por Ciro I. Marcondes

Para quem está perdido no nosso guia idiossincrático da estética e cultura das HQs francobelgas, pode ler a introdução ao segundo corte e o primeiro texto (Andarilho dos limbos) aqui, além dos textos do primeiro corte (aqui). Li Ulysses numa reedição americana, Heavy Metal Classics, de 2006, que reúne os dois volumes da obra. É uma leitura leve, deliciosa e estimulante.

Polifemo
2: Ulysses (Georges Pichard e Jacques Lob)

Zeus e os deuses do Olimpo: Legião dos Super-Heróis?
Concorda-se hoje que dia que a Odisseia seja uma coletânea de mitos das tribos gregas arcaicas reunidas em textos tradicionais cuja disseminação se dava, primeiro, apenas oralmente, e que depois foram organizadas por dois ou três aedos que acabaram sendo convencionalmente reunidos sobre a alcunha “Homero”, no Séc. 8 a.C. À Odisseia junta-se a outra epopeia clássica, a Ilíada, além de outros textos épicos que se perderam, muitos deles ainda na época da antiguidade. Estes textos sobreviventes fazem parte de nossa fundamentação filosófica, histórica e religiosa, e deveriam ser lidos cuidadosamente por qualquer cidadão que se interesse minimamente por cultura ou história. Estas estruturas míticas, que englobam a criação de arquétipos definidores, preceitos morais e toda uma substância linguística herdada pelo ocidente, se manifestam em grande escala em nossos conceitos filosóficos, literários, psicanalíticos, sociológicos e políticos. Obviamente, a Odisseia é um dos textos mais apropriados, parodiados, reprocessados e adaptados da nossa história. Enquanto outras mídias procuraram sempre reinventar o sentido da tenebrosa viagem de retorno de Ulisses (ou Odisseu, para os gregos) após vencer a guerra de Tróia, os quadrinhos realizaram apenas leituras tímidas, quase todas adaptações infantis.
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por Pedro Brandt

Já foi mais fácil gostar de Frank Miller. Primeiramente porque seus quadrinhos já foram muito melhores. E, segundo, porque sua pessoa pública, ao menos no passado, parecia mais simpática. E mais coerente. Para alguém que se disse desiludido com Hollywood depois da experiência traumática que foi escrever o roteiro de Robocop II, Miller não parece ter se importado com princípios quando fez sua horrenda adaptação cinematográfica do Spirit – personagem de seu velho amigo Will Eisner que, morto em 2005, não teve o desgosto de ver sua criação massacrada na tela de cinema.

Recentemente, o americano escreveu em seu blog sobre o movimento Occupy. O teor do texto é tão reacionário que cabe a pergunta se Miller realmente pensa aquilo tudo ou se suas palavras apenas expressam a frustração do artista com as críticas negativas recebidas por seu mais novo trabalho, Holy terror.

O no mínimo controverso Holy Terror
O rancor do discurso de Miller parece ir de encontro a muitas coisas pelas quais ele já lutou e defendeu. Existe uma pouco lembrada HQ dele lançada pela Dark Horse em 1997 chamada Tales to Offend, uma provocação ao Comics Code Authority, o famoso selo que regulava o conteúdo que poderia ser publicado em um quadrinho americano mainstream. Em Tales, FM apresenta uma história do universo de Sin City (Daddy’s little girl, publicada no Brasil em 2001 em uma one show, da editora Pandora) e duas histórias do anti-herói Lance Blastoof, um mercador da morte que viaja pela galáxia fazendo negócios escusos, nunca se preocupando com quaisquer consequências. O engraçado é que no último quadro da última história, Blastoff diz ao leitor “Nunca deixe o Sr. Oportunidade passar por vocês, crianças!”


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Cebola dá o fora na Mônica com a típica evasiva masculina (Maurício de Sousa ©, 2011): Dia desses estava no supermercado e, na fila do caixa, me deparei, já atrasado, com a famosa "HQ mais vendida nas américas em 2011". Peguei aquele gibi lacrado, com um desenho do "Cebola" e da Mônica dando um beijo não tão molhado assim (tão de lábios fechados, pô!) sob afrodisíaco luar, e vi o preço: R$ 6,90. Parecia razoável por "Turma da Mônica Jovem - em estilo mangá", já que o acabamento é cuidadoso e tem 130 páginas. Pensei que, pra dar uma detonada, é preciso ler o material, mas nem vale a pena (detonar). De fato, a qualidade como HQ (mesmo pra tweens) é duvidosa e tive muita dificuldade em ler até o final (quem me conhece sabe que sou tolerante), mas o projeto editorial é bem pensado, a mercantilização do negócio segue a tendência correta e, em certos momentos, há que se dar o braço a torcer. 

Porém, estes dois quadros aí de cima, fora de qualquer planejamento, corrompem a programática de previsibilidade capitalista do Maurição. Afinal, vamos pensar juntos: "Turma da Mônica Jovem - em estilo mangá" deve ser uma das coisas mais supostamente politicamente corretas no mercado editorial. Você abre uma página e já lê: "Uma nova aluna do Colégio do Limoeiro mostra que problemas com o peso podem não estar na balança, mas na cabeça..." - ora, pela silhueta da personagem, ela deve estar tendo problemas na cabeça sim, mas com a cabeça de baixo do namorado. Mesmo assim, tem essa coisa inclusiva de classe média culpada, procurando abrir portas pra uma juventude saudável e companheira, que vem nos assombrando desde a estreia de "Malhação". Apesar de uma "token" gordinha, todo o resto é um bando de gente bonita (quando vi o "Tonhão da rua de baixo" versão teen, fiquei de cara), tipo "geração Z, classe A-B". Não tem um flácido, um feioso, uma magrela, um zarolho... e não vi nem cheiro de um negro, um gay ou um maconheiro. O Cascão tem toda pinta de maloqueiro, mas mesmo assim é um recalcado e domesticado, e as garotas gostam dele mesmo fedido. O cadeirante da turma (token) também parece um modelinho teen, Bieber-like
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por Ciro I. Marcondes

Dando sequência ao nosso altamente pessoal, idiossincrático e incompleto (reclamações e ausências são bem-vindas – na caixa de comentários) guia pra iniciantes em BDs, vou fazer um pulo ainda mais recortado para falar um pouco sobre um fenômeno que consumiu as HQs francobelgas nos anos 70 e se tornou influência maior para os quadrinhos adultos desde então. Aqui no Brasil, caras como Mozart Couto e Watson Portela rapidamente aderiram ao apelo sci-fi-erótico-lisérgico que o surgimento da revista (1975, França) Métal Hurlant disseminou no imaginário dos quadrinhos. A versão americana, Heavy Metal, (que sempre teve muito pouca relação com a equipe editorial que produzia a original francesa) acabou cristalizando o conceito e eternizando-o. Mesmo assim, esta mistura específica de subculturas pop é ainda signo de HQ europeia, e determina um ponto de virada retumbante na cultura da BD, engolfando outros países de língua latina, como Espanha e Portugal, definitivamente para dentro deste imaginário.

Mas em quê consiste? Bem, o recorte aqui será pontual e pessoal, podendo ser estendido ad infinitum, de acordo com a vontade deste resenhista de continuar escrevendo a respeito. A ideia de tragar as culturas sci-fi e de fantasia (sempre eminentemente britânicas e americanas – Júlio Verne e Georges Méliès à parte) para dentro do cânone dos quadrinhos nunca foi nova. Basta lembra Flash Gordon, Bucky Rogers, o próprio Superman (coisa derivada do sci-fi pulp em suas origens). O onírico/lisérgico já se anunciava desde os early comics, como comprovam Little Nemo, Félix, Mickey Mouse, etc. Além disso, evidentemente, a longa série de sci-fipulp da EC, qualquer coisa em Tintim, alguma coisa ainda em Mandrake, e até mesmo o Brasil entra no balaio com o sincretismo mecanoide que era Garra Cinzenta. Na Argentina, a partir de El eternauta, o gênero cria uma forte tradição.

Logicamente, tudo que ocorre nos anos 60 – direitos civis americanos, guerra do Vietnã, desbunde, flower power, panteras negras, maio de 68, summer of love, Bob Dylan, Beach Boys e Beatles, libertação da Argélia, descolonização da África, Che Guevara, crise dos mísseis, 2001, tropicalismo, feminismo, nouvelle vague, etc, etc, etc... – acaba por transformar (e transtornar) profundamente o artista dos anos 70, e creio que, nas HQs, Guido Crepax e sua Valentina acabam se tornando um paradigma para gerações de HQs europeias vindouras. Aquela coisa linda – belas, poderosas e libertárias mulheres; abuso de lisergia, drogas e psicodelia; as formas modernas de artes plásticas instiladas no conteúdo e na forma das HQ; e uma dose cavalar de mundos fantástico, sci-fi como leitura do mundo e influência do sonho e do delírio – se tornaria paradigma, ainda que, creio eu, poucos tenham chegado aos pés do mestre italiano.

Portanto, este é um mundo de vastidão cósmica e, no meu caso, vale mais fazer meu próprio guia do que sair por aí arrotando regras. Escrevo sobre quatro álbuns específicos que me impressionam, de autores fundamentais, em quatro posts, e defino aqui, agora, instantaneamente, os subgêneros que lhes cabem. Boa viagem intergaláctica!
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Dois fenômenos interessantes se agregam neste post. Primeiro, o enfoque nos webcomics, um interesse meu já com certo tempo, mas que não tive tempo de desenvolver autonomamente. Se há algo que, dentro da ideia de "quadrinhos além", pode se inventariar para uma transformação do meio das HQs e gerar formas de expressão híbridas, isso já está expresso no presente dos webcomics. O que nos leva ao segundo fenômeno auspicioso: a estreia do nosso querido leitor, consumidor apaixonado e dedicado de todo espectro de atuação dos quadrinhos, o jovem ilustrador Thales Lira. Como eu sabia que, além de pegada como arqueólogo das HQs, ele curtia explorar este ambiente inovador dos webcomics, convidei-o, após ler textos seus de boa qualidade, para escrever este pequeno guia para nós. Também conferi tudo que ele indicou e acho que vale um baita debate lá caixa de mensagens. Thales está para se formar em artes visuais na Unicamp e agora cabe decidir o que pode impulsioná-lo mais: se a teoria ou a prática. Greetings! (CIM)

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por Thales Lira

Falar de webcomics hoje está longe de ser algo inovador, já que diversos artistas serializam e publicam trabalhos na internet, chegando a ser quase uma norma para qualquer aspirante a quadrinista: “Tenha um site, gera conteúdo, atraia pessoas para o seu trabalho” seria a regra não-escrita.

Desde que Scott Mcloud apontou para as possibilidades da web no desenvolvimento das histórias em quadrinhos, diversos autores já se aventuram nesse terreno. Alguns usando como uma extensão das formas tradicionais como serialização de tiras, algo típico de jornais, outros explorando as possibilidades do meio, como a famigerada tela infinita, uso de imagens já prontas (clip-art, os “memes”) e alguns casos até animação.

O que se pretende aqui é fazer algumas indicações de webcomics que considero interessantes no momento. Como todo apontamento, ela está sujeita a gostos pessoais, fenômenos astrológicos e desvios de caráter, portanto nunca dará conta de toda extensão e diversidade que figura na rede. Vamos então às indicações, em uma ordem arbitrária sem hierarquia de valor:
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Estive em São Paulo recentemente, mas a passagem foi muito curta (apenas uma segunda-feira, praticamente). Logo após sair de um importante compromisso, queria voar até o Centro Cultural São Paulo para ver esta exuberante exposição de Will Eisner e escrever algo aqui para a RL. Bem, segunda-feira os museus fecham e fiquei na mão. Ainda bem que essa figura de impressionante solidez intelectual e artística que é Lima Neto foi e executou, com primor, a minha intenção, para a página da Kingdom Comics. Ele liberou o texto pra gente. Salve! De minha parte, apenas uma modesta contribuição: estou disponibilizando o arquivo de power point (aqui!) sobre Will Eisner que usei para aulas de História e narrativa de Quadrinhos na Universidade de Brasília (Valeu Lima! - CIM).
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por Lima Neto
fotos de Rafael Felix

Se você é assíduo leitor deste blog já deve saber do que é feito uma boa História em Quadrinhos. Aquela mistura mágica entre narrativa gráfica e ou texto, uma arte fluida e convincente e aquela habilidade cada vez mais rara de saber como contar uma história. Se esta definição lhe traz o nome de Will Eisner à mente, então você precisa ir urgentemente à exposição “O espírito vivo de Will Eisner” que está rolando no Espaço Cultural São Paulo, ou torcer para que ela visite sua cidade. Mas, para apreciar a beleza desta exposição é preciso que deixemos todas essas qualidades citadas acima de lado, o tipo de magia que se pode experimentar na mostra é de um tipo bem diferente e secular.
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 por Pedro Brandt

Insatisfeita com o que considera mesmice, falta de ousadia do mercado editorial brasileiro, Rachel Gontijo Araújo resolveu publicar ela mesma os livros de que gosta. Para a empreitada, não poderia ter escolhido nome mais apropriado. A Bolha Editora começou a atuar este ano e já nos primeiros títulos deixou clara sua proposta.

Vá para o diabo, do argentino Federico Lamas, por exemplo, apenas parece um caderninho do tipo moleskine repleto de ilustrações. Mas visto com o auxílio de um visor que acompanha a publicação (chamado de visão infernal), os desenhos revelam segredos (escabrosos e divertidos), e mostram o que, a olho nu, o leitor não consegue perceber.
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O horror da guerra em pelúcia (Ian Edington e D'Israeli, 2004): enquanto Hollywood continua gastando milhões em merchandising de fantasia e adaptando livros ruins do gênero em infindáveis partes iguais, uma história que poderia se tornar um verdadeiro renovador do gênero continua relegada a uma injusta marginalidade. E foi publicada no Brasil. Eu adquiri O reino dos malditos no ano de sua publicação pela Pixel em 2006 (original da Dark Horse), mas até um dia desses ainda podia ser encontrada em um saldão motivado pelo fim das atividades quadrinísticas de editora por muito módicos R$ 3,00 num Wall-Mart da vida. E essa HQ tinha tudo para virar um grande filme: trata-se de uma história intensa, perturbadora, e de tiro curto: pouco mais de 100 páginas que alternam entre um colorido mágico com gosto de infância e um ambiente tenebroso de devastação e genocídio. A trama é simples: em seus cada vez mais constantes e cada vez mais violentos desmaios, o prestigiado autor de fantasia Christopher Grahane adormece e retorna, em sonho, a Castrovalva, um mundo que ele criaria quando criança, povoado de fofos seres imaginários. Porém, algo muito brutal ocorreu a Castrovalva enquanto seu autor cresceu e se tornou adulto: a terra ampliou-se em seu inconsciente e foi dominada por um ditador brutal e desumano, promovendo pandemônio e horror ao antes inocente mundo infantil.
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por Ciro I. Marcondes

Li Daytripper, dos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, em um avião. De certa maneira, acabei me tornando um leitor privilegiado de uma obra que não para de receber o mais unânime e justo laureamento. No avião, você parece ainda mais dentro de Daytripper, como se esta coincidência de ironia macabra fizesse parte daquele penúltimo capítulo, de um sonho emaranhado na vida, que nunca termina. Como Daytripper nos alerta, a cada instante, da possibilidade iminente da morte (ainda que celebrando a robustez da vida), não apenas não havia como não se substituir pelo personagem Brás de Oliva Domingos (isso é óbvio, já que esta HQ fala mesmo é de mim, você, todos), como não havia como não pensar em minha própria morte, em sua iminência, naquele mesmo instante. Para quem já leu, apenas imaginem como me senti enquanto estava lendo o capítulo do acidente da TAM.  Penso que alguns não conseguissem empreender tal façanha (ler Daytripper no voo), mas a vida é esta, e o pior que podemos perder é ela própria, não é? Segui lendo, arriscando minha própria obsessão por uma morte irônica, e venci esta venturosa graphic novel.


Na página de abertura do capítulo dos sonhos, vemos Brás retornando ao episódio onírico em que se encontra, num bote, com Iemanjá, em mar aberto, rodeado por oferendas. Ela lhe diz: “Você é este barco flutuando em um oceano infinito. Estas cestas contêm desejos, ambições... forças que movem sua vontade adiante. Porém, se você ficar aqui apenas olhando para elas... cedo ou tarde... elas irão todas afundar”. Esse trecho, além de retomar a própria trajetória do personagem e dar-lhe ares mitológicos, fundamenta a linda base filosófica (schopenhaueriana, como veremos) da qual a HQ parte: a vida como insistência em resistir à força inelutável que é a morte.
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por Pedro Brandt


Usado sem critério, o termo graphic novel está sendo banalizado no Brasil. Hoje, qualquer publicação com uma história completa está ganhando a chancela de graphic novel, sem necessariamente o ser. O fato de a trama se resolver até a última página — em contraposição, por exemplo, às revistas em quadrinhos mensais, com histórias continuando na edição seguinte sem previsão para chegar ao fim — não é o suficiente para classificar uma história em quadrinhos como graphic novel.

Isso acontece pelo fato de o termo não ter critérios tão estritamente definidos. Em resumo, uma graphic novel é um romance (o gênero literário) narrado com o auxílio de ilustrações em sequência (a linguagem visual dos quadrinhos). O que ajuda a separar o joio do trigo é a intenção do autor. As graphic novels se popularizaram com títulos que buscavam temas pouco (ou nunca) explorados na mídia quadrinhos e novas maneiras de contar as histórias, com narrativas gráficas mais rebuscadas. São obras geralmente indicadas para leitores maduros. Surge daí o selo de qualidade geralmente associado às graphic novels — espertamente usado por editoras para atrair leitores e, em muitos casos, vender gato por lebre.

Nesse contexto, Asterios Polyp chega em um momento interessante às livrarias brasileiras. A HQ de David Mazzucchelli foi lançada em 2009 e laureada no ano seguinte como melhor graphic novel nos prêmios Eisner e Harvey (os dois mais conceituados dos quadrinhos nos Estados Unidos).
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por Ciro I. Marcondes

Chico Mozart
A história em quadrinhos que ilustra este texto se chama Os fabulosos X-Pué Inchados (número 1) e foi realizada em 1994 por dois promissores caras que – pasmem! – não se tornaram quadrinistas. O primeiro deles é este que vos escreve. Desenhei mais de 200 revistas completas entre, sei lá, 1988 e 1997, e devo ter acumulado uns... talvez quatro leitores nesta época. Meu irmão mais novo lia os gibis coagido por puro constrangimento. Creio que nem meu pai e nem minha mãe jamais leram nenhuma dessas histórias. Tudo parte de um grande conceito chamado “universo Bilak”, que talvez algum dia mereça um texto à parte. Acho que eu ainda não sei bem processar o autismo que era escrever e desenhar várias revistas completas por mês, de maneira obsessiva, e receber virtualmente nenhum feedback. Mesmo assim, nos idos de 1994, nesta incrível idade que são os 12 anos (nesta época, tricolor paulista bicampeão mundial seguido. Puta era de ouro), chamei um grande amigo meu, que fora colega da Escola Classe na 308 Sul desde a 4ª série, para uma empreitada de parceria.

Se você é de Brasília e tem o mínimo de vida social, deve conhecer a figura que é Chico Mozart. Naqueles idos de 1994 (Copa dos EUA, e tal), era apenas Chiquinho. Hoje, Chico é formado em Artes Plásticas pela UnB e trabalha no meio, mas o lance que realmente define sua inserção nas personas interessantes da cultura brasiliense hoje em dia é ao mesmo tempo sua onipresença e sua volatilidade: Chico está em toda parte, mas, ao mesmo tempo, está flutuando em seu denso mundo interno, em lugar nenhum, bem diferente da imagem boêmia, sem-noção e beberrona (ele é tudo isso também) que todos cultivam dele.
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por Ciro I. Marcondes

Levei a HQ Desgraçados, de Lourenço Mutarelli, para uma viagem em que realizaria prova para um processo seletivo bastante difícil. Como faz parte do primeiro ciclo de graphic novels do mais cult dos quadrinistas brasileiros (publicada pela Editora Vidente em 1993), era fininha e de rápida leitura. Boa para deglutir no avião e quem sabe produzir algo para a RL. Que catastrófico engano! Minha sorte foi ter lido no voo de volta. Desgraçados é da fase mais crua e indigesta deste excêntrico mestre, e sucede sua obra-prima mais perturbadora, a multipremiada Transubstanciação.


Certamente que uma HQ de tão doentio (todos sentidos) expressionismo, com cavalares doses de horror metafísico, não poderia ser uma leitura para descansar a cabeça. Mas a vida tem dessas lições de autopenitência, e com certeza estas experiências impensadas do acaso sempre aparecem para somar. Mutarelli, neste caso, é o próprio “abismo olhando de volta para você”. Vale explicar: Desgraçados é uma coleção de atrocidades brutais, rebaixando-se à mais abjeta miséria humana, com cenas de mutilação, suicídio, pedofilia, drogas pesadas, coprofilia e sadismo. Coisas que fariam arregalar os olhos dos realizadores de A serbian film. Certamente o título agressivo (minha mãe dizia que essa palavra – “desgraçado” – jamais devia sequer ser verbalizada), faz jus à exposição de miserabilia que se sucede. “A desgraça faz dos seres o que eles são”, diz a epígrafe do primeiro capítulo. Bem, como negar, não é mesmo?
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A ideia do calendário Pindura é tão genial que chega a ser ridícula. Como ninguém pensou nisso antes?! Se você ainda não conhece o Pindura -- premiado este ano com o troféu HQ Mix de melhor projeto editorial -- visite. Em resumo, o Pindura é um calendário temático que conta com a arte de diversos desenhistas, ilustradores, quadrinistas e designers do Brasil e exterior -- boa parte deles, atuantes no cenário de quadrinhos alternativos/ autorais.

O primeiro, de 2009, é um calendário com 12 ilustrações sobre o tema bar. Aliás, veio daí o nome "pindura" (de "pendura a minha conta aí, chefia!"). O de 2010, já contando com muito mais participantes, tem uma ilustração por semana, todas fazendo referência às paradas de ônibus de Brasília. O Pindura de 2011 chegou ousado, com ilustrações para todos os dias do ano. O tema é elevador e o formato, dessa vez, é o de calendário de folhinhas, daqueles que você arranca dia após dia.    

O Pindura 2012 é um poster de 64cm x 94cm. Colaboraram 181 desenhistas, com uma ou duas ilustrações de objetos que eles gostariam de deixar enterrados para serem encontrados pelas futuras gerações -- ou por quem quer que venha a viver na terra quando todos virarmos pó, afinal de contas, 2012 vem ai.

O Pindura é uma criação de Gomez, Stevz e Biu e é publicado pela editora redundantemente intitulada (ou genialmente intitulada, se você preferir) Pegasus Alado. 

Depois de passar pela Rio Comicon, o Pindura 2012 será lançado neste domingo, em Brasília. Na ocasião, também serão lançadas as HQs Aparecida Blues, Garoto Mickey, Peixe fora d'água e Golden Shower 2. O chapas da revista Samba estarão presentes com novidades, entre elas, a edição 2 da Kowalski. A carioca Rachel Gontijo, da A Bolha Editora estará lá com seus incríveis lançamentos (sério, dá uma olhada).Outras informações estão no cartaz. Clique em cima para ampliar. Tá lindão. (PB)

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por Ciro I. Marcondes

No posfácio da edição de O olho do diabo publicada pela editora Sampa em 1993 com três histórias de Mozart Couto dos anos 80, o próprio quadrinista analisa sua narrativa de um homem que vê a família morrer nas mãos do demônio da seguinte forma: “O demônio, que na história aparece como uma ‘entidade astral’, simboliza também nossa face oculta, a ignorância, que nos guia ‘nesse mundo estranho onde não se sabe quem perde ou quem ganha’, como diz o personagem narrador”. Já na lucidez dessa sacada a gente entende um propósito mais adensado muitas vezes não muito perceptível num produto de cultura de banca como esse gibi, hoje infelizmente no ostracismo.

Quem me passou essa joia foi Pedro Brandt, sabendo que eu era ao mesmo tempo fã de duas coisas que eram clara referência ao quadrinista: filmes de faroeste e a literatura de Guimarães Rosa. O olho do diabo é daquelas HQs que, travestidas de histórias ordinárias e descartáveis, na tradição do fumetti, com tons de super-herói e horror old school, não demora a arrebatar, congelar o sangue, impressionar adultos.
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Bruce "bopster" Wayne (Gerard Jones e Mark Badger, 1995): Nas últimas semanas fez-se algum barulho com uma imagem do Batman "mandando ver" na Mulher-Gato, talvez com desnecessária repercussão (na minha opinião um tipo obsessivo como o morcegão teria toda sorte de transposição e recalque libidinal, talvez encaixotando tudo num compartimento inconsciente obscuro, resultando numa assexualidade tipo... Michael Jackson?). Resolvi então acrescentar um comentário sobre outra possibilidade não-usual para o herói a partir de uma minissérie já bastante esquecida, publicada pela DC em 1995, no título "legends of the dark knight", reservado para histórias fora de cronologia . Batman: Jazz foi escrita por um roteirista pseudo-rebuscado (Gerard Jones) e um artista "bom em algum mundo ligeiramente diferente, no multiverso" (Mark Badger). Mesmo assim, vale dar uma sacada no argumento original/insólito da série: Batman vai até a uptown de Gothan para investigar as tentativas de assassinato contra um velho jazzista que seria uma sobrevivente versão do grande e revolucionário bopper, criador do jazz moderno, Charlie Parker.
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por Pedro Brandt

Na contracapa de Saino a percurá — Ôtra vez, Ziraldo pergunta onde foi que Marcelo Leis, autor do livro, aprendeu a desenhar, quem foi seu professor: “Quantos museus o Lelis visitou na vida? Como foi que ele conseguiu dominar, como um mestre, a mais difícil técnica de pintura do mundo, que é a aquarela?” O talento de Lelis talvez não se explique. É um dom. E basta ver alguma de suas ilustrações para entender a estupefação do pai do Menino Maluquinho.

O “ôtra vez” no subtítulo não é à toa. O álbum foi publicado pela primeira vez em 2001, de forma independente. Esgotada há bastante tempo, Saino ganhou relançamento. Mas chega as lojas reformulada. Além das três histórias presentes na publicação original, Saino a percurá — Ôtra vez apresenta mais 10 HQs (publicadas ao longo dos últimos 15 anos), resultando em uma coletânea da produção de Lelis com (quase todas) suas histórias em quadrinhos publicadas no mercado brasileiro.
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Nesta segunda-feira, Tex trocou a camisa amarela por uma preta. Zagor deixou a machadinha em casa. Dylan Dog, Martin Mystère e Julia Kendall tiveram que postergar suas investigações. Quando ficaram sabendo da notícia, Mister No e Nathan Never cancelaram as aventuras do dia. Em sinal de respeito, esses e tantos outros personagens pararam o que estavam fazendo para lamentar a morte do amigo Sergio Bonelli. O escritor e editor italiano morreu na manhã de hoje, em Monza, de razões ainda não divulgadas. Tinha 78 anos.

Estou longe de ser o maior conhecedor de Tex (criado pelo desenhista Aurelio Gallepini em parecia com Gian Luigi Bonelli, pai de Sergio) ou mesmo dos heróis citados no parágrafo anterior. Mas se me deparo com um gibi da Bonelli tenho certeza de que será uma leitura satisfatória. E isso só seria possível graças ao trabalho desenvolvido ao longo de décadas por Sergio na editora que leva seu sobrenome.

Em tempos em que o marketing ditas as regras do jogo e um personagem é morto em um dia para ser ressuscitado no outro, o respeito que Sergio Bonelli tinha por suas criações e seus leitores se torna ainda mais louvável. Em sinal de respeito, a Raio Laser tira o seu chapéu. (PB)



por Ciro I. Marcondes

Este artigo foi produzido para dois congressos pioneiros na tentativa de amadurecer os estudos universitários sobre histórias em quadrinhos no Brasil. O primeiro deles foi a II Jornada de Romances Gráficos, organizada pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, que rendeu debates amplos sobre a necessidade de se pensar os quadrinhos no Brasil, participações memoráveis de quadrinistas como Laerte e pesquisadores como Benjamin Picado e Elvira Vigna, além de um texto afetivo da Raio Laser. Os textos do congresso podem ser lidos aqui.

O segundo foram as 1as Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos, realizadas, em agosto na ECA-USP. De maior porte e maior diversidade temática (foram abordados aspectos múltiplos da história, da indústria, da tecnologia e da estética dos quadrinhos), este encontro foi fundamental para legitimar ainda mais esta opção de pesquisa, fazendo uma varredura espessa na maneira com que a pesquisa científica pode olhar para o fenômeno que são os quadrinhos.

Segue, então, meu artigo completo, publicado nos anais dos dois congressos, expandindo o que eu já havia anunciado em Raio Laser. Boa leitura e comentários são sempre bem-vindos.
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por Pedro Brandt

A colaboração de Mauricio de Sousa para os quadrinhos no Brasil tem vários méritos, mesmo que eu encontre muito mais motivos para criticar do que para elogiar sua atuação na área (escrevo sobre isso futuramente). Independente disso, Maurição sempre foi um grande homem de negócios. Ainda assim, acho que ele explorou muito pouco o potencial de seus personagens em outros produtos. Um exemplo: alguns aeroportos brasileiros têm lojas da Turma da Mônica, com roupas, cadernos, canecas, chaveiros, pôsteres, brinquedos e tantos outros itens com a estampa da turminha. Mas tente entrar nessas lojas e encontrar algo realmente interessante para comprar! A não ser que você busque um presente para uma criança pequena, sairá de lá com as mãos abanando. Para não ser injusto, lembro de algumas coisas (não verdade, não lembro exatamente o que) com desenhos dos personagens feitos pelo Nicolosi (o melhor desenhista que já passou pelos Estúdios Mauricio de Sousa). Isso eu achei até legal! Mas é pouco se você parar por cinco minutos e pensar no tanto de coisas legais que poderiam – e não são – feitas com todos esses personagens que o Brasil conhece e ama.

E se formos parar para pensar, os gibis da Mônica não são lidos apenas por crianças. Quantos adultos você já não viu lendo uma revistinha dessas no ônibus, na fila do banco, no consultório do dentista, no banheiro? Quantas e quantas vezes já não ouvi alguém dizendo, “não gosto de quadrinhos, mas leio Turma da Mônica até hoje”?
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por Pedro Brandt

Quem lê a Raio Laser, sabe que o nosso negócio são os “quadrinhos além”, em resumo, não queremos nos limitar ao esquemão dos quadrinhos mainstream. Para isso, é necessária toda uma dedicação, toda uma pesquisa para encontrar esses títulos que mais chamam a nossa atenção, que abastecem a fogueira da nossa paixão pelas HQs. Além de visitas a sebos, troca de ideias com amigos etc. e tal, tem um blog em especial que virou a minha Meca dos gibis, um espaço virtual que preciso visitar religiosamente todos os dias. Ali, achei quadrinhos que sempre quis ler, mas nunca tinha encontrado (em edição física ou virtual), outros que já li, mas são muito bem vindos em minha “coleção de scans” e, principalmente, quadrinhos que eu jamais saberia da existência não fosse pelo HQ Point.

Com um visual simples (quase um fanzine virtual), mas de fácil navegação e, o principal, democrático (todos os downloads são gratuitos), o blog é onde me abasteço. Confesso: às vezes a gula é maior do que a vontade de comer, e muitos arquivos esperam meses até serem conferidos. Coisas do nosso tempo – como essa nova possibilidade de poder ler, de graça, quadrinhos que, de outra forma, eu continuaria desconhecendo.

Se o HQ Point está certo em distribuir todo esse material gratuitamente, é motivo de um longo debate (e um muito pertinente nos dias de hoje). Acredito que o PC Castilho, editor do blog, tem uma postura muito correta com relação a isso, como ele mesmo comenta em uma das perguntas da entrevista a seguir. Acima de tudo, acho que o HQ Point presta um grande serviço aos leitores brasileiros de quadrinhos – e não deixa de ser curioso saber que os títulos mais baixados no blog não são quadrinhos, mas livros sobre ilustração.

Se tem um blog que complementa o que é a proposta da Raio, esse é o HQ Point. Se você não o conhece, recomendo uma visita longa e demorada. Boa leitura!
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Seguindo com nosso ótimo fluxo de colaborações, recebemos um texto do Professor e Mestre em Literatura pela UnB Eiliko Flores. Tendo se voltado, num doutorado, a um intenso estudo sobre diálogos entre gerações em nossa literatura, Eiliko foi convencido a reler uma antiga paixão, a incompleta e ambiciosa série Storyteller, do ilustrador Barry Windor-Smith, e a escrever sobre ela. Ei-lo:

por Eiliko Flores

Barry Windsor-Smith (1949- ) é conhecido pelo seu trabalho em Conan, o bárbaro, mas principalmente por Arma X, a brilhante graphic novel sobre a origem de Wolverine. Em 1997, artista já consagrado nos quadrinhos, com um estilo único que rendia o privilégio de fazer apenas as capas de muitas revistas, Windsor-Smith decidiu lançar um projeto autoral, criado em seu próprio estúdio. A revista se chamaria Barry Windsor-Smith´s Storyteller, e seria lançada em um formato ainda maior do que aquele usado nas graphic novels usuais. Storyteller era a autêntica criação livre e apaixonada de um artista completo, que escrevia, desenhava e coloria suas histórias.  
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Saído de uma edição maltrapilha de MAD (William M. Gaines e Bill Elder, 1953): esta imagem apareceu no meio de uma leitura entusiasmada de uma coletânea de bolso da revista MAD publicada pela novaiorquina Ballatine em 1956 a partir dos originais da EC de 52, 53 e 54. Este poeirento, mofado e fedorento livrinho reúne algumas das melhores histórias da MAD clássica escritas por Bill Gaines, como "Melvin of the apes",  "G.I. Shmoe" e "Little Orphan Melvin", com desenhos de caras legais como John Severin, Wally Wood e o próprio Bill Elder. Me custou a bagatela de 4 reais esse gibi puído e esquecido na prateleira de um sebo. Muito possivelmente, fui a última pessoa que vai lê-lo desde sua longa trajetória quando pertencia à biblioteca da Sociedade Americana dos Amigos dos Marinheiros (como diz um carimbo na folha de rosto), ou quando passou às mãos de um certo ˜Eduardo˜, que não deixou qualquer outro registro. Digo isso porque, na medida em que fui lendo o gibi, ele foi literalmente se despedaçando, por mais que eu tenha costume de ler livros com cuidado para preservá-los. Primeiro, ele se dividiu ao meio. Depois, uma de suas partes segmentou-se em outras duas (estilo Gremlins), até que as páginas começaram a cair uma a uma, algumas realmente se esfarelando. Death comes to us all, even little books

O humor da MAD original, como se sabe, era paródico e pentelho, e foi uma das primeiras publicações a sacanear pesado com a cultura pop de sua própria época, coisa hoje quase irritantemente lugar-comum (de coisas boas, como South Park, a ruins, como CQC). Incrível que uma concepção completa de humor contemporâneo tenha saído da cabeça de uns 4 ou 5 caras no meio do macartismo americano. Esta história Frank N. Stein é uma das mais divertidas, justamente porque Gaines cria a paródia perfeita do cientista europeu genial, sádico e obcecado. Tudo bem que o Dr. Frankenstein original fosse um personagem suíço. Aqui ele vira um alemão aloprado, de sotaque carregado (chega a ser difícil de entender coisas como "Ja boss! Ja boss! All der time you iss saying, 'Ja boss'! Rause mitt der 'Ja boss', hey vill you?"). Era o início dos anos 50, bem fácil de sacanear alemães.
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por Ciro I. Marcondes

O expressionismo é um padrão visual e conceitual que, com o passar do tempo e diluição bem rala de suas origens, acabou deixando de ser uma estética completa para se tornar uma espécie de estilema. Digo isso porque, na maioria das coisas que vejo com influência expressionista, parece existir uma intenção bem explícita de parecer expressionista, como se identificar essa predileção fizesse parte do processo de entender estas obras. Isso faz com que sempre esses efeitos pareçam somente lisonjeiros ou até paródicos. Daí coisas como o cinema de Tim Burton ou boa parte desses filmes de terror asiáticos. Nos quadrinhos acho que o fenômeno se repete, sendo o estilema um conjunto de dados visuais bem fechado. A gente pode achar isso desde na clássica história de Spiegelman “Prisioneiro do planeta inferno”, que aparece também em Maus, até nas adaptações de Kafka feitas por Peter Kuper, legais, mas bem óbvias, apesar de um quadrinista como Mutarelli flutuar na direção de uma composição bem mais orgânica com o tema.

É aí que vejo o maior mérito (não pequeno, e não único) da graphic novel Três sombras, do francês Cyril Pedrosa, premiada em Angoulême e publicada aqui pela Cia. das Letras. Curiosamente famoso por animar Hércules e Corcunda de Notre Dame para a Disney (guardadas as proporções, a base do traço é a mesma de Três sombras), Pedrosa acabou escrevendo um conto de fadas não apenas com franca inspiração expressionista, mas que também traz o conteúdo essencialista de seu arcabouço estético e filosófico sem parecer estar fazendo um monte de citações inócuas. Três sombras tem muita força estilística e conceitual, e a beleza de sua história aproveita, de maneira muito pessoal, o fundamento expressionista sem recorrer a um estilema visual.
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por Pedro Brandt

No ano em que Zé Carioca, o mais verde e amarelo dos personagens de histórias em quadrinhos, completou 70 anos (ou seriam 69? Há divergências), cabe uma pergunta: a cultura, as temáticas, as histórias, enfim, o Brasil pode servir como inspiração para HQs? Muitos responderiam que sim. No entanto, não é preciso ir muito longe para  perceber que a maioria dos quadrinhos brasileiros têm, no fundo, histórias de teor universal nas quais a brasilidade aparece de maneira mais implícita. Essa constatação de forma alguma tira os méritos desses quadrinhos. Mas é interessante notar que alguns autores têm conseguido imprimir em suas obras uma inegável cara brasileira — sem apelar para ufanismo. Marcello Quintanilha e André Toral são dois deles.

Coincidentemente, Quintanilha e Toral estão com novos trabalhos na praça, Almas públicas, do primeiro, e Curtas e escabrosas, do segundo. Mais coincidências: ambos têm 72 páginas e um preço muito parecido. Além disso, os dois álbuns apresentam tanto histórias recentes quanto trabalhos antigos dos desenhistas/ roteiristas. Outra semelhança entre eles são os desenhos com personalidade, imediatamente reconhecíveis. Mas enquanto André Toral é mais direto e simples, Marcello Quintanilha é rebuscadíssimo, próximo da fotografia.

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Temos recebido colaborações de gente legal e preocupada em pensar o mundo dos quadrinhos. Ficamos extremamente felizes com o entusiasmo das pessoas em torno do conceito do site. Esta última é muito especial, porque vem de um cara que tanto eu quanto o Pedro admiramos enormemente. Lima Neto é artista plástico, quadrinista e empresário, e é responsável por uma parada obrigatória da cultura pop em Brasília: a gibiteria Kingdom Comics, no Conic. Esta loja é, desde os anos 90, ponto nevrálgico do debate quadrinístico na cidade, onde passam grandes figuras, são trocadas grandes ideias e construídas grandes amizades. Lima não apenas mencionou a RL no (ótimo) blog da loja, como nos ofereceu a republicação de um texto lúcido e necessário. Só temos a agradecer. (CIM).

por Lima Neto

Se você leu qualquer site ou blog de quadrinhos nesses últimos dois dias, já deve estar por dentro de duas novidades que veem tendo uma grande repercursão no mundo dos gibis.

Como essas notícias jã não são mais novidades e foram amplamente divulgadas até pela imprensa leiga, não vou temer spoilers…

A primeira notícia se refere ao Homem-Aranha do universo Ultimate. Como já noticiamos em nosso site, a Marvel deu carta branca para a equipe criativa do universo de Marvel Millenium para ousarem e escreverem o tipo de estória que nunca seria visto no universo convencional da editora. Esse com certeza é o maior presente que um escritor poderia receber e é uma ótima notícia também para os leitores ávidos por novidade. Sendo assim, munido de uma liberdade editorial inédita em um título do Aracnídeo, o escritor Brian Michael-Bendis botou as mangas pra fora e revirou o mundo do Ultimate Spider-man de cabeça para baixo. Peter Parker encontrou seu fim em um dos momentos mais tocantes da série e foi substituído por um novo personagem: Miles Morales. Jovem e negro de decendência latina.
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por Ciro I. Marcondes

Nos últimos tempos, vem me ocorrendo essa necessidade inexplicável de retratações ambíguas, e é um tipo de processo um pouco angustiante, mas satisfatório. Justiça seja feita. Se em primeiro lugar veio um texto baita elogioso sobre Thor, chegou a vez de pensar novamente em Superman. Este texto já estava planejado, mas vem a calhar, já que não vale a pena ficar pensando no Super apenas como um fetiche cultural do bully ou do escoteiro. Partindo do mesmo Grant Morrison de quem parti em “Superbully Americano”, a ideia é trazer uma visão espelhada, em tudo um negativo da outra, da primeira apresentada.

Eu já vinha lendo a HQ All-star Superman antes mesmo de começar a ler o Superman crônicas, que inspirou o texto “Superbully americano”. Escrever sobre Superman já era um interesse de longa data. Acho que, nessa altura de vida e dos nossos tempos, cabe pensar um pouco num dilema difícil, que acompanha as pessoas no presente. Que tipo de homem deve-se querer ser? Deve-se avançar até o limite de sua própria potencialidade e produtividade, buscando superar sempre as próprias condições de atuação no mundo? Ou deve-se conformar com nossa condição limitada, mortal e modesta, tornando-se o homem comum uma carapuça confiável e justa, dentro da condição de cada um em alcançar a própria felicidade?

Acredito que o mito de Superman tem a ver com isso. Usei, portanto, a minissérie All-star Superman (publicada em 2007 pela Panini sob título Grandes astros Superman), cultuada parceria do escocês Grant Morrison com o célebre ilustrador Frank Quitely (publicada originalmente entre 2005 e 2008), para ao mesmo tempo instigar este tipo de questão mais filosófica sobre Superman e testar a leitura de uma HQ mais longa no Iphone, procurando pensar também na mudança de input na recepção da leitura dos quadrinhos que este tipo de gadget proporciona.

Uma tarefa, portanto, que resume certo grau de imaterialidade e eternidade (“buscar os aspectos quintessenciais da mitologia do Superman”, parafraseando Morrison) com a fortuita mudança de suporte para os quadrinhos, que pode ser bem passageira e sugere volatilidade (ler pelo Icomics no Ipad ou pelo CDisplay já é diferente, e não sabemos qual(is) modelo(s) de leitura digital pode permanecer). Vou dividir este texto, então, em pequenos blocos alternando comentários pontuais sobre All-star Superman em si e outros processando as sacadas que a dinâmica para quadrinhos que o app da DC para Iphone (que é idêntico ao da Marvel) me proporcionou. Espero que gostem da leitura.
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Maus
Dando continuidade à nossa série de gentis colaborações, RAIO LASER apresenta um texto muito especial. "Valsa com Bashir: experiência, memória e guerra" é um artigo do professor e pesquisador Pablo Gonçalo, publicado originalmente na revista portuguesa Doc Online, especializada em visões sobre o gênero do documentário. Pablo atualmente desenvolve tese de doutorado pela UFRJ e é um dos mais promissores pesquisadores brasileiros no campo do documentário cinematográfico. Ele produziu este texto pensando nas relações ambíguas entre uma certa invenção da memória e a constituição deste mesmo processo na elaboração dos fatos pelo evidenciamento da narrativa. Para isso, ele costurou uma relação necessária e midiática com extensa análise sobre não apenas o filme de animação Valsa com Bashir, o genial quase-doc israelense de Ari Folman, como também sua adaptação em quadrinhos (pelo mesmo Folman, com o ilustrador David Polonsky) e uma necessária ponte com o aspecto pós-memorialístico do clássico Maus, de Art Spiegelman. Boa leitura! (CIM)

Valsa com Bashir: experiência, memória e guerra

por Pablo Gonçalo

1.

Um documentário. Uma animação. Uma história em quadrinho. Uma narrativa autobiográfica. A história contada em Valsa com Bashir utiliza-se de diversos instrumentos e recursos para reconstruir e recuperar a memória do massacre de Sabra e Chatila durante a invasão do Líbano por Israel, em 1982. Mais do que um retrato de um importante acontecimento histórico, uma investigação ou uma narrativa expositiva, o autor Ariel Folman optou por expressar seu ponto de vista e sua própria experiência nesse acontecimento.

Ao apostar numa linguagem que mescla gêneros e cruza fronteiras, Valsa com Bashir oferece ao espectador uma imersão sui generis na experiência de uma guerra. Seja pelo filme, seja pela história em quadrinho, que acompanhou o lançamento do filme, a relação entre imagem e memória obtém uma força peculiar nessa história. Como se fossem indissociáveis, ambas brotam e ressurgem simultaneamente por meio da teia narrativa. Este artigo possui o objetivo de investigar como se alinham tais combinações entre experiência, narrativa autobiográfica, imagem e memória nos diversos suportes de expressão de Valsa com Bashir.
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por Pedro Brandt

Um dos maiores nomes das histórias em quadrinhos, o francês Jean Giraud, pseudônimo Moebius, andava sumido das livrarias brasileiras. Aliás, a publicação de seus trabalhos em versão nacional sempre foi espaçada. Depois de histórias esporádicas em revistas e alguns poucos álbuns lançados na virada dos anos 1980 para os 1990, HQs de sua autoria só voltaram a ser publicadas no Brasil em 2006 — três volumes de Incal, parceria com Alejandro Jodorowsky, e três de Blueberry, o caubói criado por Giraud e o roteirista Jean-Michel Charlier.

A recente publicação no Brasil de Coleção Moebius: Arzach serve tanto para apresentar o trabalho do autor para novos leitores, como para proporcionar aos antigos fãs, finalmente, uma edição nacional da obra, uma das mais conhecidas e representativas de Moebius. O álbum funciona também como carta de intenções de uma nova editora brasileira de quadrinhos, a Nemo (integrante do Grupo Editorial Autêntica). Leia entrevista com o editor Wellington Srbek abaixo.

O personagem Arzach surgiu um 1975 e causou muito barulho à época, como lembra Moebius no texto de apresentação: “O fato de não haver texto em suas páginas de início surpreendeu muito. Além disso, a história não correspondia a nenhum dos esquemas narrativos clássicos, ao menos no âmbito dos quadrinhos, já que na literatura contemporânea esse tipo de caminho não tem nada de excepcional. Enfim, graficamente eu não medi esforços e dediquei a cada imagem um volume de trabalho e uma energia comparáveis àquelas que, geralmente, são reservados a uma pintura ou uma ilustração”.
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