"Foi a primeira vez que vi, com meus próprios olhos, a suástica" (Art Spiegelman, 1986): Por motivos de uma demanda de sala de aula (disciplina: "Literatura e Narrativas Modernas"), precisei reler MAUS, a obra máxima de Spiegelman, e este é sempre um ato de redescoberta, como diz Calvino: "Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira". O que me chamou atenção nesta releitura, especificamente para esta seção, entretanto, não foram os inúmeros requadros formidáveis desta HQ. Spiegelman obviamente elabora a trajetória de seu pai no holocausto (e a sua própria, na tentativa de compreender o pai no "presente") com alto grau de metalinguagem, várias camadas interessantes de narração e enunciação, fronteiras difusas e intrigantes entre a memória, a ficção e o documental - enfim, tudo aquilo que torna esta obra uma expressão máxima dos quadrinhos. 

Conforme eu dizia, desta vez um quadro mais sóbrio me chamou a atenção, exatamente porque se tratava de uma releitura. Como eu já sabia o que se passaria na visão brutal e realista do holocausto contada por Vladek Spiegelman, o requadro aberto na página 34 da edição da Cia.das Letras (que traz os dois volumes juntos) irrompeu-se sobre minha leitura monótona como um calafrio que chega sem aviso, antecipando o horror em flashfoward. Vladek está indo de trem à Tchecoslováquia para procurar tratamento psiquiátrico para sua jovem esposa Anja. Ao passar por uma cidadezinha, seu discurso quase técnico e referencial também nos pega de surpresa ao narrar, no requadro panorâmico que fecha a página, as seguintes legendas: "Era o começo de 1938, antes do guerra. No meio da cidade, tinha bandeira nazista. Foi a primeira vez que vi, com meus próprios olhos, a suástica".

Spiegelman (o filho) dá um certo ar cinematográfico ao quadro, posicionando-o como um plano subjetivo, tentando situar-nos também dentro do vagão, vendo a bandeira nazista tremulando fora da janela junto com os outros "ratos" judeus. O impacto é grande porque a suástica nazista é um símbolo que se tornou referência da gramática do século 20, e agrega uma torrente de significados para a compreensão do homem contemporâneo. Porém, o espanto que esse requadro carrega é de estranhamento e vaticínio. Vladek jamais vira o símbolo nazista ("como pode?", é a reação precipitada, meio irracional), e ele seria sua ruína, conforme as outras 262 páginas da história nos informarão. (CIM)

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