Temos recebido colaborações de gente legal e preocupada em pensar o mundo dos quadrinhos. Ficamos extremamente felizes com o entusiasmo das pessoas em torno do conceito do site. Esta última é muito especial, porque vem de um cara que tanto eu quanto o Pedro admiramos enormemente. Lima Neto é artista plástico, quadrinista e empresário, e é responsável por uma parada obrigatória da cultura pop em Brasília: a gibiteria Kingdom Comics, no Conic. Esta loja é, desde os anos 90, ponto nevrálgico do debate quadrinístico na cidade, onde passam grandes figuras, são trocadas grandes ideias e construídas grandes amizades. Lima não apenas mencionou a RL no (ótimo) blog da loja, como nos ofereceu a republicação de um texto lúcido e necessário. Só temos a agradecer. (CIM).

por Lima Neto

Se você leu qualquer site ou blog de quadrinhos nesses últimos dois dias, já deve estar por dentro de duas novidades que veem tendo uma grande repercursão no mundo dos gibis.

Como essas notícias jã não são mais novidades e foram amplamente divulgadas até pela imprensa leiga, não vou temer spoilers…

A primeira notícia se refere ao Homem-Aranha do universo Ultimate. Como já noticiamos em nosso site, a Marvel deu carta branca para a equipe criativa do universo de Marvel Millenium para ousarem e escreverem o tipo de estória que nunca seria visto no universo convencional da editora. Esse com certeza é o maior presente que um escritor poderia receber e é uma ótima notícia também para os leitores ávidos por novidade. Sendo assim, munido de uma liberdade editorial inédita em um título do Aracnídeo, o escritor Brian Michael-Bendis botou as mangas pra fora e revirou o mundo do Ultimate Spider-man de cabeça para baixo. Peter Parker encontrou seu fim em um dos momentos mais tocantes da série e foi substituído por um novo personagem: Miles Morales. Jovem e negro de decendência latina.


Outra novidade que vem causando arrepios na espinha da juventude W.A.S.P (Branco, Anglo-saxões e Protestantes) norte-americana é a escalação do ator Laurence Fishburne como o novo Perry White, o editor irrascivo do Planeta Diario,  na nova superprodução de Zack Snyder.

Ambas as notícias foram recebidas com milhões de e-mails espumantes que podem ser classificados em uma enorme pasta com o nome de “Não sou racista, mas…”

A indústria de quadrinhos mainstream nos estados unidos, ou seja Marvel e DC, vem se debatendo como peixes fora d’água para se adaptarem às mudanças extremas que o mercado está sofrendo. A editora pertecente o grupo Warner e casa do Super-homem e Mulher-Maravilha já vem passando por mudanças polêmicas que, além de professarem o fim do quadrinho impresso mensal, com a publicação simultânea online e nas bancas, ainda acena com uma preocupação formal de promover uma inclusão de minorias sociais dentro de seus títulos. Mesmo que algumas afirmações truculentas do editor chefe da casa, Dan Didio, quase tenham levado esses planos por água abaixo (Didio respondeu agressivamente a uma leitora que o questionou sobre o por quê da editora ter reduzido o número de mulheres trabalhando na casa de 12% para 1%), a editora aumentou sensivelmente a variedade racial/social/sexual em seu relançamento, optando por manter alteregos diversos no lugar dos originais anglo-saxãos como o Elektro. Enquanto isso, a Marvel aproveita seu universo alternativo, o universo Ultimate, para explorar os benefícios que a diversidade cultural pode trazer ao mercado. A equação é óbvia, se estamos perdendo leitores a solução é trazer novos leitores que não se sentiam representados em nossos títulos.

Fanboy argumentando: "Heimdall é um deus nórdico! É incoerente!"
Essa equação não foi o resultado de um raciocínio comunitário em direção à sobrevivência, mas uma lição ensinada pelas suas companhias irmãs de Hollywood, que reconhecem já a muito tempo o quanto pode ser lucrativa a diversidade. O que não quer dizer que estejam livres de polêmica. O recente filme do Thor deixou eriçado até leitores brasileiros com a escolha de Idris Elba como Heimdall, fato que se repete agora com o novo Perry White e antes ainda com a escolha de Michael Clarke Duncan como Rei do Crime (que causou bem menos rebuliço do que o fator Heimdall, por que será?…).

Porque sou o rei... do crime?
A principal reclamação dos fãs é que tudo isso modifica a mitologia de seus personagens. Que altera cânones sagrados das comic books. Eu chamo isso de posição reacionária.

Peter Parker, Perry White, Clark Kent e Miles Morales tem uma coisa em comum. São todos personagens fictícios, criados por seres humanos que são um reflexo da época em que vivem e naquilo que acreditam. São ideias. O problema é que estas mesmas ideias são cultuadas com um fervor quase religioso pelos fãs, o que acaba por engessá-las e anulam a habilidade das boas ideias de serem abrangentes. Muito provavelmente nos guetos do bairro judeu de uma Nova York atolada na depressão do final dos anos 30, a diversidade de culturas fosse algo bem difícil de experimentar, mas isso não é motivo para se levar essa experiência limitada para frente só por que foi assim que ela foi “criada”. Concordo que certas modificações burocráticas a título de preenchimento de cotas em detrimento do roteiro são questionáveis. Mas ter a oportunidade de ver um ator do calibre de Laurence Fishburne encarnando um personagem querido como o Perry White é um prazer pra qualquer apreciador de cinema. E a gama de possibilidades que se abre com um novo Homem-Aranha, e o aroma fresco da ousadia e da criatividade põem por terra qualquer argumento reacionário onanista que apareça.

“Inteligência. Essa é a única arma capaz de deter a decadência” como diz a banda Cidadão Instigado. Os quadrinhos estão passando por uma de suas piores crises desde sua criação como mídia de massa. E ele só vai poder sobreviver se se transformar e se adaptar. E somos nós, leitores, que temos a responsabilidade de guiar esta transformação para algo que valha a pena ser lido. Queremos representatividade social e cultural, queremos estórias dinâmicas e relevantes e, acima de tudo, queremos criatividade e inovação!

O título desse artigo é o título de uma música do grupo norte-americando Public Enemy chamada Fear of a Black Planet.

Eu diria: Não temam um planeta diverso!

3 comentários

Lima disse... @ 23 de agosto de 2011 10:40

Valeu pessoal pela oportunidade! E as gentís palavras.

Rodrigo Maia disse... @ 1 de setembro de 2011 16:50

Curioso (e engraçado) terem implicado no filme do Thor com um Heimdall negro mas não com o Hogun asiático (mesmo que no filme eles não sejam deuses nórdicos, apenas uma raça de outra dimensão que foi confundida ou tomada como tais). Também não chiaram muito em relação ao Nick Fury interpretado por Samuel L. Jackson. Mas tomara que essa tendência nos filmes seja ainda mais utilizada nos quadrinhos. Belo post, gostei bastante do título! Abraços!

Luigi disse... @ 11 de novembro de 2011 08:52

RL reacendeu meu interesse pelos quadrinhos! Grande post do Lima. É bom considerar quem eram os leitores de ontem, e quem são os leitores de hoje. Deve haver estudos sobre a capacidade desses leitores de se identificarem com seus heróis, talvez uma das razões para comprar os gibis. E, se não há estudos, se é uma jogada maluca, desesperada, para tirar o limo dos universos de heróis, que assim seja. Não sou um especialista e nem tenho boa memória, mas a lembrança que guardo dos personagens de quadrinhos independentes é que sempre fizeram parte de um universo mais plural, diverso, gente "estranha" mesmo. Assim é o mundo. A ver como avançam essas novidades. Qualquer coisa, já sabemos: Crise nos Infinitos Universos Ultimate :)

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