por Ciro I. Marcondes

Lendo a recente republicação das primeiras histórias de “O Poderoso Thor”, com roteiros de Stan Lee e arte de um ainda imaturo Jack Kirby, creio ser correto pensar na incômoda ambiguidade da cultura de super-heróis tanto para as HQs em geral quanto para a cultura de nossa era, assim como na ausência de perspectiva crítica sobre a adorada figura de Stan Lee da maneira como se faz, por exemplo, com Walt Disney. Digo isso pensando na avalanche de filmes desprezíveis consumindo salas de cinema e monopolizando a atenção de Hollywood na direção de um entretenimento bombado em efeitos especiais, mas infantilizado e vazio. Muitas vezes baseados nos simpáticos personagens de Lee, alguns destes filmes estão aquém da cultura de HQs, alimentando o estigma de descartabilidade. 

É claro que a força das criações de Stan Lee - com admirável moderação dos exageros dos heróis da era de ouro, popularizando em um contexto pós-midiático arquétipos humanos interessantes e aproximando o herói dos seus leitores -  tem méritos. O sentido aqui não é colocar na berlinda o Homem-Aranha, o Hulk, os X-Men ou sequer o poderoso Thor (cuja adaptação pro cinema saiu justo agora). As criações de Lee (ou remodelações, já que quase tudo em Lee é francamente baseado em algo de outros quadrinhos ou culturas), importantes para nosso imaginário atual, permanecem com suas essências ao mesmo tempo simples e adequadas. Elas estão muito além do alcance de seu criador. Parece um problema, porém, que estas essências, fetichizadas, disseminadas em bonecos, produtos, metáforas cotidianas, fantasias sexuais, moda, etc, estejam se tornando um denominador comum da sociedade de consumo. Esta atenção entusiasmada e cultista de um imaginário antes muito consciente de suas limitações está tornando o que hoje entendemos como uma identidade geek em uma cultura autoindulgente, cínica, explicitamente perversa, confessadamente idiotizante. Como fã de quadrinhos e até como leitor de Stan Lee, confesso acompanhar com horror a massificação do imaginário de super-heróis.

Vejamos estes quadrinhos do Poderoso Thor, datados de 1962, roteirizados no estilo marvel way por seu criador Stan Lee, com diálogos detalhados por Larry Lieber e arte de Jack Kirby. Meu primeiro interesse por Thor foi justamente buscar de que maneira esta figura extraída das mitologias vikings havia sido revertida em objeto de exploração (acho que, no caso de Thor, é lícito dizer “exploitation”) pela indústria das HQs. Sempre pareceu-me que, a partir de abordagens inteligentes como a de Alan Zelenetz e Charles Vess (“A Bandeira do Corvo”) ou a de Robert Rodi e Esad Ribic (“Loki”), o universo de Thor tivesse grande potencial. Daí recorrer à arqueologia. Lendo as mais de 10 histórias magnificamente republicadas pela Panini na versão nacional da “Biblioteca histórica marvel”, logo nos chama à atenção a pobreza conceitual e artística, mesmo para os padrões da Marvel nos anos 60, do universo de Thor.

Não é novidade que HQs da era de prata, fora algumas coisas do Homem-Aranha, Surfista Prateado e X-Men, despertam interesse mais pelo lápis vigoroso de um Kirby, Ditko ou Buscema do que pelas aventuras ingênuas de Stan Lee. No caso de Thor, entretanto, o caráter derivativo é franco e patente. Lee, já ocupado com o sucesso do Hulk, do Quarteto Fantástico e do Homem-Aranha, produziu roteiros sintéticos com os plots básicos e passou o detalhamento para Larry Lieber, processo que se tornaria tradicional em alguns setores da Marvel. Assim, os personagens de Thor são pálidos, óbvios, diretos. O frágil alterego Don Blake, médico cuja deficiência física contrasta com sua contraparte divina e ariana, logo é abandonado em sua assepsia maniqueísta. O mesmo ocorre com o interesse romântico, a puritana Jane, apaixonada por Thor, mas desdenhosa de Blake (bla bla bla... mesma velha história). Assim, o que emerge dessas tediosas tramas da Thor é justamente o aspecto não-ingênuo que delas se depreende, o que nos permite um comentário mais severo a respeito da isenção de Stan Lee.

Caça às bruxas



Consideremos, em primeiro lugar, que o mais interessante em Thor, e o que o definirá na sequência de sua trajetória enquanto mito e personagem de HQ, quando ele já não estiver mais sob o controle de Stan Lee, é sua origem na cultura nórdica, na mitologia viking, na inesgotável fonte de inspiração para o imaginário ocidental, do épico mudo de Fritz Lang “Os Nibelungos” às recentes e oscarizadas adaptações de “O Senhor dos Anéis”. Logo, mesmo nas histórias de Lee, são as intrigas mágicas e palacianas dos deuses tortos de Argard que vão instilar algum diferencial no universo do personagem, especialmente na figura do nêmesis Loki, um tipo picaresco, subversivo e invejoso, contraponto importante.  Porém, submetido a um ritmo industrial de produção, aos rigores do comics code authority (incomodamente estampado em todas as capas da republicação) e à franca paranoia da guerra fria em seu auge, imagino que Lee não tenha tido muito interesse em aprofundar o personagem em suas origens resididas na cultura popular. Thor é um herói qualquer, exilado na Terra, e combate vilões eventuais e ordinários como o “Copiador”, “Sandu” ou “Mister Hyde”, apaixonado por uma moça reprimida que o ridiculariza em sua essência humana. Nada que um Super-Homem, protótipo de todo super-herói, já não fosse.

Porém, além de vilões insossos perdidos no tempo, Thor também trabalha junto com o exército americano. Logo na primeira história (“Os homens de pedra de sarturno”), uma ilusão provocada pelos tais “homens de pedra” chama atenção pelo seu caráter subliminar: um dragão vermelho que aterroriza o povo norteamericano. Nas histórias subsequentes, vemos que as alusões ao mundo comunista deixam de ser subliminares. Em “O poderoso Thor x o executor”, Thor deve lançar-se contra uma ameaça militar controlada por um tirano ensandecido por aspiração de domínio global chamado “executor”. Ele e seus comparsas possuem traços alatinados, com cicatrizes de guerra deformativas, usam boinas e seus caças ostentam a foice e o martelo. São rudes, pavorosos, e suas ações sugerem tortura e estupro. Lee não avança no conteudo político deste conjunto de signos. Nada sobre o mundo do socialismo é revelado. O executor é um vilão genérico e cruel como um Esqueleto de He-Man ou um Munn-ha de Thundercats. É o mal pelo mal, sem arestas ideológicas. Mas usa boina como guerrilheiros cubanos, chama-se “executor” e, em quadro emblemático, manda para o paredão de fuzilamento um soldado que falhou em uma missão.


Esta associação à cultura militar e a uma demonização dos inimigos dos Estados Unidos nos anos 60 se encontra, ainda neste mesmo volume, em várias outras histórias. Em “Prisioneiro dos vermelhos”, Thor precisa ir à União Soviética à procura de cientistas americanos, supostos desertores. Lá ele os encontra capturados pelos grotescos soviéticos, que os obrigam a desenvolver tecnologia sob regime de escravidão. Esta história, escrita no auge da guerra fria, distorce tema controverso do passado norteamericano: o dos cientistas americanos que efetivamente fugiram por se filiarem ao partido comunista. A história de Thor descarta essa possibilidade e os coloca como vítimas de uma tola conspiração. Os exemplos se repetem e seria perda de tempo recapitulá-los em detalhes. Em “Aprisionado pelo copiador”, Thor se depara com grupo de alienígenas cruéis e com sede de conquista cujo líder tem o rosto de Stalin (além de serem da cor vermelha). Em “O misterioso homem radioativo”, Thor vai à Índia salvar a população da ameaça da China comunista, genérica como todos os outros.

O ponto em que eu queria chegar é evidente: pouco se fala sobre um Stan Lee colaboracionista e ideologista, usando tramas pueris e românticas em inocentes histórias de ação (orgulhosamente aprovadas pelo comics code authority) para associar símbolos mundiais (estrelas, cores, foices) a figuras grotescas e rasas, que sequer têm o poder de crítica aos estados socialistas para além de uma transfiguração direta e barata, porque nenhum conteúdo propriamente político é abordado nestas histórias. E isso é fácil de se entender, afinal, as histórias são direcionadas às crianças, que são bem menos capazes do ato da problematização. Neste sentido, Lee não difere dos primórdios da Marvel Comics, ainda Timely Comics, que criou nos anos 40 inúmeros personagens embandeirados como motivação para a segunda guerra mundial. Logo na primeira edição do Capitão América, vemos o herói que veste e personifica o american way desferir um golpe de boxe nas fuças de Adolph Hitler. Com certeza é preciso entender o contexto sociopolítico da guerra fria e relativizar a participação da cultura pop em um mundo bipartido, mas também é preciso lembrar a vulnerabilidade de um pequeno leitor de HQs nessa mesma época.

As criações de Stan Lee fazem parte de nosso patrimônio cultural mundial e comum. Seu poder de trazer a cultura de quadrinhos para um patamar humano desencadeou muitas mudanças importantes na maneira como lidamos com nossas aspirações e heroísmos pessoais, sendo até hoje fonte de entretenimento legítimo e servindo como um aperitivo daquilo que a totalidade do prazer e da educação que o pensamento mitológico inspirou em culturas antigas ou selvagens. Porém, como toda mitologia, seus heróis se desvinculam de seus criadores no decorrer da História, e seguem vivos pela força coletiva de autores e leitores que procuram cada vez mais adequá-los à passagem do tempo. Confundir, de maneira fetichista, a mente criativa, porém artística e politicamente limitada de Stan Lee, com o efeito mitológico de suas criações, parece consequência do ato de querer-se apenas cultuar o universo dos quadrinhos sem problematizá-lo. Isso é curioso porque fornece munição justamente para aqueles que querem impedir o crescimento cultural desta forma de expressão, os mesmos que proibiram a colossal e alternativa cultura de HQs dos anos 40, permitindo a ascensão de heróis em seu formato light, cujo principal expoente é justamente o velho Stan Lee que aparece, tal qual um Hitchcock acidental, em cada uma das megaproduções cinematográficas da Marvel que são lançadas nos verões americanos.

Ciro Inácio Marcondes não odeia os heróis Marvel

11 comentários

Anônimo disse... @ 30 de abril de 2011 01:41

Caramba mano voc~e acabou com toda a visão heróica que eu tinha do stan lee, mas acho que isso é bom. É saíudavel problematizar a cultura pop, sobretudo os quadrinhos, que ultimamente tem sustentado boa parte dela.

Daniel Poeira disse... @ 30 de abril de 2011 18:15

Sempre achei o Stan Lee meio picareta, e depois de velho descobri que não era só eu. Todos os desenhistas da Marvel dessa época brigaram com ele, especialmente o Jack Kirby, esse sim um gênio dos quadrinhos, e não do marketing. Quanto ao Thor, andei revendo os desenhos desanimados dos anos 1960, e a pobreza das historinhas é deprimente. No meu entender, o verdadeiro Thor é aquele do Walt Simonson, que virou sapo, que ficou barbudo, que usou armadura, que lutou contra a serpente que dava a volta ao mundo. O resto é forro de gaiola.

Raio Laser - CIM disse... @ 5 de maio de 2011 13:48

As primeiras histórias são consideravelmente genéricas. Foi até difícil chegar até o fim. Isso não ocorre, por exemplo, com as HQs da era de ouro. Estou lendo as primeiras do Superman e são realmente interessantes, seja de um ponto de vista histórico e cultural e ou mesmo das aventuras, bem menos politicamente incorretas. Surpreendente, eu diria. O Thor é muito subaproveitado. Mesmo assim, depois que vi o filme reli aquela série "Loki", do material recente, e é de primeira.

Thales disse... @ 6 de maio de 2011 15:07

Tenho a mesma impressão de que há uma supervalorização dessas histórias. Mesmo quando tinha lá meus 10 anos e conseguia um gibizinho velho que republicava essas histórias, não sentia que era grande coisa ou que era melhor do que eu estava lendo na época.
Existem coisas piores ainda, como a época que o thor anda sem camisa que era publicada na revista marvel 98 da abril. Só de pensar naquilo me dá arrepios.

Anônimo disse... @ 9 de maio de 2011 00:34

Pobre Stan Lee! Lendo esse texto lembro da vulnerabilidade dos nossos jovens leitores de livros didáticos de história escritos por professores comunistas. Criticar as hqs de heróis americanas porque elas criam uma imagem rasa e unilateral dos inimigos nazistas e comunistas é que é politicamente limitado. É compreensível que esse tipo de opinião grasse num país cujo maior herói de hq é o Zé Carioca e o maior inimigo é a saúva. Mas temo realmente que falte sensibilidade aos aspectos nacionalistas necessários à construção de um bom e atemporal herói. Além de uma sobra de rancor pelo sucesso mercadológico que esse gênero, muito apropriadamente, conquistou. Denuncio o desdém pelo gênio de Stan Lee com os argumentos do texto como um mero ranço esquerdóide. Não é à toa que vocês gostam tanto de quadrinhos franceses. rs

Anônimo disse... @ 9 de maio de 2011 11:21

Quem precisa de heróis afinal?
Ainda acho esse negócio de superisso e superaquilo coisa pra retardado. A ainda perdem tempo justificando a existência dessa bobagem, de uma forma ou de outra. E esses personagens em questão servem pra algo além de salvar os EUA de nazi e comunas ou de defender aquela ideologia paranóica?
Ainda bem que eu tive professores de esquerda, pois, bem ou mal, foram melhores que os que apoiavam o regime militar, que se utilizava de métodos escrotos patrocinados pela CIA, né?Desde quando Zé Carioca é super? Sou mais a Welta!

Rayk disse... @ 8 de junho de 2011 23:01

Por mais que o filme seja infantilizado, acredito que nem o cara mais qualificado do mundo pode dizer que ele seja vazio ou desprezível. Se lota as salas de cinema é por algum motivo - nem que seja a histeria das nossas moças ao contemplar um peitoral bem definido de Thor. Quero dizer que esses filmes emocionam de alguma forma, mesmo que seja "apenas" no deleite visual dos efeitos especiais, o que já torna o filme muito mais que válido, na minha opinião

Raio Laser - CIM disse... @ 9 de junho de 2011 19:50

Pô Rayk, beleza. Eu nem comentei sobre o filme do Thor, que nem tinha sido lançado quando escrevi o texto. E que, aliás, não chega a ser um lixo hediondo (é apenas "ruim normal"). Eu gosto de altos filmes de super-heróis, mas não acho que uns 80% da bilheteria do cinema mundial precise se arrecadada a partir deles, sacou? Tipo, o cinema teve mais de 100 anos pra demonstrar com muita eficiência que "filme de super-herói" (e análogos tipo vampiro, bruxo, etc) não precisa ser sua única modalidade de expressão e dominar todo o mercado. E aliás... quem falou sobre o filme do Thor? O texto é sobre seus quadrinhos dos anos 60, Stan Lee, e tal... essas coisas estão do terceiro parágrafo em diante...

Rayk disse... @ 12 de junho de 2011 14:33

Tambem acho que é muito espaço pra uma unico formato ( o que não torna o formato dominante inválido ) .
Thor foi só um exemplo pra dizer que essa "banalização" do "super" e a consequente banalização dos quadrinhos em geral não é tão nociva assim, quando se leva em consideração essa dimensão mais formalista na apreciação. Mas isso tudo é so minha opinião : P

Anônimo disse... @ 16 de março de 2013 19:34

O cara aqui desse site fez uma resanha interessante desse texto:

http://caixadegibis.blogspot.com.br/2013/01/comunistas-odeiam-stan-lee.html

Rogério disse... @ 3 de setembro de 2013 15:37

é por isso que eu sou a favor da arte pela arte. Eu quando leio gibis tento separar a visão ideológica do roteirista da arte em si. Vejo a história como puro divertimento, entretenimento. O comunismo ou socialismo são ideologias fascistas e ditatoriais, isso todo mundo sabe, exceto os famosos comunistas de butique que desfilam com camisetas estampadas com o sanguinário Che Guevara.O problema no Brasil é que a maioria dos professores de História são ligados a sindicatos e partidos políticos como o PT...a primeira coisa que o leitor mediano tem que fazer para entender História é se afastar dos professores e ler livros e mais livros, sempre pesquisando sobre seus autores para não ter idéias ditatoriais de esquerda inculcados em sua mente através de seus autores.

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