.

O que se pretende aqui é fazer algumas indicações de webcomics que considero interessantes no momento. Como todo apontamento, ela está sujeita a gostos pessoais, fenômenos astrológicos e desvios de caráter, portanto nunca dará conta de toda extensão e diversidade que figura na rede. Vamos então às indicações, em uma ordem arbitrária sem hierarquia de valor:


Hark! A Vagrant! - Kate Beaton:  Apesar do tema de sua série ser algo que muitos considerariam de nicho - humor geralmente com base histórica ou de personagens literários - a abordagem de Kate consegue fazer rir sem precisar ter diploma em História. Recentemente compilada num volume pela Draw & Quarterly, sua obra apresenta uma interessante justaposição de diálogos modernos (geralmente falas de um jovem suburbano norte-americano) com figuras de um passado já distante. Esse anacronismo é realçado pelo seu traço que ecoa ilustradores da virada do século passado, mas por um viés mais cartunesco, quase rascunhos. Tudo isso pode parecer formulaico num tempo em que é comum ver mashups dos mais díspares (Orgulho e Preconceito e Zumbis me vem à mente), mas a obra de Kate se destaca por permanecer fiel até certo ponto às suas fontes históricas e não cair no mero pastiche pop. 

Emily Carrol: Emily, assim como Kate, demonstra influências de ilustradores no seu trabalho, mas, em seu caso, isso deriva mais do fato de a ilustração ser sua fonte primária de trabalho. Tendo começado recentemente a publicar suas HQs online (os primeiros trabalhos datam de 2010), sua obras vêm sido recebidas com entusiasmo pela comunidade online. Geralmente suas histórias se ambientam no passado, trazendo os perigos e o terror que tempos antigos evocam. Emily também se utiliza do formato da imagem na web e suas possibilidades (links e imagens que se podem se deslocar tanto verticalmente quanto horizontalmente) para potencializar suas narrativas. Destaque para suas histórias The Prince & The Sea, His Face All Red e Margot's room

2001 - Blaise Larmee: Uma das figuras mais controversas do cenário alternativo norteamericano atual, Blaise parece operar com mais proximidade com o mundo das artes visuais do que com o mercado de HQs. O modus operandi de Larmee pode ser visto como uma forma conceitual de fazer quadrinhos, disposto a alargar conceitos de maneira análoga aos artistas da década de 60/70. 2001, sua webcomic, parece não negar sua condição de imagem virtual num meio virtual. Os personagens interagem num fundo extremamente minimalista que muda gradualmente no decorrer da história (que é condicionada pela barra de rolagem), suas falas são representadas em uma fonte claramente inspirada nas primeiras usadas em computação. Em certo ponto, um dos personagens chega a dizer: é esse o seu espaço? Isso parece ser o ponto central na obra: como narrar uma história virtual em um ambiente virtual. 


What Things Do: “Nós queremos ler quadrinhos, bons quadrinhos, muitos deles e todo tempo” escreve Jordan Crane na descrição do seu site. What Things Do compila diversos trabalhos, de um grupo seleto de artistas alternativos norteamericanos, trazendo obras antigas, inéditas e algumas serializações. Dentre as HQs disponíveis, merece destaque a obra de Michael Deforge (situações surreais, horror, tentáculos e muitas secreções), a série Barack Hussein Obama de Steve Weissman (aventuras bizarras do atual presidente dos EUA) e The clouds above, do próprio Jordan Crane, que já foi editada em livro pela Fantagraphics e se adequou muito bem ao formato de leitura vertical.

Electrocomics: Criado pela artista Ulli Lust, que visitou recentemente o Brasil na RioComicon, Eletrocomics funciona com uma plataforma para publicação de ebooks, todos disponíveis de forma gratuita e mantidos por meio de doações.  O site possui um rol de artistas internacionais variado (grande parte europeu) com destaques para as obras de Olivier Schrauwen (editado este ano pela Fantagraphics), Amanda Vähämäki, Frédéric Coche e da idealizadora Ulli Lust (que possui disponível a serialização do Today is the last day of  your life, ganhadora do prêmio revelação em Angoulême).


Forming Jesse Moynihan: A vida na Terra começou com um alien rebelde que decidiu tomar o planeta como seu, contrariando as ordens que lhe foram designadas. Com o tempo sua família cresce e conflitos nascem entre os seus descendentes, antigos empregadores, os habitantes originais e entidades de outros planos. Esse é uma parte do enredo da webcomic criada por Jesse, que vem sendo serializada desde 2009 e esse ano ganhou uma compilação pela editora britânica Nobrow. Com um traço que lembra a linha clara francesa com um esquema de cores vivo e berrante aliado a um humor às vezes absurdo, a obra de Jesse segue como umas das séries mais estranhas e fascinantes de se acompanhar na rede. 

Como dito anteriormente, essas escolhas dificilmente encompassam toda a diversidade do ambiente virtual. Inúmeros trabalhos extremamente interessantes como as serializações no site do IG, os trabalhos de Ryot, ou 2101,de Jason Overby, poderiam figurar na lista acima. E, para os interessados em se aprofundar na história dos webcomics, recomendo a coluna No One Knows You’re A Dog (uma referência a um famoso cartum da New Yorker que diz que, na Internet, ninguém sabe que você é um cachorro) do Comics Journal, que possuiu bastante material historiográfico e boas recomendações.

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