por Pedro Brandt

Insatisfeita com o que considera mesmice, falta de ousadia do mercado editorial brasileiro, Rachel Gontijo Araújo resolveu publicar ela mesma os livros de que gosta. Para a empreitada, não poderia ter escolhido nome mais apropriado. A Bolha Editora começou a atuar este ano e já nos primeiros títulos deixou clara sua proposta.

Vá para o diabo, do argentino Federico Lamas, por exemplo, apenas parece um caderninho do tipo moleskine repleto de ilustrações. Mas visto com o auxílio de um visor que acompanha a publicação (chamado de visão infernal), os desenhos revelam segredos (escabrosos e divertidos), e mostram o que, a olho nu, o leitor não consegue perceber.
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O horror da guerra em pelúcia (Ian Edington e D'Israeli, 2004): enquanto Hollywood continua gastando milhões em merchandising de fantasia e adaptando livros ruins do gênero em infindáveis partes iguais, uma história que poderia se tornar um verdadeiro renovador do gênero continua relegada a uma injusta marginalidade. E foi publicada no Brasil. Eu adquiri O reino dos malditos no ano de sua publicação pela Pixel em 2006 (original da Dark Horse), mas até um dia desses ainda podia ser encontrada em um saldão motivado pelo fim das atividades quadrinísticas de editora por muito módicos R$ 3,00 num Wall-Mart da vida. E essa HQ tinha tudo para virar um grande filme: trata-se de uma história intensa, perturbadora, e de tiro curto: pouco mais de 100 páginas que alternam entre um colorido mágico com gosto de infância e um ambiente tenebroso de devastação e genocídio. A trama é simples: em seus cada vez mais constantes e cada vez mais violentos desmaios, o prestigiado autor de fantasia Christopher Grahane adormece e retorna, em sonho, a Castrovalva, um mundo que ele criaria quando criança, povoado de fofos seres imaginários. Porém, algo muito brutal ocorreu a Castrovalva enquanto seu autor cresceu e se tornou adulto: a terra ampliou-se em seu inconsciente e foi dominada por um ditador brutal e desumano, promovendo pandemônio e horror ao antes inocente mundo infantil.
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por Ciro I. Marcondes

Li Daytripper, dos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, em um avião. De certa maneira, acabei me tornando um leitor privilegiado de uma obra que não para de receber o mais unânime e justo laureamento. No avião, você parece ainda mais dentro de Daytripper, como se esta coincidência de ironia macabra fizesse parte daquele penúltimo capítulo, de um sonho emaranhado na vida, que nunca termina. Como Daytripper nos alerta, a cada instante, da possibilidade iminente da morte (ainda que celebrando a robustez da vida), não apenas não havia como não se substituir pelo personagem Brás de Oliva Domingos (isso é óbvio, já que esta HQ fala mesmo é de mim, você, todos), como não havia como não pensar em minha própria morte, em sua iminência, naquele mesmo instante. Para quem já leu, apenas imaginem como me senti enquanto estava lendo o capítulo do acidente da TAM.  Penso que alguns não conseguissem empreender tal façanha (ler Daytripper no voo), mas a vida é esta, e o pior que podemos perder é ela própria, não é? Segui lendo, arriscando minha própria obsessão por uma morte irônica, e venci esta venturosa graphic novel.


Na página de abertura do capítulo dos sonhos, vemos Brás retornando ao episódio onírico em que se encontra, num bote, com Iemanjá, em mar aberto, rodeado por oferendas. Ela lhe diz: “Você é este barco flutuando em um oceano infinito. Estas cestas contêm desejos, ambições... forças que movem sua vontade adiante. Porém, se você ficar aqui apenas olhando para elas... cedo ou tarde... elas irão todas afundar”. Esse trecho, além de retomar a própria trajetória do personagem e dar-lhe ares mitológicos, fundamenta a linda base filosófica (schopenhaueriana, como veremos) da qual a HQ parte: a vida como insistência em resistir à força inelutável que é a morte.
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por Pedro Brandt


Usado sem critério, o termo graphic novel está sendo banalizado no Brasil. Hoje, qualquer publicação com uma história completa está ganhando a chancela de graphic novel, sem necessariamente o ser. O fato de a trama se resolver até a última página — em contraposição, por exemplo, às revistas em quadrinhos mensais, com histórias continuando na edição seguinte sem previsão para chegar ao fim — não é o suficiente para classificar uma história em quadrinhos como graphic novel.

Isso acontece pelo fato de o termo não ter critérios tão estritamente definidos. Em resumo, uma graphic novel é um romance (o gênero literário) narrado com o auxílio de ilustrações em sequência (a linguagem visual dos quadrinhos). O que ajuda a separar o joio do trigo é a intenção do autor. As graphic novels se popularizaram com títulos que buscavam temas pouco (ou nunca) explorados na mídia quadrinhos e novas maneiras de contar as histórias, com narrativas gráficas mais rebuscadas. São obras geralmente indicadas para leitores maduros. Surge daí o selo de qualidade geralmente associado às graphic novels — espertamente usado por editoras para atrair leitores e, em muitos casos, vender gato por lebre.

Nesse contexto, Asterios Polyp chega em um momento interessante às livrarias brasileiras. A HQ de David Mazzucchelli foi lançada em 2009 e laureada no ano seguinte como melhor graphic novel nos prêmios Eisner e Harvey (os dois mais conceituados dos quadrinhos nos Estados Unidos).
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