Charlie Brown é o homem moderno (Charlez Schulz, 1950): Esta tira publicada por Schulz ainda em 1950 (primeira série dos Peanuts) tem o mérito de, com quatro requadros iguais e uma única fala, nos premiar com três avanços louváveis em histórias em quadrinhos: 

1 - Estabelecer, de maneira 100% consciente, um nível difuso de temporalidade em quadrinhos. Os quadros são iguais, o tempo impreciso, mas a ideia do tempo está toda lá: é o tempo do tédio, do momento de autorreflexão, um tempo sem duração cronológica que necessariamente precisa se remeter ao universo íntimo e psíquico dos personagens. Um tempo de um mundo relativo, que aproveita um mecanismo absurdamente simples e exclusivo dos quadrinhos. Fosse no cinema, esse tempo poderia ser marcado, cronometrado. Nos quadrinhos, ele transmite a ideia de eternidade íntima.

2 - Em consequência dessa primeira observação, vem a segunda: Schulz, modesto que fosse, despretensioso que fosse, dominava um nível poético de linguagem, abandonando qualquer traço narrativo (não tem história aí, não tem ação, não tem passagem do tempo) para subir em direção a um estado contemplativo, emulsor de melancolia, sem deixar de lado sua observação bem-humorada (mas não cínica) do cotidiano. Um dos primeiros poetas dos quadrinhos, e ainda precisamos de outros.

3 - Mais importante ainda, essa tira, sem a presença de um gancho narrativo, do Snoopy, de uma história ou sequer de dois desenhos diferentes entre si, é capaz de ser uma metonímia de todo o conceito que Schulz criou para os Peanuts, e especialmente de Charlie Brown. Olhando bem para esses quatro quadrinhos, é possível dar alguma verificabilidade ao insight de que Charlie Brown (espécie de alterego do autor) representa um arquétipo próprio do nosso tempo, de um sujeito inseguro, pessimista, melancólico, perdido no caos do mundo moderno, mas ao mesmo tempo imbuído de uma estranha graça, de um loserismo encantador, pelo qual demonstramos não só pena, mas também afeto e admiração. Essa impotência diante dos desafios do mundo, da consciência da complexidade do mundo, foge a qualquer arquétipo que tenhamos utilizado nas eras anteriores da nossa história ocidental, baseada em heróis gregos, cartas de tarot ou outras reminiscências antigas. Charlie Brown é a nossa consciência contemporânea e Charles Schulz um gênio? Respira fundo e diz "sim". É assim que as coisas são. (CIM)

6 comentários

Thales disse... @ 18 de junho de 2011 15:16

Se for ver, é a pedra fundamental dos quadrinhos alternativos. Tá tudo ai: drama existencial, de certa forma a autobiografia, a falta de aventura, a monotonia e o espirito de não poder vencer.

Raio Laser - CIM disse... @ 18 de junho de 2011 23:03

A diferença é que Peanuts não era uma HQ cínica, pessimista. É uma HQ ainda idealista, sonhadora, moderna. A arte narrativa de hoje abdicou de pensar, pulou direto pro niilismo. Eu realmentr gosto desse apelo nostálgico de Peanuts... "saudade do que nunca fui".

Thales disse... @ 19 de junho de 2011 09:00

Concordo com isso, por mais que eu ache fantástica as obras do Ware, não dá para não pensar, porque ele não pode ser feliz?

Ciro - Raio Laser disse... @ 24 de junho de 2011 15:30

Acho que no final das contas tem a ver com a perspectiva do artista e do seu tempo. As gerações mais próximas são mais desiludidas mesmo, e reagem com acidez ao idealismo da geração do Schulz. Acho que um meio-termo podia surgir aí. Mas um cara como Ware é fabuloso, mesmo que se exija um pouco de força emocional pra se ler uns quadrinhos tão tristes quanto os dele :)

Anônimo disse... @ 22 de agosto de 2011 10:38

Que besteira! Como vocês falam!!! A tirinha já "não disse" tudo? O "não dizer" é mais sagaz,,, cansei!

Ciro disse... @ 22 de agosto de 2011 15:38

Pô, "Anônimo", deixa a gente falar ae. It's a free country!

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