por Pedro Brandt


Usado sem critério, o termo graphic novel está sendo banalizado no Brasil. Hoje, qualquer publicação com uma história completa está ganhando a chancela de graphic novel, sem necessariamente o ser. O fato de a trama se resolver até a última página — em contraposição, por exemplo, às revistas em quadrinhos mensais, com histórias continuando na edição seguinte sem previsão para chegar ao fim — não é o suficiente para classificar uma história em quadrinhos como graphic novel.

Isso acontece pelo fato de o termo não ter critérios tão estritamente definidos. Em resumo, uma graphic novel é um romance (o gênero literário) narrado com o auxílio de ilustrações em sequência (a linguagem visual dos quadrinhos). O que ajuda a separar o joio do trigo é a intenção do autor. As graphic novels se popularizaram com títulos que buscavam temas pouco (ou nunca) explorados na mídia quadrinhos e novas maneiras de contar as histórias, com narrativas gráficas mais rebuscadas. São obras geralmente indicadas para leitores maduros. Surge daí o selo de qualidade geralmente associado às graphic novels — espertamente usado por editoras para atrair leitores e, em muitos casos, vender gato por lebre.

Nesse contexto, Asterios Polyp chega em um momento interessante às livrarias brasileiras. A HQ de David Mazzucchelli foi lançada em 2009 e laureada no ano seguinte como melhor graphic novel nos prêmios Eisner e Harvey (os dois mais conceituados dos quadrinhos nos Estados Unidos).

O destaque que Asterios ganhou na imprensa internacional trouxe para a obra leitores que não necessariamente lêem quadrinhos. Isso foi muito importante pois gerou um feedback bastante diversificado para a HQ e uma série de avaliações e comentários tanto sobre suas qualidades literárias quanto como quadrinísticas.

Uma folheada em Asterios Polyp é o bastante para encher os olhos. O visual do álbum é impressionante. E não teria como ser diferente, já que o autor é David Mazzucchelli, veterano dos quadrinhos que há muito tempo abandonou as séries regulares de super-heróis (ele desenhou sagas antológicas dos personagens Batman e Demolidor) para se dedicar a projetos pessoais, constantemente se reinventando como artista — como é o caso em Asterios, em que Mazzucchelli apresenta um traço tão diferente dos que mostrou anteriormente que seria quase impossível saber que é ele o ilustrador da HQ sem ver seu nome na capa.

Nada na arte de Asterios é à toa. A paleta de cores, os formatos dos balões de fala dos personagens, o design do personagens, a diagramação das páginas, a construção das cenas… enfim, tudo serve a uma função na condução da história (e para causar algum efeito no leitor) e é usado de maneira criativa e inovadora. Uma autêntica exploração das possibilidades da linguagem das histórias em quadrinhos. Como narrador visual, Mazzucchelli é um mestre. Algumas pontas soltas deixadas pelo caminho da trama, no entanto, revelam um roteirista em desenvolvimento — detalhe compensado pelas incríveis ilustrações.  

Arquiteto de papel

No seu 50º aniversário, Asterios Polyp tem um momento de revelação. Filho de pais gregos (o sobrenome da família foi encurtado por um agente da imigração americana), ele viveu seus 50 anos assombrado pelo fantasma do irmão gêmeo (Ignazio), morto no parto. Arquiteto de papel (que conquistou renome graças a seus projetos, não das edificações construídas a partir deles), Asterios passou a vida como um catedrático arrogante e narcisista, preso a neuroses e visões de mundo muito rígidas, que o impossibilitaram de enxergar a beleza além de seus preconceitos — atrapalhando sua relação com as pessoas, inclusive com a mulher, Hana. Ao perder tudo em um incêndio, o protagonista sai em busca de uma revisão de sua vida.

Mazzucchelli preenche a narrativa de citações filosóficas e ensinamentos herdados dos gregos antigos. Eles surgem tanto na fala dos personagens quanto nas imagens. A aproximação com a filosofia incomodou muitos leitores, que observaram a superficialidade com que o autor as utiliza. O problema, neste caso, seria mais com o próprio protagonista do que com Mazzucchelli. Até porque Asterios Polyp não tem pretensões filosóficas. Acontece que o herói da HQ é, em muitos momentos, tão irritantemente cheio de si, prepotente, que fica difícil não nutrir alguma antipatia por ele.


Isso, na verdade, é um trunfo da HQ. Asterios é um personagem vívido, crível. Assim como são todos do elenco. Os simbolismos que pipocam pela trama ajudam a tocar a história. Mas é a trajetória do personagem e seus dramas que a conduz. Na dúvida do que é uma graphic novel exemplar? Em forma e conteúdo, Asterios Polyp é uma ótima opção.

David Mazzucchelli

O desenhista americano começou a ser conhecido pelos leitores de quadrinhos a partir de seus trabalhos com os personagens Batman e Demolidor. Do primeiro, ilustrou a mini-série Batman — Ano um, com roteiro de Frank Miller, uma das mais consagradas do Cavaleiro das Trevas. Do Demolidor, desenhou a saga A queda de Murdock, outra parceria com Miller e momento clássico do herói cego. Com o roteirista Paul Karasik, Mazzucchelli adaptou Cidade de vidro, do escritor Paul Auster.





Publicado originalmente no Correio Braziliense

3 comentários

Samanta coan disse... @ 17 de novembro de 2011 12:59

Se duvidar, tá sendo o melhor quadrinho que li neste ano. Aindo estou lendo, mas já me apaixonei pelas cores, como a história é contada, como desenhos são dispostos nas páginas...
Nossa, sem palavras.

hypso facto disse... @ 22 de novembro de 2011 08:18

Eh a melhor graphic novel que li nos ultimos tempos. Belissima!!

Pedro Brandt disse... @ 16 de dezembro de 2011 19:28

Quem gosta do trabalho do Mazzucchelli tem que dar um conferida em "Cidade de vidro". Tem tempo que eu li a obra mas lembro que ela me impactou ainda mais do que Asterios Polyp.

Postar um comentário

 
Back to Top